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quinta-feira, 29 de março de 2012

Covilhã - Invasões IX

Hoje publicamos um pequenino texto que não está datado, mas sabemos ter sido escrito em 1704, já que o Coronel Richards visitou Penamacor, Fundão e Covilhã no Outono daquele ano, durante a Guerra da Sucessão de Espanha. Esta é uma das várias guerras que se desenrolaram na zona fronteiriça e por isso em terrenos próximos do nosso palco – a Covilhã. Este confronto começa depois da morte (1700) de Carlos II de Espanha que não tinha  descendentes. Forma-se a Grande Aliança, entre a  Inglaterra, Províncias Unidas e Império, mais tarde também Portugal, que pretende impor o Arquiduque Carlos, Carlos III, como rei de Espanha. Esta posição não é aceite pela Espanha, França e inicialmente também Portugal, que querem Filipe (Duque de Anjou), neto de Luís XIV, como Filipe V.

O Coronel Richards é certamente um dos muitos militares ingleses que se encontram nesta zona e o Marquês, referido na carta, será o Marquês das Minas, António Luís de Sousa, nomeado governador das Armas da Beira em 1703. O ano de 1704 foi muito importante, porque nesse ano Filipe V acompanhou o exército franco-espanhol, entrou por Salvaterra do Extremo ocupando toda esta região passando por Segura, Penha Garcia, Idanha-a-Nova, Monsanto e Castelo Branco. Alguns destes recontros foram violentos e seguidos de saque.
Panorâmica raiana
Fotografia de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias

       O exército inimigo seguiu a caminho do Alentejo, onde várias povoações como Nisa e Portalegre se renderam. Contudo as vitórias de Filipe V estavam a chegar ao fim, pois os exércitos da Grande Aliança encontravam-se agora preparados para reconquistar as terras beiroas e pôr o inimigo em debandada. O  mês de Junho é decisivo para a retoma destas povoações, tendo sido Monsanto a aldeia que demorou mais tempo a ser reconquistada.

A povoação de Monsanto
Fotografia de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias
D. Pedro II e Carlos III vieram em festa até à Guarda, onde chegaram a 30 de Agosto, mas só se juntaram ao exército para o fim de Setembro.
     Esta guerra vai prosseguir, tendo 1706 sido o ano glorioso, pois o Marquês das Minas chegou a entrar em Madrid, onde Carlos III foi, por algum tempo, solenemente aclamado rei.
A Guerra da Sucessão de Espanha só termina  em 1713 e 1715, quando D. João V - o rei que sucedeu a D. Pedro II - assina o tratado de Utrecht, primeiro com a França e depois com a Espanha. Estes acordos puseram um ponto final ao poderio espanhol, selaram a França como senhora do continente europeu e a Inglaterra como senhora dos mares. A paz, para Portugal, significou o reatar de relações diplomáticas com os vários países e outras claúsulas, como a restituição de praças conquistadas, quer na Europa, quer na América, a norte e a sul do Brasil.

Imagens do original, correspondente ao Fundão e à Covilhã,
da carta do Coronel John Richards

