sexta-feira, 15 de abril de 2016

Covilhã - Notícias Soltas III

   Após a nossa publicação de “Frei Heitor Pinto VI”, verificámos que aquando da Exposição Bibliográfico-Documental de 1984, na Covilhã, na Vitrine 1 foram expostas umas fotocópias de parte de “Historia de la Orden de San Geronimo” iniciada por Fr. José de Siguenza e continuada por Fr. Francisco de Los Santos. Segundo Luiz Fernando Carvalho Dias, Frei Francisco de Los Santos foi “cronista hieronimita do século XVII, sucessor do P.e Siguenza ou José Martinez de Espinosa (1544-1607)”. Este foi monge jerónimo, historiador, poeta e teólogo espanhol. “Bibliotecário de Filipe II, sucessor de Benito Arias Montano. Biblista. Preso pela Inquisição, indo para Sisla em 1593. De novo bibliotecário do Escorial, onde teria recolhido os papéis dos Jerónimos portugueses por ordem de Filipe 2º; estes e as memórias pessoais de Siguenza constituíram as fontes de Francisco de Los Santos que confessa não poder tratar dos varões sábios e santos da província portuguesa.
Siguenza seria o arauto da santidade de Pinto, edificante durante o exílio.”

Observemos algumas dessas fotocópias: 

Nesta página 690: "...Quando para a firmeza de esta verdad
 no huuiera tenido aquella Prouincia sino
 al Religiosissimo y Doctissimo Padre Maestro Fray Hector Pinto,
 Hijo del Real Conuent de Belen en la Ciudad de Lisboa..."

Nesta página: "...Viuió con grande edificacion en Toledo
 en nuestro Conuento de la Sisla, y alli muriò exemplarmente..."

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Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:
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sexta-feira, 1 de abril de 2016

Covilhã - Para a História do Bispado da Covilhã II


A nossa publicação procura apresentar documentos do século XVI e XVII a favor do desmembramento da diocese da Guarda e da erecção do bispado da Covilhã.

A diocese da Guarda foi fundada na actual Idanha-a-Velha e a sua sede foi transferida para a Guarda, depois de D. Sancho I fundar a cidade, em 1199.
No século XVI tinha uma área muito extensa e abrangia povoações de vários distritos, como podemos constatar na descrição do Livro das Comendas do Bispado da Guarda e no mapa com que procurámos ilustrar a nossa publicação. Tinha uma área tão grande que em 1549, no reinado de D. João III, Paulo III fundou a diocese de Portalegre.

    Na bula da criação da diocese, Pro Excellenti, explicita-se:
Sucede que a diocese da Guarda é muito extensa e que há nela muitas povoações e lugares afastadíssimos da cidade e da igreja da Guarda, e alguns deles montanhosos e frios e de dificílimo acesso, sobretudo no tempo de inverno, por causa dos muitos rios e porque o Tejo corre através desta diocese; e por isso o Bispo da Guarda não pode visitar, como seria de sua obrigação, toda a sua diocese, nem exercer todos os anos os outros deveres pontificais, nem conhecer pessoalmente, como convém, os seus diocesanos, resultando daí certa confusão na administração eclesiástica e descontentamento e perigo para as almas“. 

Pela mesma bula foram separadas e desmembradas da diocese da Guarda as povoações de Portalegre, Castelo de Vide, Marvão, Alpalhão, Crato, Alegrete, Tolosa, Nisa, Vila-Flor, Póvoa das Meadas, Amieira, Belver, na margem direita do Tejo, Gavião, Montalvão, Alter do Chão, concelho de Margem e Longomel, no Alentejo; e da diocese de Évora a povoação de Arronches e as vilas de Arês e Açumar, com os seus termos, territórios, vilas e lugares, etc.
Na mesma altura pensava-se na erecção de outra diocese, desmembrada da Guarda também, a Covilhã. Diocese grande, bem povoada e de boas rendas." (1)

