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sábado, 3 de setembro de 2011

Covilhã - Invasões V

 O Rei D. José I e sua mulher D. Mariana Vitória de Bourbon


A COVILHÃ E A GUERRA DE 1762
 Depois da série Invasões Francesas, começamos a publicar um extracto da “Devaça tirada pelo juiz de fora da Covilhã contra os que tiveram trato com os castelhanos”, da altura da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), transcrito e já publicado por Luiz Fernando Carvalho Dias. (1) Esta guerra iniciou-se entre a França, Áustria, Rússia, Espanha e a Inglaterra, Prússia, Portugal devido à rivalidade surgida nas colónias francesas e inglesas na América e na Índia e também devido à preocupação dos estados europeus pelo poderio cada vez maior da Prússia de Frederico II. A França queria que Portugal não se declarasse nem neutro nem aliado da Inglaterra. Então estabeleceu (1761) um “Pacto de Família” entre as famílias Bourbon (França, Espanha, Ducado de Parma e Portugal), mas Portugal não aceitou as condições do acordo.(2) Assim os exércitos estrangeiros (franco-espanhóis) começaram a entrar em Portugal por Trás-os-Montes, proclamando que não maltratariam o povo português e que só queriam o seu apoio, manifestado em hospitalidade. O governo português responde com um decreto em que se diz: “Já não se pode duvidar que a intenção da Espanha e da França seja em virtude do famoso Pacto de Família apoderar-se do reino…”; por isso os franceses e espanhóis deveriam ser considerados inimigos, expulsos do país os que cá viviam, regressarem os portugueses que viviam nesses países. A seguir são tomadas medidas no sentido de organizar, com a ajuda inglesa, o deplorável e indisciplinado exército português. Entretanto a fronteira portuguesa foi sendo invadida aqui e ali e receou-se por Lisboa que esteve alerta, pondo-se mesmo a hipótese de saída da Corte para o Brasil, como acontecerá em 1807 aquando da Primeira invasão francesa. A povoação de Almeida é tomada, Vila Velha de Ródão também será. É dentro deste eixo geográfico que apanha Viseu, Guarda, Celorico da Beira, que deparamos com a Covilhã a ser invadida em 23 de Agosto de 1762 e vemos alguns dos seus habitantes a oferecerem os seus serviços ao inimigo, como leremos nas transcrições abaixo apresentadas. O Alentejo também é invadido, mas sem consequências. O exército português ainda entra em Espanha, mas não houve nenhuma batalha importante nos episódios entre Portugal/Espanha/França, nesta chamada Guerra Fantástica, integrada na Guerra dos Sete Anos. É assinado um armistício entre os exércitos luso-britânico e franco-espanhol a 30 de Novembro de 1762. Nesta altura “Os Grandes” também já estavam no fim da Guerra dos Sete Anos, cujo tratado é assinado em Paris em 1763: entre outras decisões, a Espanha é obrigada a restituir a Portugal as praças de Chaves, Almeida e a Colónia do Sacramento ao sul do Brasil.
Nota dos editores - 1) Dias, Luiz Fernando Carvalho, História dos Lanifícios, Documentos, vol.I, pags. 68-78. 2) Em Portugal governava D. José I casado com Dona Mariana Vitória, princesa espanhola, da casa reinante Bourbon.
Fonte - História de Portugal, Direcção de José Hermano Saraiva, vol. 5.

A COVILHÃ E A GUERRA DE 1762

Extracto da «DEVAÇA TIRADA PELO JUIZ DE FORA DA COVILHAA CONTRA OS Q TIVERAM TRATO COM OS CASTELHANOS»

«TRESLADO DO AUTO DE DEVASSA DE INCONFIDENCIA QUE MAN­DOU O DOUTOR JUIZ DE FORA DESTA NOTAVEL VILA DE COVI­LHA AGOSTINHO BARBOSA LEAL DA VEIGA, EX OFFICIO, E POR OBRIGAÇÃO DE SEU CARGO».