Carta do Coronel John Richards. Diário da Campanha em Portugal, em 1704

Quarta e Quinta-Feira, 22 e 23 de Outubro, fiquei em Penamacor para me preparar para a minha viagem para Lisboa.
Sexta-feira, 24 de Outubro, tendo-me despedido do marquês (das Minas??) que foi esta manhã a Monsanto para visitar esse lugar com os engenheiros, suponho que para o fortificar, eu parti também saiu um dia de chuva muito excessiva (sic), de tal forma que tivemos grande trabalho em passar os pequenos rios que poucos dias antes estavam inteiramente secos. Era tarde quando cheguei ao Fundão tendo assim muita sorte por não ter ficado na rua. Fiquei aquartelado em casa do Dr. Francisco Chaves, um cristão-novo que se queixou muito do mal que era feito aos filhos de Israel, estando agora a realizar-se um auto de fé em Lisboa. É quase inacreditável ver a obstinação e a malícia desta gente, pois apesar da horrível perseguição que têm sofrido há quase 200 anos e de em público parecerem em palavras e obras ser cristãos e dos mais zelosos, todavia nunca se converterem, pois juntamente com os princípios da Religião cristã também absorvem eficazmente os da Lei mosaica, de forma que apenas o seu exterior é católico enquanto na realidade são judeus, ou melhor demónios, pois nem a Lei de Moisés nem qualquer outra até hoje professada pelo Homem pode sofrer tanta infame hipocrisia, muito menos a Igreja Católica os horríveis sacrilégios que esta gente comete, e por isso quando são descobertos e condenados por judaísmo, se eles abjuram pela primeira vez são perdoados, mas a segunda, se impenitentes são queimados vivos, se arrependidos são estrangulados primeiro e depois queimados. (1)
Sábado 25 de Outubro, continuando a chover todo este dia os almocreves julgaram impraticável prosseguir a nossa viagem e, por isso, ficámos quedos. Esta e a Covilhã são tidas como as melhores vilas da Beira, pois não só a região é muito rica e abundante mas elas também têm várias manufacturas e tentaram imitar o nosso pano inglês e, é possível que o tivessem conseguido, se os judeus, que eram os grandes promotores, não tivessem sido tomados pela Inquisição, e assim foram obrigados a desistir, apesar de terem levado vários dos nossos tecelões ingleses a vir para cá. (2)

     Carta encontrada no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias

    Notas dos editores – 1) As vilas referidas pelo Coronel Richards e outras fronteiriças, viveram intensamente o choque cristianismo/judaísmo, nem sempre se compreendendo ou respeitando. Através da nossa investigação vamos percebendo que os Judeus viveram uma situação de perseguição constante por parte do Tribunal do Santo Ofício e por isso uma vida religiosa dúbia, o que levou Richards a chamar-lhes, indevidamente, hipócritas e demónios. Sabemos que o mês de Outubro de 1704 foi muito pesado quanto a autos-de-fé realizados em Lisboa, na praça do Rossio: penitenciados 59 homens e 34 mulheres; relaxados em carne 1 homem e em estátua 3 homens e 2 mulheres. Enumeramos a seguir os da região da Covilhã que já publicámos nas Listas deste blogue e que saíram em auto público de 19/10/1704:
Simão Nunes Rios, x.n.,de 33 anos, homem de negócio, filho de André Nunes, rendeiro, natural e morador na Covilhã. (444)
Francisco Henriques Ferreira, x.n., de 55 anos, tintureiro, natural e morador na Covilhã.(445)
António Gomes Cáceres, x.n., de 61 anos, tratante, natural e morador na Covilhã.(446)
Pedro Rodrigues Henriques, x.n., tratante, de 32 anos, natural de S. Vicente da Beira, morador na Covilhã.(447)
Pedro Lopes Henriques, x.n., clérigo in minoribus, de 26 anos, filho de Simão Lopes Samude, médico, natural e morador na cidade de Lisboa, cárcere e hábito perpétuo. (449)
          António Gomes Cáceres, x.n., de 22 anos, solteiro, filho de António Gomes de Cáceres, tratante, que vai na lista, natural e morador na Covilhã. (452)
          João Mendes da Cunha, x.n., de 36 anos, tratante, natural do Fundão, morador em Lisboa. (453)
Pedro Lopes Henriques, x.n., de 35 anos, de alcunha Arroja, solteiro, mercador, natural do Fundão, morador em Lisboa. (454)
          D. Hierónima Henriques de Chaves, x.n., natural do Fundão, moradora em Lisboa, casada com Gaspar Lopes Henriques, médico.(455)
          Domingas Henriques, x.n., de 70 anos, natural e moradora na Covilhã, viúva de Simão Fernandes Lousada, mercador. (456)
Maria Henriques, x.n., de 28 anos, natural da Covilhã, moradora em Lisboa, viúva de Paulo Mendes, ourives de ouro. (457)
Maria Henriques, x.n., de 20 anos, natural da Covilhã, moradora em S. Vicente da Beira, casada com Duarte Rodrigues da Costa, tratante de panos. (458)
          Leonor Rodrigues, x.n., de 51 anos, natural da Guarda e moradora na Covilhã, viúva de Manuel Dias Monsanto.(459)
          Diogo Rodrigues Lopes, x.n., de 40 anos, requerente de causas, natural da Covilhã, morador em Lisboa, filho de Jorge Rodrigues, mercador e de Isabel Lopes, viúvo de Violante Rodrigues.(460)
          Branca Rodrigues, x.n., de 26 anos, solteira, natural e morador em Lisboa, filha de Diogo Rodrigues Lopes, mercador, natural da Covilhã  e de Violante Rodrigues, neta paterna de Jorge Rodrigues, mercador e de Isabel Lopes. (461)
          Álvaro Mendes, x.n., de 26 anos, solteiro, natural de Monsanto, morador em Setúbal, filho de Manuel Mendes, natural do Fundão  e de Isabel Rodrigues, natural de Monsanto. (448)
2) A Covilhã e o Fundão tinham tradição manufactureira, muito relacionada com as Ribeiras e com a pastorícia. O rei D. Pedro II, no século XVII, estimulou esta produção, embora em 1703 tenha sido assinado com a Inglaterra o Tratado de Metween. Os Judeus contribuiram para este desenvolvimento, porque além de mercadores, também eram produtores (industriais).