**********

Algumas povoações do bispado da Guarda: 1) Trinta; 2)Manteigas; 3)Valhelhas; 4)Belmonte; 5)Touro; 6)Marmeleiro; 7)Sortelha;
8)SAbugal; 9)Meimoa; 10)S. Vicente; 11)Janeiro; 12)Penha Garcia; 13)Salvaterra; 14)Segura; 15)Rosmaninhal; 16)Idanha-a-Velha;
 17)Idanha-a-Nova; 18)Lardosa; 19)Alcains; 2o)Castelo Novo; 21)Sarzedas; 22)Proença; 23)Amêndoa; 24)Vila de Rei; 25)V.V. de Ródão; 
26)Constância; 27) Sardoal; 28)Mação; 29)Abrantes; 30)Ponte de Sor 
                                               
Mais tarde, em 1641, nas cortes de Lisboa, os capítulos especiais de Abrantes (2) referem-se às distâncias dentro da diocese da Guarda, embora centrando-se em Abrantes:

[…] 8º e a dita vila de Abrantes com as mais da dita vigararia ficam mais perto das cabeças dos mais Bispados deste Reino que da sua que é o bispado da Guarda porque são 28 leguas a ela de Abrantes, e a Lisboa são de Abrantes vinte e tres, e a Portalegre 12, a Coimbra 14, a Leiria 12, a Elvas 18, a Evora 18; e afora esta notavel distancia que há de Abrantes e terra de sua vigararia à cidade da Guarda, cabeça do dito bispado, se acrescentam os inconvenientes e molestia dos ditos vassalos de Vossa Mag.e com a aspereza dos caminhos e riscos deles, por serem os mais de serras com muitas neves, no Inverno, e perigosas Ribeiras de passar, em que se afoga de ordinario muita gente, e por este respeito padecem os moradores destas vilas, em especial a de Abrantes, grandes danos porquanto lhes é forçado irem seguir à dita cidade da Guarda suas causas e as cazas das Misericordias, grandes gastos com os prezos que livram e sustentam que teem culpas no juizo Eclesiastico, e muita gente pobre, e ainda os que não são, deixam perder muitas vezes suas causas por não poderem ir nem mandar tratá-las à dita cidade da Guarda, nem outros muitos despachos e negocios que de pessoas casadas e de muita idade por crismar.
E tomando-se informação deste caso se quiz prover nele com o remedio necessario. Separando a dita vila de Abrantes e as mais da sua ouvidoria do dito Bispado, ajuntando-as em outro, que para isso de novo se tratou de fazer, em tanto que quando foi eleito o Bispo D. Nuno de Noronha que Deus tem em Bispo da Guarda foi não poria a isso duvida alguma, e esta boa tenção e determinação tanto em prol e bem destes vassalos de V. Mag.e não teve efeito por se ordenar fazer-se com criar novo Bispado com as ditas vilas e algumas do Arcebispado de Lisboa no que se acharam grandes inconvenientes e por razão deles e da dificuldade de fazer nova Sé, para o que havia mister ter grandes rendas e parecer não ser lícito diminuir o Arcebispado de Lisboa não teve efeito, não se advertindo por então tão facil meio como há, para este bem ajuntando sem mais cabedal as ditas vilas da Ouvidoria de Abrantes ao Arcebispado de Lisboa, com a qual parte com a qual (sic) cidade fica ainda com menos leguas de distancia que da Guarda e com facilimo caminho, e por razão do rio, mui facil, e do comercio e trato que de continuo teem os moradores das ditas terras com Lisboa, que outrossim por ser metropole de Abrantes e sua Vigararia se excusam as apelações que da Guarda vem a ela ou lhe ajuntasse a dita vila de Abrantes e terras de sua vigararia ao Bispado de Portalegre com quem tambem parte, que são doze leguas de caminho, e de muito trato e meneio com as ditas vilas, e de grande comercio com ellas, que por ser Bispado de pouca renda ficarão tambem nela mais acrescentado, ficando ainda com muita o Bispado da Guarda…  pelo que
Pedem a V. Mag.e havendo respeito ao sobre dito de cuja verdade notoria podem informar a V. Mag.e os prelados que foram no dito bispado, e aos muitos proveitos espirituais e temporais que os ditos vassalos de V. Mag.e nisto ficam recebendo, lhe faça merçe anexar a dita vila e sua vigararia ao dito Arcebispado de Lisboa ou Bispado de Portalegre. […]

