quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Covilhã - Os Forais e a População nos séculos XV e XVI - III


    Antes da publicação deste Censo ou Numeramento de 1496 que Luiz Fernando de Carvalho Dias transcreveu, publicámos um documento de D. João II do ano de 1482, "Sobre os Contadores". Também já apresentámos um "Regimento dos Corregedores das Comarcas", bem interessante para o assunto que tratamos. Vamos mostrar um mapa com o itinerário que o porteiro do almoxarifado teria seguido em 1496 (1) e fotografias desse Inquérito, respeitantes à Covilhã.


Itinerário

“ Caderno da gente e Rendas da Beira “

Covilhã (9 vº cont)

Jtem - Covilhã é de El Rei nosso senhor e é alcaide dela Dom Rodrigo de Castro; os direitos reais do Castelo são a sisa judenga que rende quarenta mil reais com todos os outros direitos S - portagem quinze mil reais e os foros do alcambar vinte e sete mil reais E as pensões dos tabeliães It brancajães (2) e armas e volltos ... seis mil reais; Soma de todo o rendimento ao dito alcaide oitenta e sete mil reais
    ( fls 10) // mais rende a dita judiaria de sisa em cada um ano a Conde dabranches cinco mil
     e quinhentos reais
// mais rende a dita comuna do direito dos ferros de ceyta seiscentos reais

Estes são os criados dos reis passados e dos infantes que vivem na dita vila de Covilhã e seu termo
Dom Rodrigo de Castro, criado del Rei Dom Afonso que Deus tem
João Tavares, criado do dito Rei D. Afonso que Deus tem e é cavaleiro e comendador de São Vicente da Beira e de Alpedriz
Álvaro da Cunha, fidalgo criado do Infante D. Henrique e é juiz dos direitos reais na dita vila
Nuno da Cunha, fidalgo criado do Infante D. ( riscado ) que Deus tem;
(10 vº) Rui Nunes, cavaleiro e criado del Rei Dom João que Deus tem
João de Figueiredo o Velho, cavaleiro criado del Rei Dom Afonso que Deus tem;
João de Figueiredo o moço é alcaide por Dom Rodrigo
Lopo Barbedo criado do Infante D. Fernando que Deus tem
Tomé Álvares é escudeiro e criado do dito senhor Dom Afonso é escrivão do porto do Sabugal
Fernão de Anes é escudeiro criado do dito senhor rei Dom Afonso
Martim  Gomes é escudeiro  criado do dito senhor rei Dom Afonso
João Carvalho é escudeiro criado do dito senhor rei Dom Afonso e escrivão dos órfãos da dita vila;
Lopo Fernandes é escudeiro criado del Rei D. João que Deus tem
Álvaro Fernandes é escudeiro criado do dito senhor rei Dom Afonso;
João Fernandes ....... é escudeiro criado do dito ....    Afonso;
( fls 11) Fernão Cardoso é escudeiro criado do dito senhor rei Dom Afonso;
Rodrigo Afonso Barbas é escudeiro criado do dito senhor rei Dom Afonso;
Pero Tavares é escudeiro criado do Infante D. Henrique e é mamposteiro mor dos cativos da dita vila;
João Ribeiro é escudeiro criado del Rei D. Pº ... que Deus tem;
os quais acima escritos são moradores no corpo da dita vila de Covilhã;
E estes são os do termo da dita (sic) vila
O Craveiro fidalgo e criado do Infante D. Fernando e é comendador da Reigada, morador na Aldeia de Joane;
Nuno Vaz de Castelbranco é fidalgo criado del Rei D. Afonso que Deus tem
hº Lopes morador no Souto da Casa é escudeiro criado do dito senhor Rei D. Afonso;
Estes são os oficiais da dita vila e seu ... (termo).
(fls 11 vº) Estes são os moradores da vila
Paio Roiz de Castelbranco é juiz das sisas;
João Barbas é escrivão dos feitos das ditas sisas;
Afonso Álvares é escrivão da tamella das ditas sisas e escrivão da coudelaria, tabelião do judicial;
Afonso Álvares Gago é tabelião do judicial;
Luís Fernandes é tabelião do judicial;
João Brandão é tabelião do judicial;
Pero Machado é tabelião do judicial e é escudeiro criado do Infante D. Henrique;
Henrique Mendes é tabelião do judicial;
Henrique da Costa é tabelião das notas e é contador e inquiridor dos feitos na dita vila e é escudeiro e criado do Infante D. Fernando;
Tomás Tavares é tabelião das notas;
(fls 12) Gregório Roiz é tabelião das notas e jurado;
João Lourenço Vaz morador na Aldeia de Joane é tabelião das notas;
Afonso Eanes morador no Souto da Casa é escrivão das sisas de Oleiro e Ribeira do Caya, termo da dita vila;
João de Barbedo é juiz dos órfãos;
Juça de Carces judeu é escrivão da Câmara da dita Comuna e judicial;
Abraão Çoleima é escrivão da dita Comuna.
São destes sobre ditos trinta e nove pessoas.
São do número do povo com os judeus que são cento e oito (3), dois mil e trezentos e trinta e quatro pessoas E nesta conta entram muitos escudeiros criados del Rei nosso senhor e doutro muitos fidalgos que não vão nomeados pelos seus nomes porque no mandado se não contém nem faz declaração. Feito aos 16 dias de Março Afonso Álvares o fiz de 1496.
(2) - direito que se paga por cozer pão
    (3) - à margem : 2334 moradores / 2226  (não judeus)


