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sábado, 31 de janeiro de 2015

Covilhã - Pedro Álvares Cabral e Belmonte VIII


 Encontrámos no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias documentação vária relacionada com a família de Pedro Álvares Cabral e Belmonte. Hoje continuamos a publicar esta memória sobre o Convento de Nossa Senhora da Esperança, próximo de Belmonte. Este convento é hoje uma pousada e a imagem da Senhora da Esperança está na Igreja de S. Tiago, em Belmonte.


Interior da Igreja de S. Tiago
Fotografia de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias
               
[...] 

         "Não são poucos os Religiosos que tem florescido nesta casa de Belmonte em Letras e Virtudes; e segundo o sistema que me propus vou fazer menção daqueles sujeitos que julguei mais distintos.
O Notário Apostolico Christovão Fernandes de Matos atesta em 1602 que entre os papeis que lhe apresentou o ministro de Lisboa, o Presidente (sic) Fr. Luiz de Figueiredo, havia um carta original da comarca da Covilhã, dos grandes serviços, que fizera na Casa de Saude daquela vila, na ocasião da peste de noventa e nove, um Religioso do Convento da Esperança, ministrando com zelo e caridade ao proxímo os remedios de corpo e  da alma, confessando e dando os sacramentos com grande edificação dos Povos. Estes papeis dos grandes serviços desta congregação foram para o Conselho de Portugal em Madrid e lá ficaram depois da Aclamação do Senhor Rei Dom João IV (22).
É de suma honra a este convento a memoria do P. Fr. Manuel dos Anjos, nascido na vila de Manteigas, seis leguas da cidade da Guarda , aos 11 de Fevereiro de 1595, e que professou no Convento da Pesqueira em 3 de Maio de 1616. Feito pregador e confessor, e deliberado o corresponder fiel ao uso de seu mi­nisterio sacerdotal conseguiu grande fruto nas almas dos Diocesanos do seu bispado. Os importantes lucros espirituais que tirava das missões que pregou naquela extensa cetedral, com beneplacito dos Exmºs. ordinarios D. Francisco de Castro, D. Fr. Lopo de Sequeira, e D. Diniz de Mello aos quaes foi muito aceite, lhe merecerão a estimação e respeito dos povos, que o tratavão como homem justo. Arrancando vicios e subministrando a doutrina da penitencia pela mortificação dos apetites e observancia da lei evangelica punha em paz os discordes, desfazia as intrigas, os odios, e firmava a boa armonia nos povos.
Recorrião a ele muitos sujeitos, ainda de grandes distancias, a pedir-lhe conselho em seus negocios e interesses particulares, que aplanava com sua autoridade e respeitosa veneração, encomendando-se outros em suas orações, que esperançados no valimento de servos do Senhor se prometião as graças, e beneficios do Ceu.
Estes e outros serviços feitos à Igreja Egitaniense, compensados nos copiosos e abundantes frutos que recolhia daquela vinha do Senhor, não lhe embaraçavam os continuados estudos das belas letras, da Historia Sagrada e Profana, fazendo particular interesse na lição dos livros doutos, compondo tratados eruditos sobre a Imaculada Conceição da Senhora, da Historia Geral do Mundo, e da Politica de Principes, unida com as virtudes inerentes à sua alta dignidade, em que mostra a vasta instrução que tinha das Santas Escritur­as, e estabelece doutrinas solidas e seguras; sendo por suas composições respeitado dos sabios. Faleceu no Colegio de S.Pedro de Coimbra, aonde se tinha recolhido a descansar, e polir as suas obras, aos 19 de Novembro de 1653. O Livro dos Obitos lhe faz um digno e merecido elogio (23)
Tem impresso = Triumfo da gloriosa Virgem Maria. Lisboa: 1638. 4º. Historia Universal do Mundo. Coimbra 1651. Lisboa 1702 e 1735. Politica Predicavel etc. Lisboa. 1693, e 1702. Folha.
Nem sempre a virtude vem seguida como herança de Pais a filhos: muitas vezes de um varão justo nasce um filho celerado, e pelo contrario: Os virtuosos e bons exemplos do P. Fr. Manue1 dos Anjos, tiverão uma seguida imitação em seu sobrinho o P. Fr. Manue1 de Stº. António. Nasceu este religioso na vila de Manteigas a 21 de Março de 1626, e professou no Convento da Esperança a 20 de Junho de 1644. A regularidade, observancia, zelo, e prudencia com que exercitou por duas vezes o lugar de Prelado no convento da sua educação claustral, lhe mereceram o respeito dos seus subditos, e o amor daqueles povos, que doutrinava e instruia nos preceitos o cristianismo. Era frequente na oração, e Penitencia, dando exemplo de modestia, e paciencia, cheio de virtude e merecimentos, faleceo no Convento da Esperança a 24 de Junho de 1704. (24)
Os grandes serviços que fez à Igreja Egitaniense o veneravel Provincial Fr. Miguel da Anunciação e o ser Diocesano deste Bispado, aonde é ainda hoje viva a memória deste austero e penitente religioso, me obriga a fazer menção de suas letras e virtudes, quando escrevo as noticias do Convento de Nossa Senhora da Esperança de Belmonte.
Sete leguas distante da cidade da Guarda fica situada a freguesia de S.Sebastião da Capinha, aonde nasceu este Padre a 15 de Novembro de 1646, professando o Instituto da Terceira Ordem, no exemplar convento de Caria a 14 de Setembro de 1664. Estudadas as Artes com o mestre Fr. Francisco da Natividade, chamado vulgarmente o mestre Beato não só aprendeu as ciencias Filosóficas e Teologicas com desempenho mas seguindo os seus virtuosos exemplos aproveitou tanto nos deveres da sua profissão, quanto testemunhão os exercicios de sua justificada vida, e os acontecimentos extraordinários de sua preciosa morte. Interessado na lição dos Livros Santos, foi reputado um douto, e instruido professor, ensinando no Co1egio de Santarem em 1676 as ciencias naturais com as luzes do seu seculo, deixando discipulos de muite literatura e instrução: e sendo lente de vespera e de prima nos Colegios de Coimbra, Santa Catharina, e em Lisboa, até que jubilou, foi considerado pelos sabios um teologo de singular ornamento desta congregação.