Resposta aos Capítulos particulares dos Procuradores de Cortes da Vila de Abrantes do ano de 641.


Fico advertido do que me dizeis neste capítulo, cuja cópia mandarei remeter ao Estado Eclesiástico para que os Prelados possam comunicar entre si o modo com que se acomodem, e companham estes lugares com menos opressão dos seus moradores; e conforme ao assento que tomarem no que for necessário mandarei ao meu Embaixador de Roma que peça confirmação a S. Santidade. (2)

***********

Documentos para o Bispado da Covilhã - Sec XVI
1545 ?
Bispado da Covilhã





Rendas do Rol do Bispo
Vizinhos
Rendas do bispo



a vila de Covilhã e seu termo
4060
caria -  38320 rs
a vila de pampilhosa
0137

a vila de Castel branco
1417
189415
a vila de sam vicente da beira
0582
  86300
a villa de Castelo novo
0571 (1)

A villa datallaia
0062 (2)
(1+2) -  70616
A villa da ydanha a nova
0267
  93316
A ydanha a Velha
0199
  70454
A vila de Segura
0200
  46938
A vila de Salvaterra
0239
  57848
A vila de Pena Garcia
0042
  11000
A vila de Monsanto
0494
  66000
o Rosmaninhal
0191
  60300
A vila de Penamacor
0864
199009
A vila de Belmonte
0244
  60000
A vila dolleiros
0289 (1)

A vila dalvaro
0215(2)
(1+2) -        nihil
A vila da Bemposta
0039
    4000
A vila de Proença
0219
  51516



soma os lugares 19
soma os Vizºs
sª 1 conto 110933

10331

  
E haverá mais este bispado de Covilhã cento e vinte e sete mil rs.
que o cabido da Guarda tem nos lugares seguintes

127.000


S - 22000 na Pampilhosa

E - 40000 em Oleiros

E - 35000 em Alvaro

E - 30000 em Penamacor, na Quebrada  



E mais haverá por acrescentamento de sua renda 320000 rs.
por estas igrejas que eram da Capela de Santa Catarina

320.000


S. - 140000 que rende a igreja de São Pedro de caria

E. - 160000 que rende a igreja de São Martinho de mouros

E.-    80000 que rende a igreja de santa maria de antas



E por que estas igrejas valem de Renda 380000 rs  sobejam  aqui
além dos 320000 que hão-de ficar para o bispado sessenta mil que serão para os três vigários.
Destas três igrejas - a saber - a 20000 cada um como ora tem.



E juntando os 447000 rs que se acrescentam de renda a este bis-
pado com os 1 conto 110.933 rs que tem de renda pelos lugares do dito bispado segundo atrás fica declarado assim lhe fica de renda ao todo 1 conto 598.000


1 conto 598.000

E mais haverá por acrescentamento de sua renda 320000 rs.
por estas igrejas que eram da Capela de Santa Catarina




S. - 140000 que rende a igreja de São Pedro de caria

E. - 160000 que rende a igreja de São Martinho de mouros

E.-    80000 que rende a igreja de santa maria de antas



E por que estas igrejas valem de Renda 380000 rs  sobejam  aqui
além dos 320000 que hão-de ficar para o bispado sessenta mil que serão para os três vigários.
Destas três igrejas - a saber - a 20000 cada um como ora tem.