Fotografias do Numeramento de 1496 respeitantes à Covilhã



     Outras terras

Manteigas (fls 1)

Manteigas é de El Rei nosso senhor tem nela João Fernandes Cabral  a presente em colheita e lhe rende sete mil reais.
Estes são os oficiais:
Miguel Vaz é juiz das sisas;
Henrique Conde escrivão das sisas;
João Martins escrivão da Câmara e do judicial e público e ........ por sua alteza;
Soma o número de moradores da dita, criados e vizinhos duzentos e vinte, feito na dita vila 18 dias do mês de Março e João Martins escrivão da Câmara da dita vila o escrevi de 1496 anos. Eu escrivão que isto assinei por ser verdade por que na dita vila não estavam os juizes.     a) João Martins
Tem à margem - 220 moradores

Valhelhas (fls 1 vº)

O castelo de Valhelhas está por El Rei é senhor dele e da dita vila Dom Rodrigo de Castro e é alcaide Vasco Anes e tem de renda e direitos reais dez mil (?) reais é juiz dos órfãos Pero Feio e Paio Gomes tabelião e escrivão dos órfãos
Domingos Hº tabelião do público e do judicial
conta dos moradores da vila e termo 230 homens Paio Gomes tabelião o fez de 1496 anos aos .... de Março não assinar ?
Tem à margem - 230
       fls 1 vº em branco
       fls 2 em branco
       fls 2 vº - Em letra do sec XVI - “ Caderno da Gente e Rendas da bejra “
       contém ao todo o caderno - 13 fls

Penamacor (fls 3)

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1496 anos aos 8 dias do mês de Março do ano presente no lugar da Meimoa termo da vila de Penamacor estando aí Álvaro Vaz ( ou Vasques ? ), juiz ordinário nesta vila termo perante ele juiz compareceu Lourenço Afonso, homem do almoxarifado da Guarda E apresentou este treslado da carta del Rei nosso senhor contido neste caderno a qual eu tabelião publiquei E sendo a publicada o dito juiz em cumprimento dela fez esta diligência que tal é :
O Castelo e esta dita vila de Penamacor é del Rei nosso senhor E alcaide mor dela é Rui Mendes de Vasconcelos
Os direitos que pertencem ao dito castelo rendem doze mil e quatrocentos reais porque ora estão arrendados. Nesta vila tem sua casa Dom Fernando de Menezes comendador de ...... marquês  
(fls 3 vº) Pero Afonso escudeiro criado del Rei que Deus haja, morador nesta vila;
João de Lamego alcaide das saquas nesta vila, que vive em Belmonte;
escrivão das saquas Sebastião Martins, morador na dita vila;
Juiz das sisas na dita vila Álvaro Vaz morador nela;
Escrivão das sisas Sebastião Martins morador na dita vila;
Há na dita vila três tabeliães
por ser verdade assinou aqui o dito juiz
Na dita vila de Penamacor há aí trezentos e oitenta moradores pouco mais ou menos
Tem à margem - 330 moradores
       a) Álvaro Vasques
Mais a sua alteza na dita vila termo (sic) o terço das rendas do concelho
       a) Álvaro Vasques

Idanha (fls 4)

Aos dez dias do mês de Março do ano de 1496 anos na cidade de Idanha a velha por Lourenço Afonso, homem do almoxarifado da Guarda foi notificada esta carta del rei nosso senhor e contador e caderno atrás contido a Álvaro Anes, juiz ordinário na dita cidade e o dito juiz, vista a dita carta e caderno e o nela contido, mandou que se cumprisse assim como nela estava contido e que em cumprimento dela mandava a mim tabelião que escrevesse os apontamentos e coisas contidas na dita carta os que houvesse nesta cidade e termo segundo na dita carta faz menção, e o dito Lourenço Afonso portador desta pediu esta provisão, testemunhas Gº Magro e Aº Gonçalves ferreiro Eu Gomes de Proença tabelião que este escrevi
Nesta cidade e termo não há fidalgos nem cavaleiros nem escudeiros nem privilegiados
Nesta cidade há juiz das sisas e chama-se João Álvares e escrivão delas João Miguel
Há nesta cidade Gomes de Proença tabelião público e judicial por sua alteza
No termo desta cidade é coudel Pero Gil, morador na dita cidade e João Miguel é escrivão da coudelaria, este ofício é (termo ?) e não na cidade.