Fontes - Nota deixada pelo investigador: Cartas do Coronel John Richards
Diários e cartas etc do Coronel John Richards (1704 - 1710).  British Museum, Col. Stowe 466/7 e 8. Vid. Tb. 470, 472, 474, 475 e 481 - A colecção dos Richards vai de 447 a 481, sendo a da Covilhã 467.
"História de Portugal”, direcção de Damião Peres, Volume VI, Portucalense Editora L.da, Barcelos, 1934.
Mendonça, José Lourenço D. de e Moreira, António Joaquim, "História da Inquisição em Portugal", Círculo de Leitores, 1980


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Covilhã - Invasões VIII

A Guerra da Restauração na Beira (1641)

Portugal esteve sob o domínio filipino (espanhol /castelhano) durante sessenta anos. Em 1 de Dezembro de 1640 dá-se uma revolta – uma conspiração – da qual resultou a queda de Filipe III e a aclamação de D. João, Duque de Bragança, como D. João IV.
     Uma das primeiras medidas régias foi a reorganização das forças militares, pois se sabia que o governo espanhol viria invadir Portugal para defender o trono filipino. Também foi criado o Conselho de Guerra, a Junta das Fronteiras e os Governadores de Armas. Para a Beira foi escolhido D. Álvaro de Abranches, com o título de capitão-general e residência em Pinhel. Foi precisamente uma “Relação” do que se passou em 1641 na Beira Alta raiana que encontrámos no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias. A Guerra da Restauração começou nesta altura, mas a Paz só é assinada em 1668. O documento não refere a Covilhã, mas várias terras da zona e até próximas. Ao lermos as fotografias da “Relaçam do que svcedeo na Prouincia da Beira, depois que chegou Dom Aluaro de Abranches por Capitão General della…”, ficamos convencidos de que na Beira só houve uma guerra de escaramuças, uma guerra do gato e do rato. Apresentamos também um mapa de Portugal (parte), onde indicámos povoações referidas na Relação.