Entre as fadigas literarias, jamais preteriu os austeros sistemas a que o levava seu espirito, zeloso observador de sua Regra, praticava as vir tudes religiosas com suma exacção, distinguindo-se mui particularmente quando celebrava o augusto sacrif:cio da missa que exercitava confundido, e abismado no seu nada, derramando sempre lagrimas de ternura e compunção. Era bus­cado dos doutos e timoratos para a direcção e conselho, que (o) achavam sempre pronto e seguro (sic) em todas as materias, e com as doutrinas mais certas,e firmes na consciencia.
Chamado pelo Exmº. Ordinario da Guarda para educar os ordenandos daquela Diocese no seu seminario sera impossivel dizer em breve os dignos frutos da doutrina e exemplo praticados nesta casa. Com as ciencias eclesiasticas do Ejito (?) Prito (sic) da Teologia e da sã moral sempre se nutriam, e se fizeram doutos Parocos, emulos discipulos da sua instrução, e exemplos, lhes ensinava as maximas que deviam ter sempre presentes afim de conseguirem a felicidade eterna. Nas conferencias literarias que entretinha com erudição e graça, misturava com prudencia suaves admoestações, conhecia o mundo, a fragilidade da natureza; e as idades dos seminaristas; e sendo nimiamente austero consigo, não era pesado à educação da mocidade. Os jejuns, as vigilias, as rigorosas discipli­nas, e outros exercicios piedosos em que se exercitava este Religioso, indicavam a inocencia de seus costumes e lhe mereciam respeito e veneração.
Crescia a fama de sua probidade dentro e fora do claustro, e sendo eleito ministro provincial em 25 de Junho de 1707, o Senhor Rei D.João V formando um justo conceito de suas letras e virtudes o nomeou capelão mór das Armadas Reais pela promoção ao Bispado de Cabo Verde do Exmº. e Revdmº. D. Fr. Francisco de Santo Agostinho que exercitava este honorifico lugar.
Mil desordens acontecidas naqueles dias entre nós afligiram muito seu espirito: males que via ir arruinando a Religião e destruindo a virtude lhe feriam insensivelmente a alma, e sepultaram este douto varão na eternidade. Recebidos os sacramentos da Igreja com muita devoção expirou no ósculo do Senhor no Convento de Lisboa a 14 de Março de 1711 proferindo as palavras: Domine mi Jesu, in manus tuas cosumando spiritum meum.
Divulgada a morte deste prelado pela Corte concorreu ao convento inumeravel multidão de povo: grandes e pequenos querião respeitar o cadaver do justo: e foi tanto o concurso que no segundo dia de exposto custou muito ao Duque de Cadaval D. Nuno, a entrar pela portaria, não podendo romper na porta da Igreja. Vestiram lhe tres habitos; e o que levou à sepultura ia já muito bem retalhado. Entre outras dignidades eclesiasticas que vieram honrar a me­moria deste sabio e austero religioso foi o Exmº. e Revdmº D. Rodrigo de Moura Telles que passava da Igreja da Guarda a Arcebispo Primaz de Braga, e rompendo em expressões honrosas de literatura de mestre Fr. Miguel concluiu dizendo: en­tre as virtudes do P. Mestre Capinha, sobressai muito a sua penitencia de que eram testemunhas as paredes do Seminario Egitaniense, muitas vezes rubricadas com o sangue das rigorosas disciplinas que ali tomava.
Seu corpo ficou flexivel e maniavel de cabeça, braços e mãos, que parecia desengonçado: o semblante respeitoso, e agradavel; e sendo sangrado muitas horas depois de falecido, lançou sangue, em que se molharam alguns lenços, não se percebendo, passados dois dias e meio corrução alguma, nem causando horror ao sexo melindroso, que em roda do feretro lhe tocava nas mãos; e cabeça; e reconhecendo as graças, e beneficios que recebião, manifestava as maravilhas do Onnipotente, obradas em honra, e gloria de seu servo. Foi retratado depois de morto, e se conserva em testemunho da sua virtude no Conven­to de Lisboa. Tendo passado dois dias e meio que esteve exposto na Igreja, entre lagrimas e satisfação dos Religiosos de probidade, no alto silencio da noite o deram à sepultura, engrandecendo todas as maravilhas do Senhor. A raiva fradesca, mais activa e veloz que o roedor Copim, tapando os olhos aos extraor­dinarios prodigios que obrava o Onnipotente, se enfureceu mordaz contra o vene­ravel superior. Foi escandaloso aos seculares as blasfemias que proferião cer­tos frades contra o austero e penitente Religioso, mas a sua reconhecida e justificada virtude, e de muitos outros Religiosos benemeritos de que vou fazendo uma sucinta lembrança, faz escurecer a malignidade de sordidos espiritos que se atrevem a apertar nas mãos a lama vil e imunda, mascarando a fama, e os aposentos dos superiores que se distinguem em merecimento de letras e de virtudes. De quanto não é capaz o coração preverso do homem mal educado e falta de principios da honra, civilidade e virtude.
Não sei dizer se foi espirito de partido ou simples curiosidade,abrirem a campa deste religioso, contra as leis eclesiasticas, depois de doze dias: encontrando os curiosos ou maldizentes o corpo sem corrupção, e do mesmo modo tratavel; e o lenço que lhe cobria o rosto, ainda com sangue puro, servindo depois esta alfaia do servo do Senhor de medecina eficaz ao sujeito que a reservou. O mestre jubilado Frei José da Conceição Escotinho, honrado depois com lugar de Ministro Provincial, pregou nas exéquias deste prelado maior, convencendo os caluniadores da sua perfidia, e realçando o discurso com a verdade que fez brilhantissimo aquele funebre elogio.
Neste cartorio de Lisboa se conservam cartas originais daqueles tempos, reconhecidas por notarios publicos, de varios parocos, Benficiados e Religiosos que testemunham a sua virtude e a guerra que o inimigo comum lhe fazia, quando este piedoso varão se dirigia aos exercicios virtuosos dentro e fora do Seminario da Guarda e em os nossos claustros (25).
                        Na campa se lhe poz este epitafio =

Sepultura do P. M. Fr. Miguel da Anunciação Capinha, Leitor Jubilado, Consultor do Santo Officio, Capelão-Mór das Armadas Raes, e Ministro Provincial, varão insigne em Letras e virtudes. Falleceo em 14 de Março de 1711 e admirarão-se na sua morte grandes prodigios.