       Ano do Nascimento de N. S. Jesus Cristo de 1762 anos aos 4 dias do mês de Outubro do dito ano em esta notável vila de Covilhã e casas de moradas do Dr. Agostinho Barbosa Leal da Veiga, Juiz de fora e orfãos com alçada por sua Majestade Fidelíssima que Deus guarde em esta Vila e todo o seu termo aonde eu escrivão abaixo nomeado vim, aí por ele dito Dr. Juiz de Fora me foi mandado fazer este auto de devassa para por ele devassar ex officio e por razão de seu cargo por lhe ter vindo à notícia que entrando nesta Vila no dia 23 do mês de Agosto p.p. do presente ano de 1762 as tropas inimigas, quase repentinamente se viram precisados os moradores dela a retirar-se, por se não verem precisados a dar obediência e execução às suas ordens; e que devendo todos mostrar com a mesma reti­rada a sua fidelidade, muitos esquecidos da fidelidade com que deviam livrar-se do domínio e sujeição do governo estrangeiro, e que não fosse determinado pelas tropas e justiças do seu Rei e Senhor natural, se foram voluntariamente oferecer ao comandante das tropas francesas e espanholas, que tinham entrado e invadido esta vila e aceitando o mesmo oferecimento entraram a executar as ordens que o mesmo comandante lhe dava, intitu­lando-se as pessoas nacionais desta vila que o mesmo elegeu Governador e Alcaide-mor da mesma; e que debaixo desta nomeação entrara a gover­nar esta vila e seu termo elegendo escrivães e outros oficiais de justiça, mandando lançar pregões e expedindo ordens com cominação de morte e confiscações de bens, fazendo-se e mandando-se fazer embargos encami­nhados à utilidade das tropas inimigas irreparável prejuízo e notório escân­dalo dos moradores desta vila que viam e experimentavam uma violenta coacção para obedecerem às ditas ordens, e pregões lançados em nome de EI Rei de Castela, que os ditos governadores e seus oficiais mandavam lan­çar e expedir, sendo tão pública e notória a sua infidelidade, que ainda depois de retiradas primeira e segunda vez as tropas inimigas conserva­ram algumas pessoas o mesmo governo sendo tão escandalosos os seus pro­cedimentos que chegaram algumas a encaminhar e guiar as mesmas tropas inimigas na entrada desta Vila e a descobrir-lhe as partes ocultas para onde alguns dos seus moradores tinham retirado os seus móveis e cabe­dais, fazendo-lhe avisos e mandando-lhe cartas com declarações prejudi­ciais aos  moradores dela e pedindo ao comandante do exército inimigo tro­pas para conservação da obediência por que queriam violentar aos fiéis vassalos de Sua Majestade para o domínio estrangeiro; e porque todos estes factos são dignos de maior castigo e de pernicioso (sic) exemplo contrá­rios às determinações das Leis deste Reino para efeito de servir no conhe­cimento de quem foram os delinquentes e as pessoas que por obra ou conselho concorreram para quaisquer dos referidos delitos, me mandou ele Dr. Juiz de fora fazer este auto de devassa para por ele perguntar teste­munhas na forma da Lei e castigar os delinquentes de que fiz este auto que ele dito Dr. Juiz de fora assinou aqui  somente. Eu Manuel Coelho de Almeida escrivão que o escrevi. Silva =

Assentada = 4 de Outubro 1762

TESTEMUNHAS

  João Francisco Monteiro, oficial de carda, natural e morador na Covilhã, de 60 anos.

Ao entrarem as tropas francesas e espanholas o comandante elegeu governador e alcaide a Filipe Pacheco de Aragão, natural e morador nesta Vila o qual foi esperar as tropas em companhia do Vigário de Stª Maria e doutras mais pessoas, mas não sabia se o Pacheco pedira o tal emprego ou se o comandante o obrigara a servi-lo.

Ao retirarem-se as tropas, da uma para as 2 da noite de 26 de Agosto, continuara o Pacheco a servir o dito emprego até sexta-feira, 27 de Agosto, em cujo dia tornaram as mesmas tropas, com maior número de gente, a entrar nesta Vila, pelas 8 da manhã, pouco mais ou menos, retirando-se às 8, à boca da noite, do mesmo dia, ficando porém o dito governador a servir por mais alguns dias, parece-lhe que até 10 de Setembro, dia em que algumas pessoas da mesma Vila o prenderam.

Era notório que o dito governador Pacheco mandara prender algumas pessoas, na cadeia da Vila, por não quererem obedecer aos seus manda­dos, e expedira ordens para os lugares do termo para cá virem vender mantimentos. Mas não sabia que nesses lugares dessem cumprimento às tais ordens.

     Disse: «que no último dia em que as tropas castelhanas estiveram nesta Vila o dito Filipe Pacheco mandara lançar pregão por toda a Vila para que todo o Fabricante de panos levasse ao Convento de S. Francisco todos os panos que tivessem em sua casa ou pelas oficinas com pena de se lhe dar revista às casas, e achando se lhe nelas alguns se lhe deitar o fogo às mesmas casas, a cujo pregão todos os que se achavam nesta vila obedece­ram levados do medo do mesmo pregão, porém que não sabia ele teste­munha se o dito Governador o mandara lançar por seu próprio arbítrio ou pelo do comandante das tais tropas, se bem que ouvíra ele testemu­nha dizer publicamente, que indo o tal Governador falar com o Comandante das mesmas tropas ao Convento de Sam Francisco aonde se achava aquartelado, e vendo o grande número de panos que para lá concorria; dissera para este o dito Pacheco = veja V. Ex.” como os Fabricantes teem medo dos meus pregôis =, e que além deste pregão o mesmo Governador mandara lançar muitos mais em todo o tempo do seu governo, cominando neles penas de morte, de prisão e confisco de bens; o que era nascido do áspero génio de que era dotado e demasiada ambição que tinha ao governo».