 A descrição (a Relação) vai de 5 de Fevereiro a 30 de Setembro de 1641. Vamos evidenciar alguns aspectos do documento:
1 – Os portugueses são sempre valorizados em relação aos castelhanos.
2 – A prioridade era restaurar ou construir muralhas.
3 - É evidente a preocupação, em Junho, com a colheita de trigo e, portanto, a necessidade de proteger as pessoas que desempenhavam essa função.
4 – Esta guerra resumia-se a movimentos militares na raia e, por isso, por vezes a choques entre populares, quer de tipo religioso, quer a destruição de açudes ou de barcos carregados de trigo.
5 – Uma proposta, em nome do rei D. João IV, para que moradores castelhanos (da raia, claro) “se quisessem passar à sua obediência lhe tiraria os tributos, que pagauão aos Reys de Castella, & lhe daria todo o fauor, & ajuda necessário…”


    Neste mapa indicamos Coimbra, onde Álvaro de Abranches chegou a 5 de Fevereiro e muitas outras povoações fronteiriças referidas: Almeida, Pinhel, Sabugal, Sortelha, Alfaiates, Castelo Mendo, Castelo Rodrigo, Freixo-de-Espada-à-Cinta, Guarda. Em Espanha localizamos Ciudad Rodrigo. 



terça-feira, 4 de outubro de 2011

Covilhã - Invasões VII

Termina hoje a apresentação de testemunhas neste auto de devassa, para que sejam castigados os moradores da Covilhã que se passaram para o lado estrangeiro na invasão franco-espanhola de 1762.

Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras, Marquês de Pombal
*

*      *

«TRESLADO DAS TESTEMUNHAS QUE FALTAVAM PREGUNTAR NA DEVASSA DA INCONFIDENCIA POR IR O TRESLADO PRIMEIRO ATÉ AO NUMERO 19 (sic), SENDO A ULTIMA QUE NELE ASSINOU JOÃO LOPEZ DE MORAES E AGORA NESTE VÃO AS ONZE QUE FALTAVÃO PARA O NUMERO DA LEI, E TAMBÉM VÃO AS REFERIDAS QUE FAL­TAVÃO PARA PREGUNTAR NO PRIMEIRO TRESLADO, EXCEPTO UMA, QUE SE ABSENTOU LOGO NO PRINCIPIO DA DEVASSA E SE NÃO SABE PARTE CERTA DONDE ASSISTE, COMO NO FIM SE DECLARA».
Assentada = 9 de Agosto de 1763. Em casa de Doutor Constantino Barreto de Sousa, juiz de fora e orfãos na Covilhã - Escrivão o mesmo.
1.º Luis de Macedo Castelo Branco, alferes-mór da vila da Covilhã e dos principais dela, natural e morador na Covilhã, de 38 anos.

O Pacheco foi preso para Castelo Branco. Diz que o Barroca serviu constrangido.

2.º O Capitão-Mór João Soares Henriques de Novais, natural e morador na Covilhã, de 36 anos.
Filipe Pacheco de Aragão Cabral era o nome do alcaide intruso. Ventura Jose Rato era filho natural do Pacheco. O Boaventura e o Barroca serviram constrangidos, assim como os porteiros. Mas o Barroca quando chegou à serra disse que o Governo era bom mas depressa acabou.
3.º O Doutor Filipe de Macedo Castelo Branco, natural e morador na Covilhã, de 44 anos.
 O Pacheco constrangeu os outros. Ventura José Rato era filho natural de Pacheco.
A testemunha é casado com uma sobrinha direita do Pacheco.

4.º Capitão Custódio Rodrigues da Cruz, natural e morador na Covilhã, de 70 anos. Estava doente quando do assalto dos inimigos. Foi chamado pelo Pacheco para ir à presença do Marquez Comandante das tropas inimigas, com três soldados espanhois granadeiros. Disse que não podia ir por doente mas disse-lhe o Pacheco que mandasse a seu filho. Este foi ao Convento de S. Francisco «a tempo que já se achava assinada uma escritura de consignação de grande quantia de dinheiro depois do que entrou o dito governador a fazer grandes violências aos moradores desta terra com embar­gos de pão e remessa de panos da ribeira e casas particulares, para o Convento de S. Francisco desta vila». O Pacheco «mandou à cidade da Guarda pedir tropas para conservação da sujeição de El Rei de Castela, por parte do qual disse o dito governador a ele testemunha, que Portugal requiescat in pace, a que responderam os soldados espanhois – Amen».
5.º O Dr. António Mendes Bordalo, advogado nos auditórios desta vila, dela natural e morador, de 52 anos.
Pensa que o Barroca aceitou o lugar com violência. 