Monsanto (fls 4 vº)

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1496 anos aos nove dias do mês de Março na vila de Penamacor (riscado) Monsanto no adro de São Salvador estando aí Nuno Álvares, escudeiro do senhor conde da dita vila que Deus haja e Vasco Fernandes, juizes ordinários na dita vila perante eles compareceu Lourenço Afonso , homem do almoxarifado e apresentou perante eles este mandado do treslado da carta del rei nosso senhor atrás escrito e os dois juízes em cumprimento dele disseram isto que adiante se segue:
O Castelo desta vila e essa esteve até agora que o dito senhor conde faleceu, por o dito conde em alcaide que então em esta em o dito castelo estava por o dito conde e chama-se Álvaro de Castros e agora não sabemos a quem sua alteza mandará dar o dito castelo
A renda que o dito conde tinha nesta vila eram nove mil reais em cada um ano deste concelho por todos os direitos que aqui de nós havia
mais mil e quatrocentos e quarenta reais de pensão dos tabeliães
havia a sisa judenga dos judeus desta vila e seu arrendamento e esta quantia vai arrendada em quatro mil reais
Juízes das sisas  ...... de Sousa fidalgo morador nesta ...........
(fls 5) .... das ditas sisas // Jesus /
coudel da dita vila e termo Nuno Álvares escudeiro do conde que Deus haja, morador na dita vila
Há na dita vila três tabeliães S. Afonso Prado e Pero André e João Afonso todos moradores e naturais da dita vila
Há nesta vila duas igrejas São Salvador prior dela Miguel Mendes capelão do senhor Príncipe que Deus tem por seu alvará; São Miguel prior dele Rº Afonso capelão do senhor conde que Deus tem.
Em Medelim termo desta vila a Santa Maria Madalena prior dela ( prior dela repetido ) Pero Saram capelão do dito senhor conde
O número dos moradores da dita vila e seu termo trezentos ( quatro letras riscadas ) vizinhos pouco mais ou menos.
Tem á margem - 300 moradores
Das rendas que na dita vila el Rei nosso senhor há em cada um ano a terça do que as ditas rendas rendem e por ser verdade assinam aqui por suas mãos
       a) Nuno Álvares    a) Vasco Fernandes, juízes

Salvaterra (fls 5 vº)

Aos onze dias do mês de Março do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1496 anos na vila de Salvaterra em o Jdos (adro ?) de Santa Maria foi apresentado este treslado desta carta del Rei Nosso Senhor a Pero Vaz e a Pero Afonso Crespo, juízes ordinários na dita vila e os ditos juízes em cumprimento dela disseram logo estas coisas adiante escritos
dizem que nesta vila está um Castelo / à margem : Castelo / e tem dele o cargo Fernão de Sousa, comendador mor da ordem de Cristo e tem por alcaide nele Luís Álvares, seu criado /
Nesta vila há uma judiaria que rende de sisa judenga e direitos um mil e quinhentos reais e destes direitos (uma palavra ilegível) e os havia o conde de Monsanto
a portagem desta vila renderá pouco mais ou menos obra de dois mil reais e os leva o comendador mor
quanto é dos escudeiros não há aqui salvo Pero do Rego alcaide das sacas
e as rendas do concelho (sic) que poderão um ano por outro render a terça del Rei obra de três mil reais e outros anos não rende tanto e Diogo Lopes contador das obras toma esta conta ao concelho  (sic)
Vasco Fernandes tem ofício da escrivaninha do órfãos e das sisas e do público e das bestas e gados
Pero Lucas tabelião do público e da almotaceria e da câmara e contador e inquiridor
Brás Afonso tabelião do público
O número .... (rasgado) ........ vila e ( fls 6 ) termo
O número da gente da vila obra cento e trinta moradores de vila e termo e outra coisa não sabemos salvo a sisa que tem el Rei nosso senhor por verdade assinamos por nossas mãos
a) Pero Vasques    a) Pero Vaz   a) Pero (sinal) Afonso
                                       Juiz                     Juíz

Rosmaninhal

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1496 anos, nesta vila do Rosmaninhal  (sic) à porta de Aparício Anes moço, morador no dito lugar Em presença de mim tabelião e das testemunhas foi apresentado este treslado desta carta del Rei nosso Senhor a João Folgado e Afonso Álvares juízes ordinários que ora são na dita vila e os ditos juízes em cumprimento dela disseram logo estas coisas adiante contidas e escritas Eu Diogo Dias tabelião que esta escrevi
Dizem os sobreditos juízes que nesta vila não há castelo mas é comendador dela Antão da Fonseca que ele recolhe todas as rendas do dito lugar, dízimos e portagens que podem ser bem (rasgado) ... portagem bj. tos (600 ?) reais
(6 vº) quanto é dos escudeiros nesta vila não há nem um por que não é salvo terra de lavradores
quanto é ao que rendem as rendas do concelho desta vila é um lugar sem nenhuma renda mas haverá sua alteza de terça cento reais e mais não um ano e outros anos não no rende
nesta vila há um Diogo Dias que é tabelião do público e escrivão da câmara e escrivão das sisas e paga de pensão cada ano a sua alteza trezentos reais
O número da conta que há no dito lugar pouco mais ou menos não falecer nenhum por que não tem termo setenta vizinhos e mais não - (à margem 70 moradores)
outros oficiais nesta vila não os há salvo os que havemos dito e por verdade Eu Diogo Dias tabelião na dita vila por sua alteza escrevi por mandado dos ditos juízes e assinaram de seus sinais que tais ... (rasgado) ... de meu sinal Raso

Proença (fls 7)

Ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo de 1496 anos aos 13 dias do mês de Março Nesta vila de Proença perante Hº Gonçalves e André Pires juízes ordinários compareceu Lourenço Afonso, homem do almoxarifado da Guarda e por mim tabelião ali so nomeado lhe foi publicada esta ... (sumido) del Rei nosso senhor e logo os ditos juízes em cumprimento dela fizeram esta diligência que se segue
Nesta vila há em castelo feito sem nenhuma torre e está nela João Roiz de Brito fidalgo da Casa de sua alteza e comendador nesta vila e termo e não há aqui escudeiro nem um os direitos reais da portagem são do dito comendador e rendem um ano por outro ( sumido ) seis mil reais entre a vila e termo
a renda do verde é do concelho e el Rei nosso senhor tem um terço dela ... ( palavra riscada ) de que rende a terça anos há aí de 800 e outros 900 e outros anos mil reais e esta é o verde da dita
há nesta vila e termo dois tabeliães públicos e um escrivão da câmara e almotaceria e das sisas, estes tabeliães e escrivão da câmara e almotaceria são ofícios do mestrado Os tabeliães pagam de pensão 300 reais cada um em cada um ano
aqui não há judiaria nem mouraria e haverá vizinhos e moradores na vila e termo homens tirando moços haverá 300 ( á margem - 300 moradores ) moradores na vila e termo e não há aqui escudeiros e por ser verdade Eu Pero Vaz tabelião público na dita vila e termo por sua alteza ... (sumido) escrevi
       (sumido)              André (sinal) Pires
                                       Hº (sinal) Gonçalves

Castelo Branco (fls 7 vº)

Esta vila de Castelo Branco está por el Rei nosso senhor e assim o Castelo e está nele Aires Gomes de Valadares comendador por mandado de sua alteza e a portagem da dita vila tem o dito comendador e rende em cada um ano catorze mil reais e a terça da renda do concelho rende em cada um ano quatro mil e cinco mil reais os quais se arrecadam aqui por Diogo Lopes contador das obras dos muros e canais barxeys ... (palavra riscada) na comarca da Beira e Riba Coa
Mais nesta dita vila Garcia dos / de sua altada ( sic ) Garcia de Melo Pero de Sousa o comendador da Lousa Diogo Lopes
del Rei nosso senhor que Deus tem Rº Rebelo
João Serrano, escrivão da si (sic)
Garcia Mendes
Fernão Vaz de Castelbranco
Pero Vaz de Castelbranco
Rui Vaz de Refoios
..... (comido pela água) ... sisa
(2ª coluna ao fundo) Mem Gonçalves, criado do Infante D. Fernando que Deus tem, escrivão dos órfãos
(fls 8) Francisco Soares, criado do Infante D. Fernando que Deus tem, juíz dos órfãos
João Fernandes, criado da senhora Rainha ... (palavra riscada) coudel
O dito Mem Gonçalves tabelião
Gº Travassos tabelião
Pero Afonso tabelião
Diogo Nunes escrivão da câmara
Os direitos reais da comuna desta vila rende em cada um ano 23.000 reais
o número da gente desta vila e termo são oitocentos e vinte pouco mais pouco menos ---- 820 (à margem 820 moradores)
Isto atrás escrito escrevi eu Diogo Nunes escrivão da câmara e assinei e vi
                               R. Digo Nunes
                               escrivão R.

São Vicente da Beira (fls 8vº)

Aos 15 dias do mês de Março do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1496 anos na vila de São Vicente da Beira nas moradas de mim tabelião estando aí Fernão Roiz Vasco Roiz juízes ordinários na dita vila perante eles compareceu Lourenço Afonso homem deste almoxarifado e notificou aos ditos juízes o treslado desta carta del Rei nosso senhor sobre a qual se achou isto que se segue
A portagem desta rende seis sete mil reais e é a metade é de João Tavares comendador desta vila e a outra metade é do mosteiro de São Jorge de Coimbra
E os moradores da pensão de Rio de Moinhos, termo desta vila são foreiros ao dito mosteiro e comendador que tudo renderá a cada um quatro mil reais
Os bens que traz Diogo da Cunha que são da Ordem de Avis que os tem aforados à ordem e pagam de foro em cada um ano mil reais
A judiaria desta vila anda ....... a de Castelo ..... distam sua ..........
fls 9 (não está número da) Há nesta vila Diogo da Cunha que é fidalgo
Pero Vaz e Rui Fernandes são escudeiros del Rei nosso senhor que ora é
Lopo de Azevedo este é criado del Rei Dom Afonso que Deus haja
Pero Camelo esse é criado do Infante que ora é
Diogo de Almeida é tabelião
Afonso Coelho é tabelião e escrivão das sesmarias
Brás Gonçalves é tabelião e coudel nesta vila
Mem Gonçalves escrivão da coudelaria
Rui Fernandes é escrivão da câmara e almotaçaria
Juiz dos Órfãos Heitor Lopes
escrivão dos órfãos  Vasco Roiz
Juiz das sisas Afonso Álvares da Covilhã
Gº Esteves das sisas desta vila
Nesta vila há um tributo que se chama soldo de água que este concelho desta vila paga mil e seiscentos reais que ora tem Vasco Gil de Castelbranco e isto em cada um ano.
nesta vila .... (rasgado) ... Castelo e é do ..... mestrado de Avis.
fls 9 vº (sem número) O número de gente desta vila e termo são trezentos e trinta e sete moradores. aqui não há outra coisa que pertença a este caderno e porque é verdade Eu Brás Gonçalves tabelião na dita vila por o senhor Dom Jorge nosso senhor isto escrevi e assinei com o meu sinal.
    a) Brás Gonçalves          a) Fernão Roiz        a) Vasco Roiz