E juntando os 447000 rs que se acrescentam de renda a este bis-
pado com os 1 conto 110.933 rs que tem de renda pelos lugares do dito bispado segundo atrás fica declarado assim lhe fica de renda ao todo 1 conto 598.000


1 conto 598.000


(Continua)

Nota dos editores - 1) Para conferir dados populacionais veja: http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2012/03/covilha-os-forais-e-populacao-nos.html
Fontes - 1) Brásio, António, "Quatro Dioceses que não se criaram", Revista Estudos, Revista de Cultura e Formação Católica nº 204, 1942
2) ANTT (?) Maço 8 de Cortes, nº 8.

Publicações sobre a História do Bispado da Covilhã no nosso blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2016/01/covilha-para-historia-do-bispado-da.html

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segunda-feira, 14 de março de 2016

Covilhã - Notícias Soltas II




Prisão de Linhares, onde Rui Faleiro esteve preso.
"...Ruy Falero fué al dicho reino de Portugal, a la villa de Cubillan, donde estaba la dicha su mujer, a la buscar, 
e antes que llegase, fué preso por mandado del señor Rey de Portugal e llevado a la cárcel de la dicha villa de Cubillan,
 donde estuvo preso seis meses, e después fué pasado a Linares, qués a cuatro léguas de alli, e estuvo preso otros cuatro meses..."
Fotografia de Nuno Carvalho Dias


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terça-feira, 1 de março de 2016

Covilhã - Frei Heitor Pinto VI

O nosso blogue vive do espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias, que continuamos a explorar e divulgar. Sempre soubemos o interesse do investigador por Frei Heitor Pinto, que deu origem em 1952 à publicação de "Fr. Heitor Pinto (Novas Achegas para a sua Biografia)", a 1ª da sua vasta obra. 

  Aquando das comemorações do IV centenário da morte do frade jerónimo que se realizaram na Covilhã a 2 de Dezembro de 1984, empenhou-se totalmente para que a figura de Frei Heitor fosse mais divulgada.
A propósito de monografias covilhanenses, Luiz Fernando Carvalho Dias lembrou Frei Heitor Pinto:
“Não ainda em monografia, mas como simples descrição, registo a primeira imagem da Covilhã em forma literária. Cabe ao nosso Frei Heitor Pinto, o escritor português mais divulgado e com mais edições no século XVI. Trata-se de uma imagem enternecida, como que uma saudade de peregrino a adivinhar exílios, muito embora a abundância dos adjectivos desmereça da evocação:

 “ … Inexpugnável por fortes e altos muros, situada num lugar alto e desabafado e de singular vista, entre duas frescas e perenais ribeiras, com a infinidade de frias e excelentes fontes e cercada de deleitosos e frutíferos arvoredos.  “ (1)

 Estamos a publicar informações sobre Frei Heitor Pinto. Baseamo-nos em reflexões do investigador, em fotografias e textos da Exposição de 1984 e na obra sobre Frei Heitor Pinto.
    Acompanhemos a obra “Fr. Heitor Pinto (Novas achegas para a sua biografia)” de Luiz Fernando Carvalho Dias:

[...]

Fr. Heitor Pinto e a Universidade de Salamanca (1)