     6.º João Baptista Cardoso Teixeira, escrivão da Câmara, de 63 anos.
O governador «expôs ao comandante das ditas tropas aonde se achavam panos, prata e tudo o mais que os moradores desta vila ocultaram e lhe foi tirado por violência tudo quanto soube o dito governador; este mandou ditar vários bandos pelos porteiros Francisco Rodrigues Salgado e André Malaca com pena de morte, para que levassem tudo ao sítio de S. Francisco, aonde também chegou António Fernandes Rato com alguns panos seus e de várias pessoas, por cuja causa tomou por testemunhas daquele incidente a ele tes­temunha e ao guardião de S. Francisco e ao presidente». 

7.º José Homem de Brito Castelo Branco, natural e morador na Covilhã, de 53 anos.

Assentada = 11 de Agosto de 1763 os mesmos.

8.º José Pereira Coutinho Forjaz - natural e morador na Covilhã, de 63 anos.

Assentada = 10 de Setembro de 1763

9.º  Dr. António Mendes Seixas, advogado nos auditórios da Covilhã, natural e morador na Covilhã, de 50 anos.
Saiu com sua familia, em 20 de Agosto, para o lugar de Boa Aldeia, 2 léguas de Viseu, já com receio das tropas inimigas e aí esteve até ao 1º de Novembro e regressou a 3 de Novembro;
«e que pelos ditos pregões se lhe entregaram quantidade deles (panos) sendo também um dele testemunha que se achava na Ribeira e parte de outros que se lhe cortou em o tear».
10.º  Manuel de Morais Leitão, oficial de ferrador, natural da vila de Manteigas, morador na Covilhã, de 60 anos.
«Ouvira dizer publicamente que António Fernandes Rato blasfemava por não haver defesa pelos nossos soldados à invasão do inimigo, queixando-se, por este modo, da má administração da justiça do Governo, por cuja causa fazia grande sociedade com os soldados inimigos».
11.º  Dezidério Caetano Coelho, boticário, natural e morador na Covilhã, de 24 anos.
Assentada = 13 de Setembro de 1763
12.º Manuel da Silva, pomareiro no Pomar da Misericórdia, arrabalde desta vila, de 50 anos.
13.º Maria Teresa, solteira, filha de Manuel Rodrigues Padez, oficial de tecelão, natural e morador na Covilhã, de 30 anos. Deu aos soldados pão, queijo, pimentões e vinho e encheu-lhes as botelhas de vinho o que lhe quiz satisfazer com dinheiro João Salvador, mas ela não quiz aceitar.
14.º Luísa Rodrigues, viúva de João da Cunha, quinteiro na quinta derrubada, arrabalde desta vila. No dia de S. Bartolomeu, pela manhã, foram lá ter Ventura José, com João d'Oliveira desta vila e 5 soldados franceses; perguntando-lhe o dito Ventura por 40 alqueires de trigo, disse que os tinha dado de pensão ao seu amo Dr. Filipe de Macedo Castelo Branco. João d'Oliveira pediu-lhe conta da junta de bois e do gado, mandado retirar para a serra; abriram portas e arcazes. Respondeu ela «que os sobreditos bois tinham levado uma carrada de panos a Vila Velha que eram para as tropas de S. M. Fidelíssima».
Assentada = 30 de Setembro
15.º João Bernardo da Cruz, vive de sua fazenda e agência, natural e morador na Covilhã, de 55 anos.
16.º Manuel Fernandes Branco, natural e morador na Covilhã, oficial de ferrador, de 56 anos.
17.º  António Ribeiro Soares, que vive de sua fazenda e agência, natural e morador na Covilhã, de 61 anos.
Assentada = 1 de Outubro de 1763.
18.º  Francisco Mendes Catrapam, oficial de carda, natural e morador na Covilhã, de 40 anos. Trabalhava em casa de João Baptista Rebelo.
Ao João Baptista Rebelo foram pedir trabalho 7 soldados franceses e castelhanos, com Lino Martins e Manuel Ferreira, por ser estanqueiro do miúdo. Respondeu que não tinha, pois já tinha entregado o tabaco ao admi­nistrador. Deu-lhes um pouco de tabaco de folha que tinha em uma panela, e pão, queijo e vinho.
19.º  António Coelho, jornaleiro, d'Aguiar da Beira, morador na Covilhã, de 44 anos.