O Pacheco logo nomeou alcaide menor ao seu criado Ventura José, que serviu até ao dia da destituição do amo. Ventura José fizera várias prisões, notificações e outras diligências, por ordem do Pacheco. Logo que este entrara de servir, tivera por escrivão António da Fonseca Barroca, proprietário dum dos ofícios dos órfãos da dita Vila; ao retirarem-se as tropas ultimamente da Vila retirou-se também dela pelo que presumira ele testemunha, ter o Barroca servido constrangido. Encontrando-se com o Barroca no dia 27, à porta de Manuel Rodrigues Barata, deu-lhe o Bar­roca os parabéns de o haverem já soltado dizendo-lhe: «que se desejava livre da ocupação que servia, de escrivão»», Retirado o Barroca, entrara a servir de escrivão Manuel António de Figueiredo, mas não sabia o tempo que servira. Que o Governador escrevera, depois da retirada, às tropas cas­telhanas que estavam na Guarda e lhe levara a carta um António Fran­cisco Leitão, de alcunha o Fandango, mas não sabia se este a entregara ao Comandante.

      2º  Miguel Delgado, oficial de pisoeiro, natural e morador na Covilhã, de 75 anos. Esteve sempre na Covilhã desde o dia 23 em que entraram as tropas. Logo que entraram, fora o Pacheco ao Convento de S. Francisco cumprimentar o Comandante que lá se achava aquartelado e lhe dissera que era uma das pessoas principais da terra, que os mais se tinham absentado e que se ele tinha algum préstimo ali estava às ordens de S. Exª. Retirou-se a testemunha e lá ficaram os dois à conversa.

No dia seguinte entrou o Pacheco a governar por nomeação do coman­dante cujo escrito ele testemunha viu por lho mostrar o dito Filipe Pacheco e assim estivera não só durante a ocupação mas também durante alguns dias até ser preso.

      Ventura José, enquanto exerceu o cargo, trazia a insígnia de vara. O Barroca serviu durante 7 ou 8 dias depois retirou-se, sucedendo-lhe o Figueiredo até que o Pacheco foi preso. Ouviu dizer que ambos os escrivães se inculcaram para servir. Pacheco pedira tropas para a Guarda para se fazer obedecer. O portador, de carta fora o Fandango.

      E «outrossim disse ouvira dizer publicamente nesta Vila que António Fernandes Ratto quando via algumas pessoas refugiar os seus trastes para fora da mesma Vila antes que entrassem as tropas inimigas dizia para as mesmas pessoas = andai que em vindo as tropas inimigas eu mesmo lhe hei-de ensinar onde se escondem os trastes para as mesmas tropas os levarem = e foi público nesta mesma Vila que o dito António Fernandes Rato fora à serra acompanhado com um soldado francês e que pedira às pessoas que lá estavam que o não matassem que ia em sua resguarda e companhia porém que não sabia ele testemunha, nem tão pouco ouvira dizer que o dito António Fernandes ensinasse às tropas inimigas os sítios onde os trastes se achavam refugiados, se bem que só se lembra ouvir dizer que o dito António Fernandes Rato dissera às tais tropas que para o Con­vento de St.º António se tinha refugiado muita fazenda. E outro sim disse ouvira dizer a algumas pessoas de que ao presente se não lembra que um Jorge de Melo filho de João Antunes Meleiro, desta Vila, andara com as tropas Castelhanas e que a estas ensinara o caminho por onde haviam de entrar nesta Vila».

Assentada = 5 de Outubro.

Matias Lucas de Almeidaoficial de alfaiate, natural e morador na Covilhã, de 61 anos. Pacheco foi preso em 11 de Setembro. Barroca foi várias vezes chamado pelo Pacheco para ser escrivão e só depois dum escrito do Pacheco é que o foi. A testemunha viu esse escrito. Ouviu dizer a Maria da Costa, a Cecília viúva de Francisco Monteiro e a Antónia Maria mulher de Francisco Casegas, vizinhas do Pacheco, que Figueiredo nos últimos dias já não queria ir a casa do alcaide. O Fandango foi pago pelo Pacheco do trabalho da jornada à Guarda, com pão do assento, que nesta Vila se achava.

Disse também «que um José da Cruz, o folião, natural desta Vila, fora em companhia de alguns franceses a casa de João Rodrigues Sapa­teiro a fim de ensinar aos mesmos franceses que ali se vendia bom vinho os quais franceses bastantemente saquearam a tal casa do comestível, porém que não sabia ele testemunha se o dito José da Cruz obrava isto de seu próprio arbitrio ou  constrangido pelos mesmos Franceses».