Fazem menção deste sabio e virtuoso Padre muitos autores nacionais; e o Livro dos Obitos da Congregação faz uma honrada lembrança a sua memória. (26).
O pregador Fr. Francisco de Stª. Agueda, deu tambem um grande lustre a esta casa, por sua conhecida probidade. Nasceu na vila de Valegim no Bispado de Coimbra, e foi baptisado na Freguesia da Senhora do Rosario aos 24 de Janeiro de 1674, professando o Instituto a Terceira Ordem no Convento de Caria aos 5 de Fevereiro de 1698. Era este Religioso muito exemplar, amigo da paz, e caritativo em sumo grau, repartindo com os religiosos pobres dos seus trastes e cousas usuais para seu aninho (sic) e asseio; não fautando em socorrer no que podia a donzela honesta e a viuva recolhida; sobressaindo a sua compaixão com os pobres cegos e aleijados a quem ensinava a doutrina e liberalisava a esmola, sendo prelado deste Convento da Esperança foi zeloso e observantissimo da disciplina regular, não faltando nunca ao coro, e ouvindo sempre de joelhos a missa conventual, orando e meditando frequentemente na Paixão de Jesus Cristo, de que tirava abundantissimos frutos, e consolação espiritual. Teve graça e virtude particular do Ceu contra os demonios, obrando maravilhas extraordinarias pela força e eficacia de suas lagrimas, derramadas a favor daqueles miseraveis, diante do Augusto Sacramento, querendo o Onnipotente ser propicio aos seus rogos. Era venerado dos povos circumvezinhos por varão justo, formando um particular conceito da sua virtude o Excelentissimo Diocesano (sic) da Guarda D. Bernardo Antonio de Melo Osorio, como tambem o Excelentissimo Diocesano de Coimbra. Faleceu este religioso em fama de santidade na vila de Sandomil no primeiro de Dezembro de 1749 e está sepultado na capela mór da Igreja matriz, com sentimento e lagrimas daquele povo, res­peitando neste religioso um sujeito virtuoso e justo.
É ainda viva e saudosa na vila de Belmonte a virtuosa conversação do servo de Deus o Irmão Antonio, natural do lugar de Canas. Serviu muitos anos este irmão Donato na vida activa da comunidade de Nossa Senhora da Esperança, à qual unia o exercicio de uma grande virtude, sendo continuo na oração, nos jejuns e disciplinas, merecendo do céu particulares favores. Todos os secula­res daquelas visinhanças o veneravam por santo, publicando dele, com pia cre­dulidade extraordinários acontecimentos, que para gloria de Deus, ainda os velhos daqueles povos vão transmitindo de pais a filhos. Andava este irmão no peditorio, e os fieis se mostravam tão afeiçoados, liberalisando lhe as esmolas, e esmolas, e donativos, para que lhe abençoasse os frutos, e rogasse ao Senhor por eles. Havia tempos que havia prognosticado a sua morte, e che­gando ao lugar de Benespera, duas leguas distante do convento, na quinta fei­ra maior do ano de 1657, não pode passar adiante. Foi para a igreja e fregue­sia de Stº. Antão, aonde se confessou com devotas e enternecidas lagrimas, e recebendo o Augusto Sacramento da Eucaristia se retirou em contemplação; e extactico, com as mãos levantadas ao céu, deu a alma ao seu Creador. Algumas pessoas que estavam na Igreja o acharam assim morto. Avisados os religiosos do Convento da Esperança vieram, com pressa, assistir ao corpo e querendo con­duzir o cadaver para o seu mosteiro o não puderam conseguir pela devoção do povo. Depois de estar tres dias incorrupto e flexivel, não tendo mudança al­guma na cor do rosto, foi sepultado na dita freguesia de Stº. Antão do Lugar da Benespera, sendo ainda venerada a sua memoria pelos lugares circunvizinhos. Por tudo seja louvada e engrandecida a misericordia do Altissimo, pro­digiosa em seus servos, distinguindo-se ainda no deserto do Convento de Nossa Senhora da Esperança da vila de Belmonte, muitos sujeitos dignos de serem lembrados neste escrito, assim nas letras como nas virtudes, deixando aqueles antigos Padres testemunhos veridicos de suma honra a esta casa, de que farei particular memoria quando formalisar a historia Geral desta congregação, satisfazendo neste simples compendio aos desejos dos curiosos.
(FIM)

Notas:
(22) - Neste cartorio de Lisboa. Armario 2º. Pasta 18.  Papeis interessantes etc. se conserva este Instrumento autentico feito pelo notario Cristovão Fernandes de Matos aos 9 dias de Fevereiro de 1602.
(23) - Venerab. P. Fr. Emmanuelis ab Ange1is, Theologi admodum pii, ardentes charitatis Missionarii, Beatissimae Virginis, cultoris eximii, res morali atque divinii, et humanitoribus Litteris instructissinii, prudentes, pii, et eruditi Politici, Docti scpriptoris, Provinciae. Protoxrinarii Collegii conimbricensij Alumni ubi decessit suae virtutis, et Litteraturae fama clarus.
(24)- Sic. O cronista Garcez nas Memorias dos Religiosos Veneraveis, faz uma honrada lembrança deste Religioso.
(25) - Cartorio do Convento de Lisboa. Armario lº. Casa Ve. Maço 6 nº. 7.
(26)- Item vener. P. N. Fratis Micaelis ab Annuntiatione Capinha, sacrae Theo­logiae Lectoris Inbilati, Sancti Officii censoris, Collegii Conimbricen­sii Alummi, clasis Regiae Sacrifici maximi; Ministri Provincialis, quo tempore fuit magnum schisma in nostra Provincia, quo cujus pacifica compositione solerter adlaboravit benedictus vir: tandem poemtentiis, et Laboribus confectus obiit olisipone pronuncians = Domine mi Jesu in manus tuas comendo spiritum meum, cujus cadaver per triduum universae curiae veneratiom expositum suavemque spirans odorem coruscavit=
(27) – Segue-se em nota (14) sic a cópia do breve do Cardeal Protector de Medeces em que aprova os Estatutos feitos no Convento da Esperança em 1584. Não se copia por desnecessaria.


sábado, 27 de dezembro de 2014

Covilhã - Pedro Álvares Cabral e Belmonte VII

   Encontrámos no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias documentação vária relacionada com a família de Pedro Álvares Cabral e Belmonte. Hoje começamos a publicar esta memória sobre o Convento de Nossa Senhora da Esperança, próximo de Belmonte. Este convento é hoje uma pousada e a imagem da Senhora da Esperança está na Igreja de S. Tiago, em Belmonte.