Conclusão = 3 de Outubro de 1763 - a testemunha João da Costa Leítão ausentou-se no principio da devassa.
Despacho = 3 de Outubro de 1763 -que os autos sejam remetidos ao Juizo da Inconfidência.

Termo da data, 3 de Outubro de 1763. 

Certidão, de Manuel Coelho d'Almeida, escrivão judicial por provimento do Corregedor da Comarca, conforme a testemunha João da Costa Leitão desapareceu.

Fizeram-se autos de sequestro aos bens de António da Fonseca Barroca, de Filipe Pacheco de Aragão e de Manuel António de Figueiredo, em 8 de Outubro de 1762. Na cadeia da Vila acham-se presos António da Fonseca Barroca, António Rebelo o mouco, e os porteiros Francisco Rodrigues Sal­gado e André Malaca.

Faleceram na prisão José da Costa Aleixo e Manuel António de Figuei­redo e António Francisco Leitão, o fandango.
Covilhã, 6 de Outubro de 1763
Sinal. Manuel Coelho de Almeida

domingo, 18 de setembro de 2011

Covilhã - Invasões VI

Continua a apresentação de testemunhas neste auto de devassa, para que sejam castigados os moradores da Covilhã que se passaram para o lado estrangeiro na invasão franco-espanhola de 1762


Artilheiros em combate, carregando um canhão

     10.º Estêvão Pereira das Neves, solteiro, filho que ficou de Francisco Pereira, que vive de sua fazenda, natural e morador na Boidobra, de 24 anos. Os presos ficaram em Castelo Branco à ordem do corregedor.

11.º Francisco da Cruz, lavrador, natural do Freixial, termo do Fundão, morador na Boidobra.

12.º Bernardo Cardona, solteiro, filho de Maria da Cunha, mulher de Luis Rodrigues Jangim, filho espúrio, natural e morador na Boidobra, de 18 anos.

13.º Filipe Mendes, jornaleiro, morador e natural da Boidobra, de 40 anos.

14.º João Francisco Monteiro, oficial de carda, natural e morador na Covilhã, de 62 anos.

Pacheco mandou prender ao Fundão a António Rodrigues Carqueija o moço, «a quem tinha o dito Pacheco concebido um grande ódio por não poder aturar o dito Carqueija semelhantes governos e ter tomado umas pistolas ao comandante francês».

15.º Maria da Costa Cecília, viúva de Francisco Monteiro, oficial de carda, natural e moradora na Covilhã, de 50 anos, diz que quase todos os moradores se ausentaram uns para as serras e outros para outras partes, por não darem sujeição ao inimigo.

Pacheco «mandou lançar vários pregões com pena de morte, que todos os moradores levassem os seus panos ao Convento de S. Francisco desta Vila aonde se ajuntou um grande número deles que o inimigo levou».