Universidade de Salamanca

Fr. Heitor Pinto chegou a Salamanca na Quaresma de 1568.
Não lhe era estranha a velha Cidade Universitária onde acudiu a imprimir os Comentários a Ezequiel.
Pregador eloquente e apostólico como elucida o Sermão (2) integrado na Imagem da Vida Cristã, único da sua autoria até hoje conhecido, e regista a tradição, na «Memoria» arquivada por António Joaquim Moreira (3), conquistou depressa os auditórios salamantinos.
Humanista, criara fama de bom latino, e dominava o grego e o hebraico que utilizava na interpretação das Escrituras. A língua italiana também lhe não era des­conhecida.
Por isso, um grupo de estudantes, levando à frente o português P.e Afonso Peres (4), pediu à Universidade, um partido com salário, na Faculdade de Teologia, para um novo curso de exegese que, retendo-o em Sala­manca, lhe abrisse mais tarde o caminho da cátedra.
A este propósito não foram alheios os jerónimos salmantinos e dominicano Fr. Maneio de Corpus Christi (5), do corpo docente universitário.
Os portugueses, catedráticos, mestres e estudantes, todos unidos, trataram de preparar ambiente favorável a Fr. Heitor Pinto que viria, em boa hora, reforçar o grupo nacional, meses antes afrontado pela prisão do mestre de Medicina, Ambrósio Nunes (6).
O Reitor (7) D. João de Almeida, certamente portu­guês como deixa antever o seu nome, patrocinava a candidatura do hieronimita.
Foi neste clima que abriu o Claustro de Deputados de 17 de Maio de 1568.
Dos artigos da ordem do dia constava a leitura e resposta à petição dos estudantes, sobre o partido de Fr. Heitor, cujo teor não deferia de quantos, para idêntico fim, subiam à Cúria Universitária.
Nela se acentua a conveniência de uma nova lição de Escritura, além da ordinária, em virtude da abundância de cátedras de Escolástica; sugere-se um convite a Frei Heitor Pinto, exegeta eminente, autor de comen­tários sobre os profetas Esaías (8) e Ezequiel, e doutras mais obras, sermões e lições do profeta Malaquias que proferia nas escolas. Tudo abonava a excelência da doutrina e conhecimento profundo de línguas, artes e letras humanas, e às suas aulas, dizia-se, concorriam muitos estudantes de Teologia (ouvintes ordinários de Bíblia) e graduados desta e de outras faculdades.

Reprodução do manuscrito da Biblioteca do Escurial
             com a tradução espanhola da "Imagem da Vida Cristã"
         dedicado à Princesa D. Joana, mãe de D. Sebastião, por um seu criado.
Coimbra 1565 

Reprodução do manuscrito da Biblioteca do Escurial
             com a tradução espanhola da "Imagem da Vida Cristã"
         dedicado à Princesa D. Joana, mãe de D. Sebastião, por um seu criado.
Coimbra 1565 