Termo de Conclusão desta devassa ao Corregedor da Comarca, em 1  de Fevereiro de 1763, na Covilhã. Vista em correição de 1 de Fevereiro de 1763 = «como esta devassa se não acha assinada pelo Juiz de fora defunto mando que o escrivão a apresente ao Juiz pela ordenação para que assine o auto da mesma e para que ante si repergunte as testemunhas, fazendo o escrivão auto conforme não acrescentaram nem diminuíram coisa alguma» etc.

Termo de Data a 9 de Fevereiro servia de Corregedor o Juiz de fora da Guarda Dr. Tomás Gregório de Carvalho.

Assentada 28 de Fevereiro de 1763. Em casa de João da Silva de Figueiredo Fragoso, professo na Ordem de Cristo vereador mais velho, juiz pela ordenação na mesma Vila da Covilhã.

Matias Lucas de Almeida, alfaiate:

      Sabe que António Rebelo, o moço, assistente no pomar da ponte desta vila, quando da estada dos inimigos nesta Vila e depois de terem saído, andava quotidianamente e repetidas vezes, entrando e saindo de casa de Filipe Pacheco e dando à execução tudo o que ele lhe mandava e ordenava. Foi público nesta vila que o mesmo Rebelo fora à Vila do Fundão por mandado de Pacheco prender António Rodrigues Carqueija o moço, filho doutro desta Vila «por punir pelo povo e mostrar-se fiel vassalo de S. M. Fidelissima» o que sabia também João Leitão Namorado, José Rosado e José da Costa Aleixo. Também sabia, por o ouvir dizer a João Antunes e a seu filho e a Luis Rodrigues Jamgim e a seu enteado Fran­cisco da Cruz e à viúva de Manuel Fernandes penas e a outras mais pessoas do lugar da Boidobra, que Francisco Rodrigues Salgado e seu irmão Manuel Malaca, solteiro, foram com ordens do Pacheco à Boidobra para trazerem certa pessoa a fim de tomar conhecimento duma querela que contra ela fora dada, perante o Pacheco, que era «quem governava esta vila e seu termo por ter jurisdição de baraço e cutelo, que lhe tinha sido dada por ordem de Carlos de Castela,   fazendo outrossim  distúrbios  muitos no dito lugar e metendo-o todo à bulha em termos que quiseram atirar um tiro à viúva de Manuel Fernandes penas, ao depois de lhe terem dado pancadas muitas com a espada e espingarda na porta da casa da dita viúva a quem faziam as maiores desenvolturas, e esta se não reconhe­cesse e fechasse as suas portas e se outrossim não acudissem os juízes do dito lugar Filipe Mendes e outros do mesmo lugar que prenderam os ditos porteiros e os levaram à Vila do Fundão ao juiz de fora da dita Vila e este os remeteu para a Vila de Castelo Branco donde se diz vieram fugidos para esta vila onde se acham escondidos».

Miguel Delgado: confirma o depoimento anterior.

Antónia Maria, mulher de Manuel Francisco Casegas, oficial de carda, natural e moradora na Covilhã, de 40 anos. Disse que Pacheco man­dava dar pregões em nome de EI Rei de Castela.

Assentada = 1 de Março de 1763.

João Antunes, juiz espadâneo actual no lugar da Boidobra, arrabalde desta Vila, de 50 anos.
     Os porteiros iam prender um filho dele, testemunha, chamado Manuel Antunes, e apresentaram a ordem a Estêvão Pereira, solteiro, para que lha lesse, mas este não o quis fazer «que semelhantes ordens de tal governa­dor se lhe não dava delas, nem se deviam dar cumprimento a elas, razão porque os ditos porteiros prenderam ao dito Estêvão Pereira». Os portei­ros quiseram atirar-lhe um tiro e dar-lhe com a espada nua, por resistir, mas acudiu o povo e os prenderam e levaram ao Fundão. A questão com a Ana de Matos foi por lhe pagarem vinho com dinheiro castelhano que ela não quis aceitar. Publicaram os porteiros: «que já eram todos caste­lhanos e governava El Rei de Castela, que eles eram seus vassalos».

     Luís Rodrigues Jangim, oficial de carda, natural e morador na Boidobra, de 37 anos.
    
     9º Ana de Matos, viúva de Manuel Fernandes penas, do lugar da Boidobra, natural do Tortosendo, de 47 anos. Disse que só não quis vender mais vinho por já terem bebido muito e que lhe não quiseram pagar. Não fala em dinheiro castelhano.





quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Covilhã - Invasões IV

Hoje publicamos a transcrição de umas páginas da obra de Acúrsio das Neves, feita por Luiz Fernando Carvalho Dias , sobre um episódio passado na Covilhã aquando da 1ª Invasão Francesa.
No Tomo 4º (de a “História da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino”, escrita por José Acúrsio das Neves, 5 vols., Lisboa, 1810) - “Neves (1) refere-se com lástima aos tumultos contra os judeus em algumas terras da Beira e Trás-os-Montes, derivados de alguns se fazerem com os franceses.

