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sábado, 2 de agosto de 2014

Covilhã - Judeus Covilhanenses III

   Hoje publicamos algumas informações referentes aos judeus  residentes em Amesterdão, bem como no Recife, Brasil, fugidos ao Tribunal da Inquisição de Portugal. Familiares destes terão deixado Pernambuco em 1654, após a derrota holandesa, e fundado Nova Amesterdão onde hoje é Nova York.

Luiz Fernando Carvalho Dias diz-nos que “Mendes dos Remédios em “ Os Judeus portugueses em Amsterdam “ Coimbra, F. França Amado, 1911 a pag 197 começa a publicação de um manuscrito que refere a população judaica portuguesa em Amsterdam no anno de 1675 – onde se encontra nomes usados por vários judeus da Covilhã, como Fróis, Cáceres, Nunes Henriques, Nunes Cáceres, Vaz, Chaves, Lara, Lopes Henriques, Furtado, Vilareal, Henriques Álvares, Mendes Silva, antecipados de apelidos e nomes judaicos; Moreno, Pessoa, Rodrigues, Coutinho, Pereira, Sória, Cunha, Fundão, etc.”
   Nas nossas publicações neste blogue, já encontrámos muitos destes nomes.
   Em seguida apresentamos excertos de Memórias (1) sobre os judeus portugueses: a aceitação e o papel dos mesmos em Amesterdão, bem como a diáspora que os levou até ao Brasil.
   Fizemos questão de pôr hoje esta publicação, porque no texto se refere: “Tão assinalado ficou o dia desta dedicação (Sinagoga dos Judeus Portugueses de Amsterdão) que ainda hoje celebram o seu aniversário a 2 de Agosto com grandiosas demonstrações de alegria.”
 