Nossa Senhora da Esperança 


MEMÓRIAS DOS CONVENTOS DA CONGREGAÇÃO
DA 3ª. ORDEM DE FR. VICENTE SALGADO

Convento de Nª. Senhora da Esperança, junto à vila de Belmonte

Castelo de Belmonte
Fotografias de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias

Distante tres leguas da cidade da Guarda, na comarca de Castelo Branco, junto à vila de Belmonte, está fundado o convento de Nª.Senhora da Esperança da jurisdição ordinária da Diocese Egitaniense (1).
Foi Belmonte povoação populosa, elevada, e alegre por seu assen­tamento, sujeita à vila da Covilhã, mas com Foral que lhe deu El Rei D.Sancho 1º (2).
Nas alterações do Reino, governando o Senhor Rei D.João l, seguiu a Covilhã as partes de Castela; mas os moradores de Belmonte defenderam o seu castelo pelo soberano português, que em recompensa a criou vila, com jurisdição própria, por carta de dez de Abril da era de 1423, ano de Cristo de 1385 (3).
O Senhor Rei D.Manuel lhe deu novo foral, declarando o antigo de El Rei D.Sancho I; datado em Santarem no primeiro de Junho de 1510 (4). Tem a vila de Belmonte duas freguesias: Santiago, Priorado de concurso da Mitra: e Santa Maria, Vigararia do Padroado Real. É abundante de pão, vinho, gado, caça miuda, carne de porco, e recolhe bastantes linhos.
El Rei D.Afonso V, deu esta vila, com todas as suas rendas, foros, e direitos Reaes, excepto as sizas, a Fernão Cabral, fidalgo de sua casa, e Regedor da Justiça na comarca da Beira, e Riba Coa, para elle e seus descendentes varões legítimos, por carta passada em Évora a 24 de Setembro de 1466. (5) Fernão d'Alvares Cabral, pai do sobredito, e seu Avô Luiz Alvares Cabra1, tinhão conseguido a mercê de Alcaides mores do Castelo de Belmonte em vida somente; e Fernão Cabral, conseguiu do mesmo Soberano D.Afonso V esta mercê para si e seus sucessores, varões legítimos, por carta passada em Évora a 20 de Outubro de 1466. (6) El Rei D.Manuel confirmou tudo isto e outras mais mercês a João Fernandes Cabral, em Setubal a 17 e 19 de Julho de 1496 (7).
Casou João Fernandes Cabral com D. Joana de Castro, e entre outros filhos tiveram a Jorge Cabral, que na viagem em que partiu para e India o Governador D. João de Castro, foi comandando numa Nau, saindo de Lisboa aos 17 de Março de 1545. As heroicas proezas deste valoroso soldado, chamado o Romulo português, não são deste lugar (8). Ficou o Senhor Jorge Cabral por Governador daquele Estado por falecimento do Vice Rei D. João de Castro, em 1548, e o regeo um ano, com muito zelo, e desinteresse. Unia este fidalgo a probidade cristã com a vida militar; sua intrepidez era ajudada da força da graça que desejava merecer do Senhor por seus exercícios de piedade. Tinha uma particular devoção à Mãe de Deus, e trazia em sua companhia uma per­feitíssima Imagem da Senhora, a que fez o título da Esperança: encomendando­-se devotamente à Soberana Virgem, e confiado no seu alto patrocinio esperava o socorro e o amparo nas tormentas, e acções marciais. Não sei dizer se levou já consigo esta Imagem do Reino, ou se a mandou fazer na India, aonde D.Manuel Caetano de Sousa quere que casasse, sem dizer com quem (9) mas eu encontro em outros genealogicos, que Jorge Cabral, filho de João Fernandes Cabral, casou com D.Lucrecia Borges Corte Real, ou como outros lhe chamam D.Lucrecia Fialho, de quem teve única filha herdeira a D.Joana de Castro, casou com Fernão Cabral seu primo co-irmão.
Recolhido o Senhor Jorge Cabral ao Reino, e a casa de seus pais a Belmonte, intentou fazer uma ermida na sua quinta dos Crestados, um quarto de legua distante daquela vila, o que pôs em execução, colocando ali a soberana Imagem da Senhora da Esperança. O Pe. Fr. Agostinho de Stª. Maria, no Santuario Mariano diz, que Pedro Alvez Cabral, descubridor do Brazil em 1500, de volta da India para o Reino é que trouxe aquela Imagem e a colocara na ermida da Quinta dos Crestados, sendo venerada aquela Senhora dos povos vizinhos, pelos inumeráveis prodígios que obrava (10). As nossas memórias atribuem a colocação desta Imagem ao Senhor Jorge Cabral, que obrigado da sua devoção, amor e reconhecimento à Santa Virgem; e desejando continuar os perenes louvores à sua Protectora Maria Santíssima, convidou para isso aos Religiosos da Provincia da Piedade, que recusaram a fundação.
Concorria muito para o ornato e asseio da Capela e dormitorio Leonor Rodrigues, dona viúva, que servia de Ermitoa. Os bons exemplos de vir­tude, de doutrina e zelo da salvação das almas, que o Senhor Jorge Cabral experimentou em os nossos Religiosos, com quem tratava com familiaridade nas viagens, e assistência de Goa, nas conquistas asiáticas, o fizeram de liberal a oferecer a erecção desta casa à nossa ordem, celebrando-se a Escritura de Doação da Ermida da Senhora da Esperança, e quinta de Crestados com o Provincial Fr. Matias, na cidade de Lisboa a doze do Novembrbo de 1563 pelo Tabelião del Rei Heitor Dias de Magalhães. (11)
Com licença do Senhor Rey Dom Sebastião, Governando o Reyno na sua menoridade o Cardeal Infante Dom Henrique, e do Bispo da Guarda D. João de Portugal, filho do primeiro Conde de Vimiozo, se fundou esta casa (12). Tomarão posse da Ermida, e Quinta os Padres Fr. Chistovão, e Fr. Agostinho em 3 de Maio de 1564 mandado dar pelo Juiz Ordinário de Belmonte Andre Nunes, sendo tabalião Luiz Martins. Isto mesmo manifesta huma pedra que fica por detraz da porta do De Profundis que diz: Anno de 1564. Cresceo tanto a obra pelo fervor dos Religiosos, que em 5 de Agosto de 1565 se cantou a primeira missa, com muita alegria e prazer daqueles povos que cheios de devoção imploravão em suas necessidades àquela soberana Imagem da Senhora da Esperança; obrando o Onnipotente extraordinárias maravilhas em beneficio daqueles fieis.
He regular este convento, com tres dormitorios, e a Igreja a um lado, que faz um grado com seo claustro, quinze cellas, hospedaria, e officinas proporcionadas. A Igreja tem tres altares: a capella mór he dedicada a Nossa Senhora da Esperança, titular do convento. Tem seo retabulo, tribuna e tecto entalhado, e tudo doirado, obra mais moderna da fundação. He perfeitissima esta imagem, que está elevada no trono, trabalhada em belo jaspe, com altura de cinco palmos e meio, e o Menimo Jesus assentado no braço esquerdo, que a senhora acompanha com a mão direita, tendo neste braço um passarinno com as azas abertas, querendo picar no ramo, que o menino tem na mão. O altar da parte do evangelho he dedicado a Jesus Cristo crucificado e o da Epistola à Senhora da Conceição: tem seos retabulos doirados em 1712. Antigamente estas capelas eram dedicadas a Santa Luzia e a S. João, cujos retabulos primitivos se acham na sacristia. A cerca é dilatada mas de pouco fruto por ser muito pedregosa. Havia nella uma Ermida dedicada à Senhora da Conceição, tendo por cima do pórtico Tota Pulcra es maria et macula nom est in te. O tempo fez mudar o Patrono, collocando no altar a Imagem de S. José em 1690, dando à Senhora altar na Igreja. Tinhão os religiosos e seculares particular de­voção ao Esposo de Maria, tributando-lhe respeitosos cultos, em reconhecimento das graças recebidas: corre junto à Ermida do Santo uma deliciosa fonte, onde os enfermos em suas doenças mandavão buscar agua e muitas vezes experimentavão ser medecina eficaz nas molestias. tanto podia a fé e a devoção com o esposo da Santa Virgem, arruinou-se a Ermida, e a Imagem do Santo se colocou no Altar de Jesus Cristo crucificado, aonde é venerada.