Fls 259 “Observarei de passagem, que a mesma animosidade contra os judeus, que se manifestou em Bragança e em Vila Nova de Foz Côa, aparece igualmente em Viseu, na Covilhã, no Fundão e em todas as terras do Reino, onde há fama deles se acharem estabelecidos; e por toda a parte se lhes fizeram as mesmas imputações de aderência aos franceses. Porventura teriam elas algum justo fundamento? No geral não o creio, no particular alguns indivíduos poderia haver que merecessem esta nota, assim como os houve em todas as classes e hierarquias de pessoas:”

Ver Cap. XXXII, a fls 65, do vol. 4º

“A Guarda foi tomada sem defesa em 3 de Julho de 1808 por Loison, depois de se ter levantado no dia precedente.
“Por este tempo se levantou a Covilhã, vila notável que o grande trato dos lanifícios (2) tem feito populosa e rica, a qual se estende sobre uma ramificação da serra da Estrela no seu flanco meridional 6 léguas abaixo da Guarda. O Zêzere, que corre em pequena distância, e uma infinidade de regatos, que caem das montanhas, ajuntam a fertilidade à amenidade dos seus campos e às vistas soberbas e pitorescas que ornam este país, um dos mais deliciosos de Portugal. A vila acha-se um pouco desviada da estrada e a sua posição a salvou de ser destruída.
Logo que se efectuou na Guarda o levantamento do dia 2, expediram-se avisos à Covilhã (assim como outras mais terras em roda), os quais concorreram com outros do Governador de Coimbra; e foi em consequência deles que o juiz de fora Caetano de Melo da Gama Araújo e Azevedo aclamou de suas janelas o nome do Príncipe Regente a 3 pelas 9 horas da manhã. De tarde repetiu-se a aclamação pelas ruas em concurso e procissão solene da Câmara e de um grande número de pessoas de todas as ordens; sendo conduzido o estandarte Real pelo Tenente-Coronel do 1º Regimento de Milícias da Comarca Gregório Tavares. Estava destinado o dia 4 para a celebração de um Te Deum, mas chegando nesse mesmo dia pelas 7 horas da manhã a notícia dos estragos da Guarda e da marcha de Loison, foi necessário suspender as funções da Igreja, para se cuidar nas de defesa.
Gregório Tavares pôde reunir uns 200 homens, quando muito, do seu dissolvido regimento. O Juiz de Fora, e os oficiais das ordenanças ajuntaram um maior número de paisanos que trataram de armar do modo possível, e distribuir pelos postos de mais importância: pólvora achou-se bastante, mas faltavam as balas que somente puderam fazer-se depois de passado o perigo, e também as espingardas eram em pequeno número. O Povo manifestava grande entusiasmo; e aqueles que se tinham posto à sua frente para o dirigir, muita actividade e muito patriotismo; foram porém manchadas estas disposições com o sangue de dois infelizes ingleses: exporei o facto.
Achavam-se estabelecidos na Covilhã um irlandês chamado Mateus Reynolds, homem assaz industrioso e com muitos conhecimentos das artes e um outro estrangeiro, que lhe servia de língua e de ajudante, encarregados da construção de uma nova máquina para a fiação das lãs da fábrica.
Estes homens, que como estrangeiros, e pode ser por génio, tinham pouca comunicação com a gente da terra, não tomaram a parte activa que o povo queria nestes seus movimentos. Quando se andava pelas casas pedindo a cada um armas e munições que tinha, também se foi ter com eles e não quiseram dar as suas, fazendo-se, por isso, suspeitos ao povo, que em consequência os apertou mais vivamente, e eles se encerraram em casa. Em um instante foi esta rodeada e, saindo o língua com uma espada na mão, como quem queria brigar, apenas ia pondo os pés na rua, caiu morto no meio da multidão. Então Reynolds se fechou depressa por dentro e rompeu no desvario de subir a uma janela e fazer fogo sobre o imenso povo, que tinha concorrido; imediatamente uns investiram a porta, outros as janelas e outros, mesmo, aos telhados e o infeliz, querendo atravessar por entre a multidão, caiu oprimido e atordoado com pancadas, mas não morto. Pediu a confissão e, é o que lhe salvou a vida, porque suspendeu o furor popular; era tal o estado em que se achava, que o conduziram em uma tumba para a Misericórdia, conseguiu porém restabelecer-se e foi, depois, remetido para o Porto.
Muitas balelas se espalharam a respeito destes estrangeiros e, penso que sem fundamento verdadeiro. Registaram-lhes exactissimamente a casa e achando-lhes alguns arráteis de pólvora, e uma porção de balas de cobre, que provavelmente lhe serviriam de alguma coisa para o uso das suas máquinas, chamaram-lhes traidores e publicaram que tinham correspondência com os inimigos e conservavam para eles grandes depósitos de armas e munições, até das balas de cobre figuraram balas envenenadas, e da pertinaz resistência que se propuseram fazer, tirou-se por conclusão, que esperavam os franceses, pensando pelo ruído do povo que ouviam serem estes que vinham já entrando na terra.
É muito provável que Loison se não propôs a entrar na Covilhã; se se propusesse não havia ali forças que lhe pudessem obstar.
Foi seguindo a estrada direita e na tarde do mesmo dia 4 se avistou a 2 léguas da vila para as partes de Belmonte, ficando-lhe de permeio o Zêzere. Toda a noite seguinte foi de grande reboliço e Gregório Tavares teve o arrojo de ir com um piquete observar o inimigo junto ao lugar de Caria, onde tinha acampado: Loison o que queria era ver-se livre do meio de tantos povos insurgidos e, por isso, sem aceitar desafios, levantou campo e continuou seu caminho, ficando em poder dos nossos um extraviado, que foi conduzido à Covilhã com grande alvoroço e declarou que era de 4.400 homens e não levava artilharia.
Á vista do prisioneiro levantou-se um franciscano chamado Fr. José da Madre de Deus, natural e morador na Covilhã e disse: Pois eu não hei-de também ir buscar alguns prisioneiros?
Foi dito e feito; saiu acompanhado somente de um paisano valoroso chamado o Bichinho, passando o Zêzere uniram-se mais quatro paisanos do lugar de Peraboa e foram dar com sete franceses junto à Capinha, de que mataram um e aprisionaram os seis restantes. Foi este o primeiro passo da carreira patriótica e militar do Padre Fr. José da Madre de Deus, em que depois se distinguiu muito, qual outro frade do hábito branco, principalmente no bloqueio de Almeida. Eu o conheci ultimamente em Lisboa, solicitando licença para ir levantar uma guerrilha contra o exército de Massena.
O Fundão despovoou-se, mas Loison não entrou nesta vila porque se não desviou da estrada. Assim mesmo lhe foram ficando por aquelas terras bastantes prisioneiros, que provavelmente se extraviavam, por não poderem seguir a marcha”.