16.º José Rosado, pizoeiro, natural e morador na Covilhã, de 50 anos. O Pacheco e os seus «entraram logo a fazer mil insolências, vexando o povo querendo sujeitá-lo ao Domínio del Rei de Castela, mandar lançar pregões a cada instante, prendendo e fazendo outras cousas mais querendo por força sujeitar tudo ao dito domínio e fazendo-se absolutos em todas as suas operações e acções e na ocasião em que ainda aqui se achava o inimigo mandou o dito Pacheco lançar pregões por toda esta vila para que todos os moradores com pena de morte, casas queimadas e confiscações de bens levassem os seus panos e baetas ao Convento de S. Francisco aonde se ajuntou grande número deles que o inimigo levou.»

Ostentando-se assim (o Pacheco e os outros) vassalos del Rei de Cas­tela e negando a sujeição ao nosso Rei Fidelíssimo e senhar natural, tanto assim que estando, ele testemunha, em um dos dias em que na dita vila estava ainda o inimigo, de baixo da varanda das casas de seu irmão João Rodrigues Delgado Rayo, chegou ali o Barroca cheio de alegria e prazer dizendo que, estavam já todos castelhanos, dizendo mais = Viva o Senhor D. Carlos e nós todos somos castelhanos = e levando consigo ao dito João Rodrigues Delgado ao Convento de S. Francisco, o levou consigo o ini­migo para o forte Fiel onde morreu. António Rebelo andou com os solda­dos a ensinar-lhes as casas dos moradores da vila. Este Rebelo foi à vila do Fundão, e fez-se acompanhar por António Delgado Borralho, quinteiro, mas ficou próximo, induzindo-o a ir àquela diligência pelo que foi preso e mandado para o Limoeiro de Lisboa. Mas está inocente por ser rústico e simples.

Conclusão = 1 de Março de 1763.

Despacho: Mandando prender por incursos por inconfidência aos Réus Filipe Pacheco de Aragão, seu criado Boaventura José, António da Fon­seca Barroca, Manuel António de Figueiredo, António Rebelo o mouco, António Francisco Leitão, o fandango, Francisco Rodrigues Salgado e seu irmão André Malaca, desta vila, para se remeterem ao Juízo da Incon­fidência. Covilhã. 1 de Março de 1763.

Termo da data, 1 de Março.

17.º João Leitão Namorado, oficial de tosador, natural e morador na Covilhã, de 40 anos.

Tendo fugido no dia 23, voltou no dia 24 e viu que Filipe Pacheco de Aragão, da mesma vila estava com os ditos inimigos no Terreiro da Praça pública ou pelourinho dela, oferecendo ao Comandante inimigo e seus ofi­ciais uma garrafa de vinho e biscoitos; em sua companhia estava também Boaventura José, seu criado.

Esta testemunha foi mandada prender por não querer sujeitar-se, sendo incumbidos da diligência o Rebelo, José da Costa Aleixo e João da Costa Lei­tão que a foram procurar a uma sua vinha. José Rato, o folião, de alcunha, ensinou aos soldados inimigos as casas da vila onde deviam comer; e António Fernandes Rato disse aos habitantes da vila que não fugissem que o inimigo não havia de fazer mal algum e que havia de denunciar os lugares para onde fugiam. O mesmo Rato foi com um soldado francês à serra, ao Sitio das Cales de St.º António, buscar as suas duas filhas, mas o Soldado não se quis aproximar com medo que o matassem os outros moradores que ali estavam.

18.º Manuel Antunes, solteiro, filho de João Antunes, natural e morador na Boidobra, confirmou o seu depoimento.

19.º José da Costa Aleixo, oficial de tecelão, natural e morador na Covilhã, de 32 anos. Quando o Rebelo o quis levar a prender o Namorado, fugiu para a Serra.

Ficou preso. Tem à margem que morreu na prisão.

20.º  António Rebelo, o mouco - pomareiro no pomar da Ponte desta vila natural e morador nela, preso na Cadeia, de 58 anos.