Concorriam os Benfeitores com suas esmolas e estabeleciam capelas para fundo e sustentação daquela comunidade Governando o Provincial Fr. Fernando da Camera, Diogo Francisco da Praça, chamado o Serodio e sua mulher Isabel Nunes, estabeleceram duas missas quotidianas neste convento sendo ministro o Pe. Fr. José da Esperança, e Tabalião Manuel Mendes de Aguiar, por escritura de 22 de Junho de 1651. Fernão Cabral administrador da Casa de Belmonte, e da sobredita capela, declarou por uma escritura feita pelo Tabalião Christovão de Almeida, aos 13 de Agosto de 1680, os bens que lhe eram destinados, para a satisfação dos encargos.
A austeridade, pobreza e observancia dos Religiosos, moradores desta casa, e dos conventos que havia no Reino, hé constante na conta que deu ao Cardeal Alberto arquiduque de Austria, o geral de Alcobaça Fr. Guilherme da Paixão, de que já tenho falado; reformando-se assim mesmo, sem autoridade estranha, pelo zelo e boa doutrina dos Superiores. Achou aquele austerissimo visitador quinze frades neste mosteiro, numero que parece crescido, mas que tinham ficado do congresso, que tres anos se tinha feito naquela casa.
Era o convento de Stª. Catarina de Santarem, casa capitular pela graça e mercê do Senhor Rei D. Afonso V, em 1470, mas o convento da Esperança, passados cento e quarenta anos teve tambem esta honra, governando o provincial Fr. Francisco Paixão, aonde celebrou a congregação em capítulo intermedio, em 7 de Março de 1584, ajuntando-se neste congresso os Reverendissimos o Ministro Provincial, os Ministros locais, e Definidores (13) e coordenaram umas pequenas e concisas constituições que se imprimiram, dividiram em oito capítulos, para o bom regimen, e exacta observância da Santa Regra, e exercícios espirituaes, e literarios desta ordem, de que já falei no Compendio Historico (14). Em 1597 fez entrega neste convento o Pe. Fr. Gabriel de Brito das Reliquias que tinha trazido de Roma para adornar os Santuarios dos Mosteiros da Congregação, como consta do testemunho que transcrevo na nota em que deu sua fé publica o tabalião António de Proença. (15)
O Pe. Fr. António da Ressurreição natural de Gouveia, institui a venerável Ordem Terceira secular na Igreja  de N. Senhora do Rosário do Lugar de Caria em 1693, sendo primeiro ministro desta ordem António Gonçalves Neto. Compreendia muitas villas e lugares, como Alpedrinha, Castelo Novo, S. Vicente da Beira, Penamacor, Castelejo, e outros. Em 1718, sendo comissario o Pe. Fr. Serafim das Chagas se fez cabeça desta Terceira Ordem secular a vila de Belmonte: e estão anexos a esta venerável ordem os lugares de Maçaínhas, Benespera, Vela, Inguias, Caria, Malpica, Urjais, e alguns mais. Fazem na sua capela os actos pios e catolicos com devoção e excessivo gasto no culto divino, de que são muito zelosos.
Era contemplada esta casa na Esmola da Especiaria, pelo Alvará do Senhor Rei D.Sebastião, de 1571, concedida a todas as comunidades Franciscanas.
Por mercê do Senhor Rey D. João IV de 16 de Novembro de 1644 é contemplada esta casa em uma arroba de cera e outra de açucar. Vai copiado este Al­vará no convento de Lisboa.
Governando Filipe III de Portugal conseguiu este convento uma provisão do Dezembargo do Paço para se lhe dar carne nos Açougues de Belmonte, e lugares vizinhos. Dada em Lisboa a dezoito de Fevereiro de 1627 (16).
Tem tambem Alvará para pregarem a quaresma na vila de Belmonte, assinada em Lisboa a 20 de Agosto de 1619. (17) Conseguindo-se tambem Provisão para pregarem a quaresma no lugar de Caria em 1747.
A livraria de oitocentos e cinquenta volumes: tem alguns Santos Padres das edições antigas, sua parte de História profana, e bastantes sermonarios.
O louvável procedimento dos moradores daquela casa, sua modestia e zelo pelo culto da Soberana Senhora, fazia atrair os povos à devoção da mãe de Deus da Esperança. Pregavam, confessavão e instruião as gentes nos deveres do estado de cada um, merecendo pelo desempenho das virtudes a contemplação dos benfeitores no subsidio para a futura manutenção daquele convento.
Este bom nome, não só fazia que os povos liberalisassem as esmolas; mas tambem estimulavam a muitos senhores Donatarios a desejar estabelecidos nas suas vilas uns Religiosos de tão conhecida probidade. O ilustre e douto D. Luiz Lobo da Silveira, Senhor das Sarzedas, persuadido da boa fama, e conhecimento dos Religiosos da Terceira Ordem se propoz fundar um convento naquela vila.
Doze léguas a nordeste de Abrantes, e tres de Castelo Branco para o poente em sitio alto e fragoso, tem seu assento a nobre vila das Sarzedas, cercada por todas as partes das ribeiras de Ocresa, Magueja, Almaceda, Tropei­ro e Alvito, que a fertilisão de pão, vinho, azeite, gado, caça e muitas colmeas. Foi fundada por D. Gil Sanches, filho bastardo del Rei D.Sancho primeiro de Portugal pelos anos de 1213 com os mesmos foros da vila da Covilhã (18).
Foi o ilustrissimo D. Luiz Lobo da Sylveira, senhor de Sarzedas e Sovereira Formosa, Comendador de Santa Olalha, e de Santa Maria das Sarzedas, casado com D. Joana de Lima, filha de D. Diogo de Lima, Comendador de Vitorinho, camareiro mór do Infante D.Luiz (l9), Pai do primeiro Conde das Sarzedas D. Rodrigo Lobo da Silveira, por carta de 21 de Outubro de 1630 (20).
Ajustou-se aquele fidalgo com o Provincial Fr. Gabriel de Brito em 1603, para o estabelecimento e fundação de uma casa religiosa que se tinha proposto edificar na sobredita vila das Sarzedas. Antes de proceder se a escritura publica, fez o dito Senhor D.Luiz Lobo um pepel, em que tambem assinou sua mulher, declarando as condições do contrato para o estabelecimento daquela nova casa, devendo com este testemunho autentico conseguir se a licença do soberano, e ordinario (21).
Ignoram-se os motivos que obstaram a concluir-se esta fundação.
(Continua)