(Fls 12 vº)  (Depois da Covilhã)

Belmonte (fls 12 vº)

Belmonte é del Rei nosso senhor com sua fortaleza é alcaide mor dela João Fernandes Cabral e os direitos dela são do dito João Fernandes . S. portagem dois mil e quinhentos reais e quinhentos de colheita da dita vila e de sisas judenga quatrocentos reais
das pensões dos tabeliães 600 reais
das rendas do dito Castelo da vila e termo 433 alqueires de centeio
de trigo 51 alqueires em cada um ano
de vinho 30 almudes
de linho para amanhar 3 cargas
de galinhas 30 galinhas
de çumagre 3 arrobas
estes são os oficiais da dita vila
João Gonçalves e António Roiz tabeliães por el Rei
Pero Álvares juiz das sisas e Gº Anes Botelho escrivão delas
Antão Vaz juiz dos órfãos e o dito António Roiz escrivão
Estes são os moradores que vivem na dita vila de Belmonte e seu termo
na vila moradores 88 homens
seu termo 50 homens

Sortelha (fls 13)

Aos 7 dias do mês de Março de 96 anos na vila de Sortelha foi apresentada esta carta del Rei nosso senhor e mandado do contador a João Barreiros juiz ordinário na dita vila por mim Frei Diogo capelão na dita vila testemunhas Lourenço Afonso homem do almoxarifado da Guarda e a mulher de Antão Afonso escrivão das sisas e por verdade assinei aqui por minha mão Frei Diogo
E achou-se isto que se segue
                   a) Lourenço (sinal) Afonso
fidalgos cavaleiros escudeiros que criados sejam dos Reis Infantes nesta vila não há nenhuns somente o alcaide que chamam Gomes da Fonseca e criado del Rei Dom João que Deus tem.
ele tem com o dito castelo de renda 9000 mil reais e na dita vila não há outras rendas nenhumas.
mouraria nem judiaria não hã na dita vila
Antão Afonso escrivão das sisas
Martim Gonçalves tabelião do público e judicial
O dito Afonso tabelião do público
nesta vila e seu termo são por todos ( à margem - 140 moradores ) cento e quarenta homens e por ser verdade assinamos aqui p. João ( sinal ) Barreiros  L Frei Diogo  
                                                        Juiz                               Lourenço (sinal) Afonso


(a fls 13 vº está em branco) (2)


            No numeramento de 1496 falta Segura, Penha Garcia, Castelo Novo e Idanha-a-Nova que eram da Ordem de Cristo, mas Castelo Branco, que também era, figura!


Fontes – 1) O mapa, sem o percurso, foi retirado de Dias, João José Alves, “A Beira interior em 1496 (sociedade, administração e demografia)". 2)Corpo Cronológico doc 82, ms 2, parte 2ª.
           
Nota dos editores – Posteriormente continuaremos a  publicar algumas  reflexões  feitas  por Luiz Fernando Carvalho Dias sobre estes assuntos.




domingo, 20 de novembro de 2011

Covilhã - A Misericórdia, uma Instituição de Solidariedade Social IX

Serviços prestados pela Misericórdia 

A mesa, como já publicámos, era constituída por o provedor e mais doze membros; dos nove conselheiros, dois eram designados conselheiros dos hospitais; outros dois dos doentes, mais dois dos presos, o escrivão e um outro conselheiro tinham a seu cargo os envergonhados e, por fim, dois conselheiros das esmolas.
Finalmente os dois últimos membros da mesa eram designados por mordomos.
Observemos alguns dados recolhidos (transcritos) por Luiz Fernando de Carvalho Dias no Arquivo da Misericórdia da Covilhã.

Gravura representando um enterro

I - Mortos 

1593
Aos 6 de Novembro desta era faleceu neste hospital um homem que disse chamar-se João de Cranaria (?), de Barcelona do reino da Catalunha de ofício de cravar atacões e trazia formas de fazer … com sua mulher que antes dele faleceu no dito hospital e chama-se Maria Martins e disse ser natural da vila de Alvoco e todos faleceram e deixaram 2 meninos o mais velho poderá ser de idade de quatro anos chama-se Manuel, outro pode ser perto de um ano chama-se António, ficaram-lhe na casa os instrumentos de seu ofício e um burro e este termo se fez para lembrança do que for necessário e assinamos os oficiais da casa do dito ano. 

- pessoas q faleceram em esta Sancta casa donde sam e seus nomes

604
- dia 30 de Julho de 1604 faleceu Guiomar Jorge natural que dise ser da grãia de tedo
- oie quatro de Setembro de 604 faleceu Maria … natural…
- oie 2 de Outubro de 604 faleceu nesta casa domingos estevens natural de castro doiro.
- oie 8 d’outubro de 604 faleceu nesta casa fr.cº fig natural que dise ser de Sancta Combadão do bpd de Coimbra.
- oie 9 de Fevereiro faleceu jorge Antunes de figueiredo de Gonsalo. 