Notas dos editores – 1) José Acúrsio das Neves (1766-1834) licenciou-se em Leis na Universidade de Coimbra. Casou e exerceu a profissão de magistrado, juiz de fora e corregedor em Angra do Heroísmo. Voltou à Beira, onde escreveu panfletos nacionalistas contra os franceses invasores. Exerceu profissões públicas como deputado, desembargador, ou dirigente da Real Fábrica das Sedas. Mas a Revolução Liberal de 1820 apanhou-o, primeiro abraçando-a e depois criticando-a e apoiando a contra-revolução  e o governo miguelista. Apareceu morto na Beira, num palheiro, onde, é voz corrente, se costumava esconder. Distinguiu-se como economista e defensor da indústria em Portugal. 2) Acúrsio das Neves também publicou em 1820 “Memória sobre os Meios de Melhorar a Indústria portuguesa Considerada nos seus Diferentes Ramos”

sábado, 6 de agosto de 2011

Covilhã - Invasões III

Assentos de Óbito 1811
Guerra Peninsular - Invasões Francesas

Covilhã

No livro 4 de Óbitos de Stª Maria da Covilhã não há assentos de óbitos desde 11 de Novembro de 1810 até 28 de Fevereiro de 1811.
Em 28 de Fevereiro de 1811 há 3 assentos, o primeiro do Vigário desta Igreja João Baptista Belo, que diz ter falecido subitamente e ser sepultado nesta Igreja, outra Francisca de Jesus Aleixa, solteira, maior, também sepultada na referida igreja e falecida com todos os sacramentos e por fim Estêvão Paulino, sem sacramentos por não se poder ministrar-lhos pela invasão do inimigo e foi sepultado nesta Igreja de que fiz termo que assinei dia, mês e ano ut supra Covilhã, O Vigário encomendado Martinho da Costa França “.

Segue depois um assento de 27 de Março de João Francisco Romão e depois:

“ Aos 19 de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente assassinado pelo inimigo Francês o Revdo Francisco de Paula Torres tendo antes recebido os sacramentos devidos e foi sepultado na Capela da Srª do Rosário por não ser possível sepultar-se nesta Igreja por causa da Invasão do dito inimigo, fez testamento muito antes que vai abaixo copiado de que fiz termo que assignei Covilhã dia, mês e ano ut supra. O Vigário encomendado Martinho da Costa França “
                                    Segue o testamento

Logo a seguir:

“ Aos 21 do mês de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente Rita Cardona Barreiros ao dezamparo, na Serra da Estrela na entrada do inimigo Francês morreu sem sacramentos e foi sepultada nesta Igreja de que era freguesa tinha de idade 70 anos pouco mais ou menos era solteira. E fiz este assento que assinei e morreu tendo antes feito testamento. O Vigário encomendado Martinho da Costa França” segue o testamento