Diz que por fim fugiu para Alpedrinha e Castelo Novo. Filipe Pacheco estava num pátio ao Pelourinho, nas casas do Dr. Filipe de Macedo. Fora ao Fundão mas entregara a carta a Estêvão, seu criado, filho do Ranito, que a tornou a trazer para esta vila e a entregou de novo ao Pacheco.

Assentada = 3 de Março de 1763.

21.º  José de Matos, que vive de sua fazenda, natural do Tortosendo e  morador na Boidobra, de 35 anos.

22.º  Luis Caetano Coelho, oficial de sapateiro, da Covllhã, de 44 anos.

Assentada = 4 de Março.

23.º Josefa Maria d'Olíveira, mulher de Luís Caetano Coelho, de 45 anos.

24.º Maria de S. João, mulher de António Rodrigues Doutor, oficial de carda, natural e morador na Covilhã, de 45 anos.

«para que os fabricantes dos lanifícios levassem os seus panos e baetas ao Convento de S. Francisco».

25.º António José de Gouveia, oficial de tecelão, natural e morador na Covilhã, de 34 anos.

26.º José Rodrigues Padez, oficial de carda, natural e morador na Covilhã, de 47 anos.

O Barroca disse-lhe a ele e a seu cunhado Gouveia, (a derradeira tes­temunha): = oh, já vocês se vêm recolhendo, a culpa teve quem cá lhe não deitou o fogo às casas =

     27.º O ajudante Luis Agostinho, natural e morador na Covilhã, de 30 anos.

Entre outras coisas disse que ouviu dizer que José da Cruz Rato, o folião de alcunha, andara ensinando aos soldados do inimigo as casas de alguns moradores desta vila entre os quais de João da Silva de Figueiredo Fragoso e de Luís Caetano Coelho e de João Rodrigues sapateiro de onde lhes faltou muitas coisas.

28.º Manuel Roman, oficial de tecelão, natural e morador nesta vila, de 43 anos.

29.º  Simão Martins de Morais, oficial de tecelão, natural e morador na Covilhã, de 34 anos.

Ouviu dizer ao Pacheco que não pagava a António Francisco Fan­dango por não ter aviado o negócio a que o tinha mandado à Guarda para o inimigo lhe mandar guarnição. Sabe por o ouvir dizer a Maria Teresa, assistente em casa do Padre João Nunes desta vila, que à sua porta chegaram alguns soldados inimigos a quem foi a ensinar João Sal­vador, filho duma Rita de Gouveia e andaram comendo por várias casas e levando consigo outros para assinarem uma escritura em que obrigaram a assinar algumas pessoas, obrigando-as por este modo a pagarem certa quantia em dinheiro em certo tempo.

30.º  João Baptista Rebelo, vive de sua fazenda, natural e morador nesta vila, de 60 anos.

Os soldados franceses e espanhóis foram a sua casa, obrigando a ensinar-lha um Lino Martins, tecelão, e um Manuel Ferreira, cardador, desta vila, como presenciaram Francisco Mendes Catrapam e Manuel Leitão Camelo, tecelão.

Assentada = 5 de Março de 1763.

31.º  Manuel Leitão Camelo, natural e morador na Covilhã, de 60 anos, ofIcial de tecelão.

Trabalha em casa de João Baptista Rebelo, no seu ofício. O Rebelo também vendia tabaco, vinho e aguardente.

O inimigo dizia que ia dali ao Fundão, a Castelo Branco e a Lisboa.

   32.º  Manuel da Silva, oficial de sapateiro, natural e morador na Covilhã, de 60 anos. 

     33.º  Francisco António Correia, oficial de serralheiro, natural e morador na Covilhã, de 50 anos.

   34.º João Lopes de Morais, solteiro, filho que ficou de Manuel Lopes de Morais, oficial de tecelão, natural e morador na Covilhã, de 22 anos.

Certidão - de Manuel Coelho d' Almeida conforme este treslado da devassa de inconfidência vai escrito em 37 meias folhas de papel e com esta finda, etc.