Notas:
(1)- A Corografia Portuguesa faz distante a vila de Belmonte doze leguas de Castelo Branco, e o Autor do Mapa de Portugal onze.
(2) - Arquivo Real da Torre do Tombo. Forais novos da Beira fol. 10 (sic).
(3) - Ibidem. Liv. lº. de D. João 1. fo1.124.
(4) - Ibidem: Liv. dos Foraes Novos da Beira fol. 10.
(5) - Ibidem Liv. 1º. da Beira fol. 119.
(6)- Ibidem foI. 120.
(7)- Ibidem Liv.41 fol. 88 e 89 v.
(8) - Lea-se Jacinto Freire na Vida de D.João de Castro: As Decadas do mesmo tempo: e outros muitos de nossos historiadores das cousas da India.
(9) - Hist. Geneal. Tom. XI. pag.845. D.Joana de Castro, filha de D. Rodrigo de Castro, casou com João Fernandes Cabral, Senhor de Azurara, Alcaide mor de Belmonte, e tiveram Fernando Cabral, com quem se continua: Jorge Cabral, Governador da India, que casou naquele Estado, e teve entre outros filhos de que não há descendência a D. Joana de Castro, mulher de seu primo Fernando Cabral.
(10) - Tom. 3º. do Sant. Marian. pag. 70.
(11) - Saibão quantos este estromento de doação virem que no Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e quinhentos e sessenta e tres, aos doze dias do mes de Novembro, na cidade de Lisboa, de fora das portas de S. Vicente da Mouraria, na Rua de Santa Barbara nas ca­sas em que pousa o Senhor Jorge Cabral do conselho de El Rei nosso Senhor, estando ele hi presente, de uma parte, e doutra parte o Pa­dre Frei Cristovão e seu companheiro Frei Agostinho da Purificação, da ordem terceira de S. Francisco, e residentes em o convento de Stª. Catarina da vila de Santarem em seus nomes e no do Provincial o padre Frei Matias, segundo ele logo hi mostraram por uma licença feita, e assinada por ele e assilada com o selo da dita ordem terceira de S. Francisco, segundo por ele fora firmado, da qual licença seu teor é o seguinte: Frei Matias ministro neste convento de Santa Catarina de Santarem, Provincial da Terceira Ordem de S.Francisco em Portugal: a vós amados em Cristo Fr. Cristavão sacerdote confessor, e vosso companheiro Fr. Agostinho por esta vos dou poder e em especial para que em meu nome e da ordem aceiteis de o Senhor Jorge Cabral a renunciação que ora quere fazer da casa de Nossa Senhora da Esperança que está no termo e comarca de Belmonte, a qual se fará por um tabelião publico: em certeza vos dei esta por mim assinada e selada com o selo mor do meu oficio. Dada neste convento aos oito de Novembro de mil e quinhen­tos e sessenta e tres =Frei Matias= é trasladada, assim a dita licença como dito é, Logo per o dito Senhor Jorge Cabral foi di­to, que ele edificara uma ermida de invocação de Nossa Senhora da Esperança na Serra dos Crestados, termo da vila de Belmonte, a qual fundara e edificara com proposito de nela fazer oficinas e casas e a dar à ordem de Noss a Senhora da Piedade, e tinha fei­to algumas casas terreas com outra mais obra, e assim um pomar de muitas arvores, cercado de pedra em sossa (sic), e por os ditos padres da dita ordem da Piedade a não quererem aceitar, ele dito Senhor Jorge Cabral, por serviço de Deus e de Nossa Senhora e devoção que tem aos Padres de S.Francisco da Terceira Ordem há por bem e lhe praz dar e renunciar a dita casa e ermida com as ditas casas e obras e pomar e pinhal, assim como ora está, e de­pois logo deu e renunciou a dita casa e obras e pomar e pinhal com todo o mais que à dita casa pertence e com seus ornamentos, convem a saber, um cales de prata, e um pontifical de seda da India e com seu frontal do mesmo e com todos os mais ornamentos que à dita casa pertencem, aos ditos padres da Ordem Terceira de S. Francisco, para que eles o possam possuir e povoar como mosteiro da dita sua ordem e farão dela e em ela, como de casa sua, da dita ordem sem contradição de pessoa alguma. A qual Ermida e Casa de Nossa Senhora da Esperanço ele dito Senhor Jorge Cabral lhe dá e doa e renuncia nos ditos Padres com tal condição, que eles serão sempre obrigados a povoarem a dita casa, e terem nela padres da dita sua ordem que abastem para na dita casa ser de vi­da de Religiosos como cumpre a serviço do Senhor Deus: e assi disse mais ho dito senhor Jorge Cabral, que elle por este estro­menta se hobriga, e defeito se obrigou dar aos ditos padres para acabarem a dita casa, e obres della com cruzados em dinheiro os quaes lhe hirá dando, assi como elles forem fazendo a dita obra; e com tal condição e entendimento disse elle senhor Jorge Cabral, que fazia a dita renunciação, e doação ha dita ordem da dita her­mida e obras e cousas sobreditas nellas pertencentes que elles a povoem dentro de hum anno primeiro seguinte e não a povoando den­tro do dito anno, que em tal caso elle a possa dar, e renunciar a quem lhe bem parecer; e quizer sem elles padres a isso lhe poderem allegar nenhumas duvidas, nem