- Irmãos q falecerão este ano / de 604 em q dia

- faleceu migel de Proença
- faleceu Duarte estevens
- faleceu pero ribeiro
- o prior de San pºeonor foi organizada pela Fundação

- 1617

(Tirados do Inventário da Roupa)

Francisco Lopes, do Tortozendo
António de Aldeia do Mato
António Monteiro
António
1 preso
Maria João, de S. Romão
Filipe Correia
João Fernandes
João de Seia
Domingos de Mangualde
Pº da Relvas
Domingos Gonçalves, de S. Paio
A mulher de Sortelha
João
Em 1695 morreu Maria Mendes, natural do Fundão, que deixou à Misericórdia da Covilhã – 641$905 – Livro que diz Herança de Mª Mendes – não traz testamento. 

II - Doentes 

Do concelho                                                De fora do concelho
Masc  - 11 ; Fem - 11                                 Masc – 20;  Fem – 11 

1617 – 12 de Setembro 

entrou para o hospital e foi convalescendo em Outubro, Manuel de Figueiredo, casado com Isabel Lopes, natural de Ceuta.
Em 15 de Setembro entrou Maria Gracia, mulher de João Afonso, carpinteiro, natural de Santiago d’ Arsua ?, arcebispado de S. Tiago;
Em 15 de Setembro de 1617 entrou Maria de Arjnes biscainha, mulher de Pº Frrª, moradores em Valença, foi ”convalescida” em 15 Outº de 1617. 

III - Presos 

 Outro documento de 1597 – cópia de provisão concedida à Misericórdia de Castelo Branco por Filipe (a Misericórdia da Covilhã pedia o mesmo) 

Senhores 

            Dizem o Provedor e Irmãos da misericórdia da vila de Covilhã que a eles lhes é necessário o traslado de uma provisão que a misericórdia desta vila de Castelo Branco tem para levarem os presos degredados de menos cópia de seis e assim os que forem de feitos graves para se livrarem na casa
            Pedem a V. M. mande dar o traslado da dita provisão em modo que faça fé etc….
                   
Presos q esta Sancta casa livrou / e alimentou este anno de 1604 

- Domingos Joam, morador em Aldeia de Joanne e natural da Cerdeira – solto em dez de Junho
- Esta casa livra e alimenta Martim frz bigos e sua molher e as duas crianças alimenta
- A Manoel Moreno rendeiro q foi do verde / desta villa livra e alimenta (Solto)
- bastiam dias estalaiadeiro que foi nesta villa / e sua molher
- Fr.cº Frz natural d’aldeia do alcaide, termo desta / villa
- domingos lopez de Penamacor
- antoneo fr.cº e sua molher
- Manuel Roiz
- Maria Glz do turtuzendo. m.er loucã
- Maria cousa livrou esta casa e foi solta / e foi comprir seu degredo.
- bastiam dias e sua mulher foram livres / e foram cumprir seu degredo. 

# 

- livrou esta casa e alimentou dous pastores / do teixoso que foram achados às uvas
- livrou duas molheres do tortozendo
- livrou e alimentou Manoel Roiz
- livrou e alimentou 7 ou 8 meses Antº Fr.cº e sua m.er
- aseitou esta casa para alimentar aines Nunes m.er de Fr.cº frz da madalena
- aseitou tb. a turibio da Costa
- aseitou a dº marques, oje 26 de Outº pª o livrar e alimentar
- livrou e alimentou a João Mendes das quintãs deste termo
- aseitou a Julião de Paiva do fundão pª livrar e alimentar
- aseitou a Antº Dias, o doudinho, do fundão pª livrar e alimentar
- aseitou a jorge anriques desta vila pª livrar e alimentar
- a doze dias do mês de janeiro aceitou a jorge antunes de figueiredo para o livrar e alimentar. faleceu 

1614: M – 18; F - 4
1617: M – 19; F – 4
1623: M – 19; F – 5
1627: M – 11; F – 6 

IV - Enjeitados e não enjeitados – crianças que a Casa cria, em casa ou fora, ou auxilia.

Enjeitados, filhos de pessoas sem meios, filhos de pessoas de má vida e órfãos, filhos de presos.
ingeitados q esta casa mandou criar / e alimentar e outras crianças / q esta casa cria
- oje 20 de Outubro de 604 aseitou / esta casa huma menina filha de dº / fig obrigado pº a criar
- outra menina que cria e alimenta filha da morena 

1614 – M 4; F 4
1617 – M 3; F 6
1623 – M 4; F 6     
1627 – M 3; F 1 

V - Esmolas q se deram a órfãos 

- deu esta sancta casa a huma / esposada pobre huma manta /
- a outra a huma molher de Stª Marinha – a bispa
- a um homem das Cortes q se lhe poz o fogo a casa huma manta e hum Cabesal e huma almofada
- a outra esposada pobre hu lançol e hum travesseiro em / fronhado
- outra manta a outra esposada pobre. 

- Esmola q esta Sancta casa da / aos padres de Sancto antoneo e a hospitaleira 1604 

- todos os sábados do anno se da nos / padres de Sancto antoneo sinquo arateis / de carne desmola /
- Cada somana se da a espitaleira desta / casa um alqueire quarta de centeio / cada sábado trinta rs. em drº e hum / aratel de carne / 

VI - As heranças também eram aplicadas em serviços. Vejamos um exemplo: 

1617 - Pão sabido que se comprou com o dinheiro que deixou o doutor Batthazar Manso, prior que foi do Teixoso. 