Ora tantos títulos autorizam-nos a prever como o azeite do ciúme alastraria pelo colégio dos mestres consagrados.
Não registou o livro de claustros os subscritores da petição; mas se o original um dia aparecer pode revelar-nos o ambiente português de Salamanca, dessa época.
O Reitor e o Mestre Escola decidem-se logo pelo deferimento do salário, contudo este subordinou o seu voto à permanência de Fr. Heitor Pinto, durante, pelo menos, 3 anos em Salamanca.
Mas o decano da Faculdade de Teologia, o velho mestre Francisco Sancho, já jubilado, regente duma cadeira de Teologia, na Catedral, opôs outra condição ao desejo dos estudantes; exigiu de Pinto, em homenagem aos votantes, provas de Teologia escolástica, a con­tento dos mestres teólogos.
Seguiram este voto Fr. Gaspar de Torres, Diogo Rodrigues, ambos teólogos, e o deputado Martim de Busto.
O jurista português Miguel da Costa, favorável a Fr. Heitor exalta a sua competência, afirmada não só em sermões mas em livros, impressos na Universidade e com ele, vota o catedrático de leis, Heitor Rodrigues (9), (provávelmente ainda parente de Frei Heitor Pinto, a admitir-se a hipótese do tratado dos Figueiredos) que tanto exasperou, nesta contenda, a Frei Luís de Leon e aos mestres de Teologia (10).
No final, a destrinça dos votos revelou alinharem oito de cada lado; o Reitor sem usar do voto de quali­dade, considerou o assunto grave e de justiça e reme­teu-o a claustro pleno.
Este reuniu a 20 de Maio, para decidir se a Univer­sidade devia mandar cumprimentar o presidente do Conselho Real, seu antigo aluno, de passagem por Sala­manca, e para concluir o negócio de Fr. Heitor Pinto.
Não deixaria de ter ecoado aos ouvidos do presi­dente o rumor de uma questão como esta que apaixonava já o meio universitário. É de presumir que a sua esta­dia, em Salamanca, influenciasse a intervenção dos estudantes junto do Rei e provocasse a provisão de Filipe II, a favor do hieronimita português, cujo texto se publica adiante.
Redobra no claustro o calor da discussão.
Se o Reitor e o mestre escola se mantêm fiéis, os contendores do outro lado fecham-se numa oposição mais tenaz, como esclarece o parecer de Frei Gaspar de Torres (em vésperas de jubileu), reflexo do sentir de toda a faculdade, à excepção de Frei Mancio, que pru­dentemente não aparece nos claustros, para não desfei­tear os colegas nem ofender os jerónimos.
Eis os tópicos da argumentação de Torres: O par­tido não foi pedido pelo próprio; o forte das assinatu­ras era de canonistas e os poucos teólogos que firmaram a petição só desejaram comprazer com os portugueses que agenciaram o partido; a concessão de salários admi­tia sempre oposições, com voto de teólogos; a abundância de ouvintes nas lições de português, demons­trava cabalmente não serem todos de Teologia, evidente razão para deduzir que ele prega mais do que interpreta escritura, como convém ao ensino de artistas e teólo­gos; o ano lectivo ia no fim, convindo por isso protelar o assunto até a Universidade se certificar mais da com­petência de Fr. Heitor Pinto, por serem ainda poucas as lições proferidas e todas de matéria à sua escolha; só a cidadela da teologia escolástica garantia, na inter­pretação da Escritura, a pureza da fé perante os erros da heresia alemã, e daí urgir couraçar os candidatos com provas mais rudes nessa disciplina, exigindo-lhes que presidissem aos actos e sustentassem conclusões.
Torres não se detém.
Invoca ainda a falta de hora para a nova leitura e a suficiência das duas cátedras de Bíblia já existentes, aliás providas em pessoas competentíssimas.
Agarra-se depois a um argumento jurídico: o assunto ficara cancelado, por resolução do claustro de deputados, onde não alcançou a maioria prevista para os negócios ordinários nem as três quartas partes para os graves, nem ainda as duas para transitar a claustro pleno. Mas como se toda esta argumentação lhe soasse a ôco, ter­mina por insurgir-se contra a circunstância dos votan­tes de Pinto se seleccionarem em mestres alheios à faculdade de teologia, quando o assunto interessava particularmente a esta.