“ Aos 23 do mês de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente Ana Martins, freguesa desta Igreja, morreu sem sacramentos na Serra da Estrela fugindo ao inimigo Francês e foi sepultada nesta Igreja em cova de fabrica de que fiz este termo e assignei. Covilhã dia, mês e ano ut supra. O Vigário encomendado Martinho da Costa França = à margem = Ana Maria mulher de Estêvão Paulino “

A seguir:
“ Aos 21 de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente assassinado pelos franceses Francisco das Neves Salgadinho, casado com Joana Maria e foi sepultado nesta Igreja de que era freguês, em cova da fábrica de que fiz termo. Covilhã, dia, mês e ano ut supra.
O Vigário encomendado Martinho da Costa França

A seguir:
“ Aos 21 de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente assassinado pelos franceses Bernardo Izento, casado com Maria das Neves e foi sepultado nesta Igreja de que era freguês, de que fiz termo que assino. Covilhã, dia, mês e ano ut supra.
O Vigário encomendado Martinho da Costa França

A seguir:
“ Aos 21 de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente maltratada dos franceses Joaquina Damazia, mulher de Simão Rapozo e foi sepultada nesta Igreja de que era freguês ( sic ), de que fiz este assento que assignei. Covilhã, dia, mês e ano ut supra.
O Vigário encomendado Martinho da Costa França

A seguir:
“ Aos 21 de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente  Rita Calcanhar, viúva de Cristóvão Roiz Zacarias, sem sacramentos e foi sepultada nesta Igreja, de que fiz termo, que asino. Covilhã, dia, mês e ano ut supra.
O Vigário encomendado Martinho da Costa França “

Seguem um assento de 5 de Abril sem qualquer referência ou anormalidade, outro de Maria da Encarnação, solteira, maior, sepultada em Unhais da Serra, que ali se achava por acaso, mas era freguesa de Stª Maria, assento este de 3 de Abril, com testamento, e depois:

“ Aos 16 dias do mês de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente com os sacramentos devidos Ana da Trindade Carapita, viúva de João Pedro e foi sepultada nesta Igreja de que era freguesa, em sepultura da Fábrica, etc.

e depois:

“ Aos 19 dias do mês de Fevereiro de 1811 faleceu da vida presente assassinado pelos franceses, tendo antes recebido os sacramentos devidos, Bernardo Fernandes da Fonseca, e foi sepultado nesta Igreja de que era freguês, de que fiz assento que assinei. Covilhã, dia, mês e ano ut supra.
O Vigário encomendado Martinho da Costa França

Seguem depois outros assentos de 8 de Abril em diante, e entre um deles o de Manuel Fernandes das Neves Barroqueiro, de 28 de Fevereiro e a seguir com data de 30 de março o de Josefa Maria, solteira, sepultada em Alvoco da Serra.
De Santa Maria nada mais interessa deste período.

Freguesia do Salvador – Óbitos Lº 2

fls 42 e segts:
“ Manuel de Oliveira, natural desta Vª, de idade de 72 anos, pouco mais ou menos, casado que foi com Brízida Joaquina, foi achado morto na sua mesma casa no dia 26 de Fevereiro do presente ano de 1811, cheio de feridas e é de presumir que fora morto pelos Franceses no dia 18 do dito mês de fevereiro, dia em que eles invadiram esta vila e nela entraram e se demoraram pelo espaço de oito dias.
Não fez testamento ou disposição alguma; foi sepultado na Igreja dos Religiosos de S. Francisco desta Vila. Em Maio 4 de 1811 “
O Prior José de Brito Homem Castelão.

Segue logo:

“ Dona Theodora de Mesquita Bandeira, solteira, filha de Domingos Nunes Giraldes Portugal e de Antónia Maria Bandeira, natural desta Vila, de idade de noventa anos, pouco mais ou menos, foi achada morta nos arrabaldes desta Vila, no dia 27 de Fevereiro de 1811, e é de presumir que morrera por causa do grande frio ou de fome porque se não se lhe achou no cadáver contusão ou ferida alguma. Fez testamento e foi sepultada na Igreja de São Francisco desta Vila.
Covilhã 4 de Maio de 1811
O Prior José de Brito Homem Castelão.

segue:
“ Paula Antunes, solteira, natural do lugar do Sobral de Baixo, termo da Vila de Pampilhosa, deste Bispado, de idade de 60 anos, pouco mais ou menos, creada que tinha sido do Prior do Salvador, desta Vila, foi achada morta nos arrabaldes desta Vila no dia 18 de Março de 1811 e é de presumir que fosse morta pelos franceses no dia 18 de Fevereiro do dito ano, dia em que os franceses invadiram a Vila de Covilhã; foi sepultada no sítio do Sineiro entre as casas das Quintas do Padre Francisco de Torres e de José de Almeida Requente, por causa de estar o cadáver já cheio de corrupção; não fez testamento ou disposição alguma,
Covilhã 4 de Maio de 1811
O Prior José de Brito Homem Castelão.