VII -Peditórios de Pão para os presos 

Em cada freguesia haverá em cada mês 3 ou 4 homens, confrades ou não, que se disponham a pedir aos domingos de cada mês, depois da missa, pão para os presos, enfermos e necessitados assistidos pela Misericórdia. Esse pão será trazido à capela para ser distribuído duas vezes na semana pelos conselheiros dos presos. 

- Recordemos, a propósito, um dos privilégios da Misericórdia da Covilhã: 

Um dos mais curiosos e vem ele da primeira mercê de D. Manuel era o de poder mandar pedir esmolas num círculo de seis léguas para além do termo. O concelho da Covilhã ainda incluía nessa época o concelho do Fundão. Assim o Licenciado Luiz de Almeida, contador e corregedor da comarca da Guarda e Castelo Branco, em 1549 manda cumprir tal privilégio às autoridades da referida comarca. O mesmo ordena o representante do Bispo da Guarda D. Jorge de Melo, ao clero da diocese em 10 de Julho de 1542, exceptuando contudo a cidade da Guarda porquanto já tem edificada a misericórdia. Notifica-o também aos seus subordinados da correição do Mestrado de Cristo o Licenciado Fernão Gomez, ouvidor dele e provedor dos órfãos, capelas, resíduos, etc, sem qualquer restrição. 

- Peditório em Alcongosta, Bendada, Teixoso, Freixial, Águas Belas, Aldeia do Mato, Casteleiro, Aldeia de Carvalho, Belmonte, Eirada, Gonçalo, Silvares, Salgueiro, Quintã, Escarigo, Cambas, (Mamposteiros), Mouta, Aldeia Nova das Donas, Alcaide, Santo Estêvão, Peroviseu, Paúl, Famalicão, Sortelha, Dornelas, Janeiro de Baixo, Souto da Casa, Aldeia de Joane, Unhais-o-Velho, S. João do Hospital, Madalena, S. Tiago e S. Silvestre, Peditório da Vila feita pelos mordomos das esmolas. (1) 

VIII - As despesas da Misericórdia permitem deduzir os vários serviços que presta: 

- Despesas da Capela, do Hospital, dos presos, dos órfãos e enjeitados, roupa para os pobres, aos velhos, para urdir e tecer teias de linho ou lã, aniversários, missas das obrigações, apelações, gastos dos mordomos das esmolas, cada um em seu mês. 

Hoje terminamos com uma pequena reflexão de Luiz Fernando Carvalho Dias, em que se acrescenta aos clássicos serviços da Misericórdia do século XVIII, a função de banco. 

Um volver de olhos superficial sobre as notas dos tabeliães da Covilhã demonstra a grande influência que a Misericórdia e as Confrarias da Covilhã e seu termo exerceram em todo o século XVIII, no desenvolvimento do Capitalismo. Verificamo-lo através de empréstimos com hipoteca e arrendamentos de imóveis. Os próprios cristãos-novos beneficiavam destes empréstimos. As Misericórdias e as Confrarias exerciam além das funções de beneficência, hospitalares e esmoleres, a função de pequenos bancos ou caixas económicas, onde o juro se justificava pela função caritativa em que se aplicava. O juro era de 5% conforme a lei que vigorava em fins do século XVIII. 

Notas dos Editores – 1) A seguir iremos publicar os peditórios de pão, vinho e azeite nesta região, no ano de 1604.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Covilhã – Uma visita régia à Beira e Belmonte

 Uma Visita de D. Afonso V à Serra da Estrela                  

        Os itinerários régios parecem-nos interessantíssimos para percebermos como era habitual o Rei movimentar-se tanto e durante tanto tempo abandonar Lisboa, numa altura em que a cidade já era identificada como capital do Reino de Portugal. É provável que o Rei se quisesse mostrar e ao mesmo tempo ver e conviver com a nação. Este percurso de D. Afonso V e corte, de Junho ao fim do ano de 1453, de Évora a Viseu, permitirá certamente estudar todo o tipo de cartas outorgadas e a quem se dirigiam. Segundo Luís Miguel Duarte (1) “no seu desembargo quotidiano, o monarca autoriza uma legitimação, concede um perdão, estabelece uma tença, privilegia um vassalo, nomeia alguém tabelião ou escrivão de uma câmara” e raramente o destinatário é colectivo. Vejamos o que Luiz Fernando Carvalho Dias nos deixou (texto escrito provavelmente nos anos sessenta). Atentemos na curiosidade de esta visita se realizar em Novembro de 1453 pelo concelho da Covilhã e neste momento estarmos em meados de Novembro de 2011.