Encerrou-se o claustro antes de tomada qualquer decisão, tal o fogo que abrasava a serenidade dos lentes.
A argumentação de Frei Gaspar de Torres peca pelo tom acrimonioso que de princípio ao fim a escurece; não é crível, com as cátedras providas por votos de estudantes, andar a consciência destes tanto à mercê do favor, sem que o nível universitário se ressentisse, premissa que não concede o frade.
Se as assinaturas careciam de legitimidade para escudar a petição do salário, como admitir que seja o próprio Frei Heitor Pinto a insistir adiante pela rectifi­cação delas?
Acentuamos que Frei Gaspar admite os artistas como legítimos ouvintes de teologia positiva: ora isto justifica a sua abundância.
Que tudo se resolvera em claustro de deputados, contradi-lo a Universidade, não utilizando este argumento, que se fosse verdadeiro era definitivo, ao res­ponder, mais tarde, à provisão do Rei.
Do longo arrazoado de Torres quedavam dois artigos; a competência e segura doutrina de Grajal, que sucumbiu ao rigor do cárcere, anos depois, no Tribunal da Fé (11), gafado de heresia e substituía o Bispo Gallo, na cátedra de Bíblia; e a constante invocação, nas entrelinhas, da nacionalidade portuguesa de Pinto, fir­mado nos votos dos seus compatriotas, contra o natural interesse do colégio de não prejudicar, com nova can­didatura, qualquer filho da Universidade, aspirante ao magistério, como adiante se há-de ver.
Era supérfluo, pois, argumentar com a carência de demonstrações escolásticas de Heitor Pinto quando os fundamentos da oposição ao seu nome se mediam por outra bitola.
Não recebera Frei Heitor, de seu mestre Martim de Ledesma, em Coimbra, a teologia Salmantina de Vitória? (12).
Frei Luís de Leon, tão duro oposocionista, sem invocar Grajal, não se mostrava tão perfeito escolástico que não acabasse por se enredar nas malhas da Inqui­sição, ao pretender provar a ortodoxia de certas propo­sições teológicas!...
O método usado pelo P.e Pinto, na interpretação bíblica, conquanto não descurasse a análise do texto hebreu e a larga contribuição dos Erasmistas, era mais respeitador da Vulgata e por isso mais dentro da tradi­ção católica, do que esse dos hebraistas Salamantinos. Basta recordar que se iniciou no campo da exegese com os comentários a Izaias, cujo prefácio reflecte claramente essa orientação:
«Sequor communem versionem ab ecclesia approbatam, et in fine uniuscuiusque capitis adiicio ex hebraeo nonnulas anotationes» (13). Acresce ainda que a primeira edição desta obra saiu, nos prelos de Lyon, censurada por dois biblistas parisienses (14).
Ora a França, com a Sorbonne à frente, marcou sempre como reduto do escolasticismo e do antieras­mismo ao contrário da Espanha, onde desde a época de Cisneros, a interpretação bíblica, através das línguas, teve cultores apaixonados.
Dentro da mesma orientação os Comentários a Izaias traziam nas aprovações a chancela de Lainez (15) e, com ela, da insigne Companhia de Jesus, martelo da Reforma e guarda avançada da ortodoxia Romana, desde S.to Inácio implacável com Erasmo e seus discípulos.
Por outro lado, carreou Fr. Heitor a oposição do ortodoxo Leão de Castro, que havia de representar, anos volvidos, papel tão antipático na desgraça dos hebraistas Salmantinos Fr. Luis Leon, Grajal e Cantalapiedra (16), e alinhava agora com eles, na primeira linha contra o hieronimita português; esta atitude de Castro afasta da contenda qualquer fundamento de carácter doutrinário, para quedar só um castelhanismo endure­cido, afervorado pelo sangue semita, a abrir novas e mais fundas barreiras no espírito universitário de Salamanca.
Assim fenesse o mito de ser a escolástica a inibir Fr. Pinto de prelecciooar nos Gerais!...
Parece resistir-se antes ao preceptorado dos portugueses, na cidade do Tormes.
Vinha de longe essa oposição: basta recordar a luta de Vitória com Margalho, em 1526, e a queixa do dominicano, perante a barreira cerrada dos lusitanos dentro do claustro:

«Lusitani omnes consentiunt in unum conside­rantes quod oppositor est conterraneus» (17).

Notas
1. Arquivo da Universidade de Salamanca - Docs. publicados adiante.
2. Fr. Heitor Pinto - Imagem da Vida Christã, Ed. Rollan­diana - Lisboa, 1843. Tomo I, fls. 436 e segs.
3. «Miscelanea Curiosa de Sucessos varios», cf. por Antonio Joaquim Moreira, no vol. 1º, pags. 611 de «Listas dos Sentenciados ou julgados pelo Santo Oficio» ms. Sec. de Res. da B.N. de Lisboa.
4. Quem recolheu as assinaturas da petição foi um clérigo e não do mendigo, como se verifica dos originais de Salamanca. A versão do mendigo. que o Dr. Joaquim de Carvalho recebeu dos autores espanhóis provém dum erro de leitura da palavra c ligo, da parte do primeiro que manuseou os documentos salmantinos.
5. Enrique Esparabé y Arteaga - Historia pragmática y interna de la Universidad de Salamanca, 1914-1917: Fr. Maneio foi lente de prima de Teologia de 1564 a 1576; Fr. Juan de Guevara lente da ves­pera, de 1565 a 1600; Gregorio Gallo, lente de Bíblia, de  1540 a 1579, mas quando foi eleito Bispo de Segóvia, a sua catedra foi ocupada por Gaspar de Grajal; Christobal de Vela, lente de Scoto, de 1565 a 1573; Diogo Rodriguez Lenncina, mestre de S. Tomaz, de 1567 a 1591; Fr. Luis de Leon , lente de Teologia nominal, de 1565 a 1573; Fr. João Gallo, teve um partido de Teologia, de I565 a 1572.
6.  Id. Ambrosio Nunes, foi catedrático de Vespera, de 1563 a 1611.
7. Id., D. João de Almeida, sucedeu na Reitoria a Diogo Lopez de Zúñiga, filho dos Duques de Bejar; governou em 1568; seguiu-se­-lhe, em 1569, D. Sancho Dávila.
8. Parece concluir-se dos documentos dc Salamanca, a existência duma edição dos Comentários a Izaias, impressa nesta cidade, antes de 1569 - edição desconhecida até hoje.
9. Heitor Rodrigues, foi lente de prima de Leis, em Salamanca, (1563-1579), sucedendo na cátedra a outro português. o Dr. Aires de Pinhel. - Dele escreveu Arteaga na obra, cf. Tom. 2. fls 389:
«Rodriguez (Heitor) - Natural de Lisboa, Doctor en Leys por la Universidad de Coimbra desde 1540. Habia sido ya catedratico de Leys en Coimbra cuando vino a Salamanca a opositar la catedra de Prima de Leys, vacante por muerte del Dr. Pinel. Fué nombrado catedratico de Prima el 23 de Febrero de 1563. Poco después , el 29 de Marzo y e el 7 de Abril del mismo ano de 1563, practicó los jura­mentos para recibir el grado de licenciado y hacer la incorporación del Doctor. Murió durante las vacacíones del curso de 1578-79, y su cate­dra se annunció como vacante el 19 de Octubre de 1579.
10. Coll. de Doc. Ined. para la Historia de España- Vol. XI.
11. P.e Miguel de la Pinta Lhorente - Processos inquisitoriales contra los catedraticos hebraistas de Salamanca. Gaspar de Grajal - ­Madrid - El Escurial – 1935.
12. Marcial Solana - Historia de la Filosofia Española - Epoca del Renacimiento (Siglo XVI). Tom. 3.º, fls 87.
13. Fr. Heitor Pinto - In Esaiam Prophetam Com.ª Ded.ª ao Card. D. Henrique.
14. Id. in Ed. Lugduni – I561.
15. Id.
16. Marcel Bataillon - Erasmo y España – Mexico - Ed. E. F. E. - Vol. 2.º, pag. 359. Referindo-se a Leão de Castro diz: «Este humanista , que sabia griego pero no hebreo , defendia intrépidamente la versiòn de los Setenta y la Vulgata contra Gaspar de Grajal , cate­drático de Bíblia, Martim Martínez de Cantalapiedra, catcdrático de hebreo, y Luis dc León, catedrático de teoologia y humanista trilingüe . Estos en varias ocasiones, habian sostenido que se podian aducir nuevas interpretaciones de la Escritura, que no iban contra las inter­pretaciones antiguas de los santos, si no que las completaban. Recur­rian al texto hebreo, como la fuente mas pura. Pero varios dellos eran de origen judio. Nada más tentador que acusarlos de parciali­dad judaica. Era fácil, sobre todo, oponerles el espiritu del Concilio Tridentino, la obligación de dejar intacta la autoridad de la Vulgata y de la tradición católica».
Pinta Lhorente. O. S. A. - Processo criminal contra el hebraista salamantino Martin Martinez de Cantalpiedra. Madrid. C. S. I.C.
17. P. Vicente Beltrán de Heredia - Francisco de Vitoria. Ed. Labor - 1932, fls. 36.


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