embargos; e povoando-a elles, como dito hé, elle lha da à dita hordem deste dia para sempre, e loguo por este lhe dá poder que vão tomar posse da dita casa e de todollas cousas que ha elle pertencem, sem ninguem a isso lhe contradizer; e pede has justiças da dita villa ou outras quaesquer deste Reino lhe deem a dita posse por virtude deste estromento de doação e renunciação; e elles ditos padres possão por qualquer pessoa ou pessoas de sua mão, athe irem a morar na dita casa; e os ditos Padres Fr. Cristho­vão e Fr. Agostinho em seus nomes, e em nome da dita hordem, e Provincial Fr. Mathias por virtude da dita licença disserão que aceitavão ha dita casa, assi, e da maneira que lha ho dito Senhor Jorge Cabral renuncia e dá, e se hobrigão ha cumprirem as condições aqui declaradas; e em testemunho de verdade assi o outorgarão e mandarão fazer este estromento de doação, e renunciação, e delle dar um treslado, e quantos cumprirem deste theor a elles sobreditos, que estando presentes pedirão e aceitarão. E eu tabalião ho aceito em nome do dito Provincial, e seu convento como pessoa publica estipulante, e aceitante, testemunhas que forão presentes Domingos Vaz, e Agostinho da Costa creados do dito Senhor Jorge Cabral, e moradores em sua casa. E eu Heitor Dias de Magalhães tabalião publico das notas nesta cidade de Lisboa, e seus termos por El Rey Nosso Senhor que este estromento em minhas notas tomei, e dellas o mandei tresladar por licença que para isso tenho do dito Senhor e ho concertei, sobescrevi e assinei deste meu publico sinal que tal hé = Logar do sinal pu­blico= Cartorio do Convento da Esperança, e por copia no Conven­to de Lisboa, Armario 2º. casa 2ª. Noticias dos Archivos.
(12) - Estudou este prelado no Collegio de S. Miguel em a Universidade de Coimbra, sendo confirmado na Cadeira Episcopal da Guarda por Julio III em 1553. Foi muito aceite do Senhor Rey D. Sebastião, e depois de sua morte teve alguns desgostos com o Cardeal Rey, e com El Rey Philippe II de Castella. Seguio as partes do Senhor Dom Antonio nas alterações da monarchia, contra El Rey Dom Philippe, que tomando posse de Portugal obrigou a este Prelado a andar escondido, e refugiado  muitos tempos; até que sendo prezo, e levado a Madrid foi sentenceado e deposto do Bispado, e encarcerado em um Mosteiro, ahonde falleceo. Por este tempo foi elleito Bispo Egitaniense Fr. Simão Henriques, Religioso Capucho, que não aceitou, mas sendo ainda vivo o Bispo D. João de Portugal entrou na Igreja da Guarda D. Manuel de Quadros em 1586, o que lhe foi censurado =Chronologia dos Bispos da Guarda, de Belchior de Pina da Fonseca.
(13) - Titulo dos Estatutos = Constitutiones in coenobio Divae Mariae Spei, factae per Reverendissimos Patres Ordinis Poenitentiae, Recundisoinum Pa­trun Provincialem Fratum Franciscum Passionis Provincialem que ejusdem or­dinis, Et per Ministros, ac Definitores, septimo die Martir anno milesimo quingentesimo octogesimo quarto.
(14) - No fim destas memórias vai a Bulla de confirmação destes Estatutos pelo Cardeal Protector de Medicis.
(15) - Certifico eu Antom de Proença, tabalião pubrico do judicial nesta villa de Belmonte, e seu termo por El Rei Nosso Senhor que é verdade que no con­vento de Nossa Senhora da Esperança junto à vila de Belmonte da Ordem da Penitencia da Ordem de S.Francisco, sendo presente o muito Reverendo Pe. Fr. Paulo da Maya ministro provincial da dita ordem e sendo outrossim pre­sente o Pe. Fr. Filipe de Santiago, ministro do dito convento, dentro da Sã­cristia do dito convento o Pe. Fr. Gabriel de Brito, procurador geral da dita ordem, por ele dito Padre Fr. Gabriel foram entregues em presença de mim tabalião ao Pe. Ministro, vinte e tres Reliquias de Santos Martires: a S. vinte e duas de muitos martires do cemitério de Santo Calepodio e uma de S. Esperança martir do cemitério de S. Calisto, as quais ficam no dito convento entregues ao dito padre ministro, juntamente com dois estromentos pubricos, escritos em pergaminhos com seus selos pendentes .... Apostolicos da Curia Romana, escritos em latim, e juntamente um Breve do Papa nosso Senhor cremente outavo sob annulo Piscatoris. E por passar na verdade, e me ser pedida esta a dei bem e na verdade. Oje cinco dias do mez de Julho do anno de quinhentos e noventa e sete anos: e a assinei de meu pubrico sinal que tal é = De Graça = Logar do sinal publico = O original no cartorio do convento da Esperança = e por copia no cartorio do Convento de Lisboa. Armario 2º. Noticias extraidas dos_Arquivos.