Seguem os assentos de Francisco Fernandes Bonito e mulher Maria Marques, falecidos ele a 5 e ela a 13 de Março de 1811, sem qualquer indicação.

A seguir o seguinte:
“ Aos 18 dias do mês de Março do presente ano, recebendo tão somente o sacramento da penitência, por causa de estarem muito próximos os franceses, António da Fonseca, de idade de 48 anos pouco mais ou menos, casado que foi com Maria Gomes, moradores na Quinta do Corges pequeno, desta freguesia. Não fez testamento ou disposição alguma. Foi sepultado na Igreja do Salvador, em sepultura da fábrica, dia, mês e ano ut supra digo 4 de Maio de 1811.
O Prior José de Brito Homem Castelão.
Seguem outros assentos com a mesma data de 4 de Maio de 1811 e depois:

“ Aos 3 de Abril de 1811 faleceu da vida presente sem receber sacramento algum por ser a morte repentina, Maria de Jesus, de idade de 63 anos, viúva que tinha ficado de João Rodrigues Azeiteiro, natural desta Vila; não fez testamento ou disposição alguma; foi sepultada na Igreja dos Religiosos de Stº António desta vila por ter falecido em pouca distância do Convento dos ditos Religiosos, na retirada que tinha feito para as Cortes do Meio, em razão da última invasão que os franceses fizeram nesta vila.
Covilhã 4 de Maio de 1811
O Prior José de Brito Homem Castelão.

Covilhã - Ao longe antigo Convento de Santo António, na encosta da Serra
 Fotografia de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias

“ Aos 13 de Abril de 1811 faleceu da vida presente tendo recebido os sacramentos da confissão e extrema unção e não recebeu o sagrado Viático por ser a morte quase  repentina, Agostinho Lopes, de idade de 52 anos pouco mais ou menos, natural desta vila, casado que tinha sido com Maria Teresa; não fez testamento ou disposição alguma; foi sepultado na Igreja do Salvador em sepultura de fábrica.
Covilhã 4 de Maio de 1811
O Prior José de Brito Homem Castelão.

(Também havia enterramentos no Adro da Igreja do Salvador.) Esta frase entre parêntesis foi escrita pelo autor.

Mais adiante:
“ Ana Doroteia, de idade de 63 anos pouco mais ou menos, natural do lugar de Aldeia do Mato deste Arciprestado, casada que tinha sido com Filipe Rodrigues Vinagre e moradora nesta freguesia, faleceu ( á margem : Declaro que faleceu no dia primeiro de Março de 1811 ) no lugar das Cortes do Meio, deste Arciprestado, para onde se tinha refugiado por causa da Invasão que os franceses fizeram nesta Vila no dia 18 de Fevereiro do presente ano e segundo me informam foi sepultada na Igreja do dito lugar no dia 24 ou 25 do dito mês de Fevereiro deste presente ano de 1811, por 2 mulheres sem que o Padre Cura daquele lugar fosse sabedor porque se achava ausente e refugiado por causa dos Franceses. Não fez testamento ou disposição alguma. E para constar fiz este assento.
Covilhã 24 de Maio de 1811
O Prior José de Brito Homem Castelão. “

Santa Marinha
fls 93 vº

“ Aos vinte e um ou 22 dias de Fevereiro do presente ano de 1811, faleceu da vida presente Maria Nunes Moizaca, viúva que tinha ficado de José Rodrigues Cordoeiro, naturais desta vila; não recebeu os sacramentos porque morreu na Serra na ocasião que os Franceses invadiram a vila; Fez testamento que abaixo será copiado e foi sepultada na Igreja dos Religiosos de S. Francisco segundo a sua disposição, de que fiz este termo que assinei.
Padre António Francisco Nave
Declaro que tinha de idade 87 anos pouco mais ou menos.

Na ocasião que os Franceses invadiram esta Vila e se demorão ( sic ) nela, que foi desde o dia 18 de Fevereiro de 1811 até o dia 25 do mesmo mês e ano faleceram da vida presente sem sacramentos as pessoas seguintes fregueses desta freguesia :
Rita Maria Fortuna, viúva que tinha ficado de José Lopes Vide, natural desta freguesia, tinha de idade 50 anos pouco mais ou menos e foi sepultada na Serra, aonde morreu; não fez disposição alguma de que fiz este termo que assinei: O Pe. Antº Francisco Nave.
Manuel Nunes Botelho, casado que foi com Luiza Maria, era natural da Vila de Manteigas, tinha de idade 70 anos pouco mais ou menos, não fez disposição alguma e foi sepultado em Cova da fábrica desta Igreja de que fiz termo que assinei. O Pe. António Francisco Nave.
Item António Fernandes Montez, viúvo que tinha ficado de Rita Maria, era natural desta Vila, não fez disposição alguma tinha de idade 70 anos e foi sepultado na Cova da Fábrica desta Igreja de que fiz este termo que assinei. O Pe. António Francisco Nave.