           Pouca ou nada sabemos dos itinerários régios.
            Há pouco mais de um ano o Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, brindou a cultura portuguesa com os Itinerários de D. Sebastião, determinados através de variadíssimos documentos da sua chancelaria: trabalho notável e da maior utilidade que realça já a vasta bibliografia do ilustre historiador de Prior do Crato.
            Recordo, no princípio do século XX, outro incansável investigador, Braamcamp Freire, no Arquivo Histórico Português, ao estudar os livros originais da chancelaria do Africano, legou-nos indirectamente alguns subsídios para a fixação dos itinerários deste monarca. Eis a fonte donde brotam os elementos desta nota.
            D. Afonso V, no verão de 1453, estacionou em Évora, até Nossa Senhora de Agosto; daí se dirigiu, seguido da corte, para Tentugal, onde demoraria até fins de Setembro. A estadia em Tentugal, na estação calmosa, dava vontade de aventurar que el-rei fora veranear até à Figueira da Foz!
            De facto a chancelaria régia que emitiu vários documentos de Évora nos meses de Junho e Julho, e de Évora e Arraiolos intermitentemente de 3 a 15 de Agosto, começou a datá-los de Tentugal a partir de 26 desse mês. Podemos daqui concluir: a viagem de D. Afonso V, do Alentejo à beira-mar, decorreu de 16 a 25 de Agosto.
            Cerca de 2 de Setembro o rei daria um salto a Coimbra e em 25 ao Botão, antes de se fixar na capital do Mondego de 7 a 20 de Outubro.
            O Outono da Beira, sobretudo a quadra posterior às vindimas oferece, após estios cálidos, frescuras amenas e uma tal riqueza e variedade de cambiantes, uma lumionosidade tão doce que decerto deslumbraria o Rei e quedaria para sempre na sua imaginação. Por isso várias vezes o surpreendemos, em peregrinação, por esta província de serranias e vinhedos.
            Sai, pois, el-rei D. Afonso V de Coimbra para a Lousã em 20 de Outubro; em 27 encontra-se em S. Romão; em 31 acolhe-se a Manteigas, para no dia de Todos os Santos assistir na Covilhã, aqui ouvir missa e de certo honrar, com a sua presença, os magustos tradicionais desse dia.
            Ninguém deve aventurar-se, mesmo após a certeza de tal itinerário, a atribuir ao Africano as primícias de uma régia escalada dos Hermínios! Os reis poetas D. Sancho I, D. Dinis e D. Pedro, ainda infante, também calcorriaram as veredas da Serra e pernoitaram nos lugarejos da montanha. O feitiço da serra com seus mistérios, a paisagem dos vastos e infindáveis horizontes atraía a si brutos e poetas, labregos e grandes senhores.
            No dia 4 de Novembro D. Afonso V sobe a Belmonte e aí residirá até 9 ou, possivelmente, até 10 para, em seguida, virar rumo a Penamacor. De 15 ainda restam documentos datados desta vila fronteiriça, misturados já com outros da Guarda. A estadia na Guarda vai de 15 a 20 de Novembro, encaminhando-se depois o Rei para Viseu onde estagiará até ao fim do ano.

           Um dos motivos atraentes desta viagem reside na sua direcção: S. Romão, Manteigas e Covilhã - uma travessia quatrocentista da Serra da Estrela feita pela Corte, com o Rei à frente!
            Acentuo que D. Afonso V permaneceu em Belmonte de 4 a 10 de Novembro. Nesse ano já o castelo era moradia solarenga. Foi ainda Luís Álvares Cabral que se mudou das suas casas patrimoniais, no centro da vila, para o castelo da sua alcaidaria. No castelo de Belmonte devia pois ter pousado El-Rei e aí seria recebido pelo alcaide-mor Fernão Cabral, pai do descobridor do Brasil.
            É de presumir que fosse em memória desta e de outras estadias em Belmonte, que mais tarde, em 1471, D. Afonso V coutasse o Monte dos Crestados, ao depois chamado Serra da Esperança; daí mesmo o dizer em sua carta régia de 6 de Outubro, onde nomeia Monteiro-mor de Crestados a Fernão Cabral. 
            “ por quanto queremos que (este monte) seja guardado para nosso desemfadamento, quando em elle quisermos correr monte ... “ 
            Depois da escalada à Serra da Estrela, D. Afonso V ficou a correr monte nas abas da Serra da Esperança!...
            O escudo real, esculpido na capela gótica de Nª Senhora da Piedade onde, num dos capitéis parece imortalizar-se o sacrifício de Fernão d’ Álvares Cabral, no cerco de Tânger, dando a vida pelo Infante D. Henrique, deixa adivinhar que el-rei D. Afonso V estaria presente à consagração do herói quando regressaram de África as suas nobres ossadas.
            Seria nesta jornada ou na de 1441?
            Do mesmo trabalho de Braamcamp Freire, sobre a chancelaria do Africano, podemos deduzir outra jornada deste rei por terras da Beira através da sua passagem na Covilhã em Julho de 1441.
            A Crónica de Rui de Pina quando noticia as Cortes da Guarda de 1465 referencia outra estadia de D. Afonso V na Beira. Desconhece-se por enquanto o itinerário régio de 1465.
            As brenhas e os descampados da nossa Beira não eram então, somente, alfobre de grandes soldados e de grandes portugueses; mereciam dos Reis que também se deslocavam até cá e prezavam a companhia dos serranos, visitas aprazíveis que enobreciam as terras, apesar dos encargos da aposentadoria, e por isso dignas de figurar nos seus fastos e ser recordadas à nossa memória e aos vindouros. 

 Reflexões de Luiz Fernando de Carvalho Dias 

Nota dos editores – 1) Duarte, Luís Miguel, “Um rei a reinar (algumas questões sobre o desembargo de D. Afonso V na 2ª metade do século XV)”, Fac. Letras do Porto/Centro de História de U.P.