(16) - Dom Philippe por graça de Deus Rei de Portugal c dos Algarves daquem e dalem mar em Africa Senhor da Guiné etc. Faço saber que havendo res­peito ao que na petição atraz escrita dizem o ministro e mais Religiosos do convento de N. Senhora da Esperança da Terceira Ordem da Penitencia, junto à vila de Belmonte, e visto o que alegam Hei por bem e me praz que asy na dita vila de Belmonte como nos mais lugares vizinhos se lhes dê a carne que lhe for necessária para o dito convento por seu dinheiro. E mando às justiças e oficiais a que o conhecimento disto pretencer e Esta provisão for mostrada que lhes façam dar com efeito a dita carne como acima é declarado e a cumpram e guardem inteiramente como nela se contem. El Rei nosso Senhor o mandou pelos Doutores Jeronimo Pimenta de Abreu e Antão dá Mesquita, ambos do seu conselho e seus desembargadores do Paço Antonio de Morais a fez em Lisboa a dezoito de Fevereiro de 1627. Gaspar da Costa a fez escrever = Jeronimo Pimenta de Abreu = Antão da Mesquita. Cartorio do convento de Lisboa. Armario 1º. Casa 4ª. Maço lº. Num. 4 Documento 1º.
(17) - Eu El Rei faço saber aos que este Alvará virem que o Provincial e Re­ligiosos do Convento de Nossa Senhora de Jesus da Terceira Ordem de S. Francisco, sito extra muros desta cidade de Lisboa, que enviaram dizer por sua petição que na vila de Belmonte, bispado da cidade da Guarda, estava um convento da dita ordem da lnvocação de Nossa Senhora da Es­perança, os Religiosos do qual costumavam havia muitos anos pregar na dita villa, o que faziam com satisfação: e porque ora se pretendia por parte de alguns particulares tirar-lhe a esmola que a Camara daquela vila dava pelas ditas pregações, me pediam lhes mandasse passar provi­são para que se lhes não tirasse a dita esmola e se lhes continuasse com ela; porque alem de que os ditos Religiosos pregavam com satisfação do povo, e nela o serviam tambem em todas as ocasiões, que se lhe ofere­ciam. E visto o seu requerimento e informação que se houve pelo provedor da comarca da cidade da Guarda, ouvindo os oficiaes da Camara da dita vila que respondeu que havião dar aos Padres a esmola dos seis mil reis como até agora derão pelas ditas pregações em cada hum anno e o mais que da informação do dito Provedor constou e o seu parecer; Hei por bem e me apraz que a esmola dos seis mil reis que até agora se lhes deu das rendas da Camara pelas ditas pregações se lhes dê em cada hum anno, daqui em diante não entrando nisso a minha terça, satisfazendo eles com os sermoes da quaresma na forma, que até agora fizerão. Pelo que mando aos oficiaes da Camara da dita villa, que ora são e ao diante forem lhes fação bom pagamento da dita esmola, cumprindo elles com sua obrigação; e o Provedor da comarca a leve em conta e as mais justiças a quem o conhecimento disto pertencer, cumprão este alvará inteiramente como nele se contem o qual será registado nos livros da Camara da dita vila, e valerá como carta, sem embargo da Ordena­ção em contrario. Pedralves a fez em Lisboa a vinte de Agosto de seiscentos e desanove = Manuel Fagundes a fez escrever = Rey = Diogo de Castro = Original no cartorio do Convento da Esperança.
(18) - Carvalho Corografia Portuguesa Tom. 2º. pag.415.
(19) - D. Anton. Caet. de Sousa. Grandes de Portugal, pag.455. Carvalho na Corografia Portuguesa escreve ser camareiro mor do Infante D. Duarte.
(20) - Archiv. Real da Torre do Tombo. Liv.32 da Chancelaria do dito ano, fls.14.
(21) - Por este por mim feito e assinado digo eu D. Luiz Lobo da Silveira que fa­zendo os Padres de S. Francisco da Terceira Regra da Penitencia um mosteiro na minha vila de Sarzedas, o qual sempre será assistido por doze frades, lhe dou o meu pomar de minha dita vila, para poderem edificar e assim lhe darei mais mil cruzados em quatro anos para edificarem o dito mosteiro; e alem disto edificarei mais a capela mór à minha custa e a ornarei: e anexa­rei logo que ao dito mosteiro por um Breve de Sua Santidade a capela de Mar­tim Afonso, digo a Capela do Senhor meu visavou, e assim procurarei que se anexe ao dito mosteiro a capela de Martim Afonso que está na dita vila com tal condição que eu serei Padroeiro do dito mosteiro e me dirão a missa do dia quotidiana para a qual deixarei mais um meu morgado dez mil reis de renda para sustentação dos ditos frades, que serão aplicados no modo que sua Regra o poder sofrer e per milhor. E por verdade de querermos isto as­sim, assinamos aqui, e Dona Joana de Lima minha mulher; e sendo havlda a licença ordinaria, e a de sua magestade faremos as escritura firme e valio­sa e não terá o escrito mais força que para me obrigar a fazer a dita escritura. Feito e assinado por nós em Lisboa, hoje seis de Agosto de mil e seiscentos e tres anos =D. Luiz Lobo da Silveira= Dona Joana de Lima = Car­torio do Convento de Lisboa. Armario 1º Casa 6ª. Pasta 1º Num. 1º. Documento 2.

Fonte - Bibl. da Acad. das Ciencias de Lisboa. Cod. 224 Vermelho


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