Sinagoga de Amesterdão, óleo de Emanuel de Witte

[…]
Capítulo V

Dos Judeus Portugueses nos Países Baixos

Aonde os judeus portugueses acharam melhor estrela foi nos Países Baixos, maiormente nas cidades mercantis que com muita humanidade costumavam acolher os estrangeiros. A Holanda que pelas necessidades do seu comércio se viu obrigada a abrir o seio a todas as seitas do mundo, recebia os judeus de toda a parte e sabia aproveitar-se de sua desgraça. Os nossos ali acharam todo o seu amparo. E ainda que a primeira assembleia que eles formaram em Amsterdão deu princípio (a) alguns crimes do governo por ser em tempos em que tudo era suspeitoso pela guerra que então se continuava com muito ardor, e os houveram por católicos romanos que se recatavam e escondiam suas imagens; contudo como se lhes não acharam mais do que livros hebraicos e a lei de Moysés, deixaram-nos fazer assento no país com mais firmeza e mais sossego, maiormente porque entenderam quanto convinha agasalhar uns homens que traziam imensos cabedais a sua casa e que eram os mais hábeis que então havia em todo o trato do comércio de que a República necessitava.
Com efeito, eles foram mais úteis à Holanda do que a franceses refugiados nos fins do século XVI depois da revogação do Édito de Nantes; estes levaram-lhes muita indústria, mas poucas riquezas; e os portugueses sobre as quantiosas somas de cabedal lhe entregaram nas mãos o comércio de toda a Espanha. (1) Eles ensinaram aos holandeses os segredos da nossa navegação e do nosso comércio da Índia; eles incitaram com os seus tesouros a que passassem às nossas conquistas e foram a principal causa de se fazer a poderosíssima Companhia Geral daquele Estado para a Índia porque conseguiram crescer em lusimento e respeito e em forças tanto navais e mercantis como de guerra.
Eles, pois, se estabeleceram tranquilamente em Amsterdão, em Hamburgo, em Anvers, e na Haia. Juntos com os espanhóis fizeram um mesmo corpo e se intitularam judeus do desterro de Portugal = separando-se dos judeus alemães que ali havia desde o fim do século XV a que chamavam Benjamitas pelos haverem por descendentes da tribo de Benjamim e nesta conta se compreendiam os judeus da Boémia, de Morávia, de Polónia e de Moscóvia; as suas sinagogas são separadas das dos alemães e ainda que têm a mesma religião e os mesmos artigos da fé, diversificam todavia por algumas práticas e cerimónias.
Nas sinagogas não lhes dão assento, uma só família dos Benjamitas goza desta regalia, em galardão da caridade com que havia acolhido em outro tempo os desterrados de Espanha e Portugal e cooperado para que os soberanos da República os deixassem estabelecer-se no país.
Também se não misturavam com os Benjamitas por casamentos e alianças (2) e chega o divórcio com estes seus irmãos a tal excesso que nunca nem se incorporam nem se confundem jamais com os outros filhos de Jacob; e se um judeu português desposou uma judia alemã perde imediatamente as suas prerrogativas e não é mais reconhecido por membro da Sinagoga, mas fica inteiramente separado de todo o corpo da Nação nem pode ser enterrado entre os portugueses; quase praticam o mesmo a respeito dos judeus italianos posto que os hajam em melhor conta que aos alemães.
Esta distinção e sobranceria com que se tratam os portugueses nasce da ideia em que estão geralmente, de que tiram a sua linhagem da Tribo de Judá até David do qual têm que as principais famílias vieram habitar na Espanha nos tempos do cativeiro de Babilónia, ao contrário dos alemães que eles reputam menos .... por virem da Tribo de Benjamim. Acresce a isto que eles excedem aos alemães em engenho e jurisdição; (3) os seus costumes são mais puros, passam por homens mais iguais e mais justos e de boa fé. (4) Têm maior ... e mais fauto e elegância no seu trato; são menos supersticiosos que os alemães, nem afectam como eles singularidade alguma no seu traje e maneiras e não diferem das outras nações com quem vivem senão no culto. (5)
Estas qualidades são as com que se avantajam aos alemães e as que lhes dão aquela elevação de sentimentos e aquele ar com que se portam e com que se fazem mais contemplados das nações estrangeiras.
Em nenhuma parte do mundo têm eles maior acolhimento e segurança do que em Amsterdão, assim pela liberdade de consciência das sete Províncias, quanto pela bondade dos seus moradores (6) ali ocupam a mais bela parte da cidade aonde vivem com todo o esplendor e lusimento. Quando nela pousaram foi Aaron Levita, filho de Uri Levita, o primeiro que os circuncidou (7) nesta cidade erigiram eles a sua primeira Sinagoga a que chamaram Casa de Jacob = do nome de Jacob tirado seu fundador. (8)
Depois fizeram outra de novo a que chamaram = Neve Schalom = isto é, domicílio da Paz; à testa dela esteve Judas Vega, Rabi que viera de África, a que sucedeu Uriel que tão fortemente censurou os defeitos de sua Nação que incorreu no seu ódio, e deu ocasião a que muitos se separassem dele. (9)
Em 1618 erigiram terceira sinagoga a que deram o nome de Beth Israel, isto é, Casa de Israel, debaixo da direcção de David Pardo e como se separaram dos outros foram havidos por cismáticos, mas a primeira sinagoga tomou o seu partido e se uniu com eles. O Cisma em fim cessou depois de vinte anos em 1639.
De todos estas três sinagogas veio a fazer-se depois uma só com a denominação de Talmud Hathorath ou Thora, isto é, Estudo ou Ciência da Lei, a qual é chamada a Sinagoga dos Judeus Portugueses de Amsterdão, o edifício em que ela está foi começado em 1617 e acabado em quatro anos. Quatro judeus portugueses de distinção puseram as quatro pedras angulares do seu fundamento da Sinagoga - Jerónimo Nunes da Costa, António Álvares, Manuel Pinto e David Pinto.
É fundada ao Oriente da cidade, tem 500 pés de comprido e 100 de largo, sem contar a área e as muralhas exteriores; a sua altura do chão até à abóbada é de 70 pés, é espaçosa e clara e por dentro mui perfeita e vistosa por fora, está cercada de um formoso páteo, com suas galerias à maneira de muro que a rodeia correndo da direita e da esquerda ao comprimento da sinagoga; no páteo está o aposento dos Senhores da Mahamad, seis casas dos Medrassim, duas para os Hozanim e uma para o guardião; nos lados tem corredores com colunas para passear e tem três portas, e faz a principal admirável perspectiva por se notarem três abóbadas de que se  forma todo o edifício, das quais as dos lados se sustentam nas paredes, e a do meio em quatro pilares de pedra; de cada lado tem uma galeria para assento das mulheres que sustentam seis colunas de cada parte.
Pendem cinco ordens de magníficos lampadários com seus debuxos dourados na abóbada e em tanta quantidade que fazem o número de 800 luzes; as madeiras são de jacarandá e bordo, com muitos adornos, o artifício compete com o melhor de toda a fábrica. (10) Assim esta sinagoga é dos mais luzidos edifícios da cidade e a maior e a mais bela e magnífica que há em todo o mundo, merecendo por isso os gabos de todos os mestres e sabedores de Arquitectura.
Foi solenemente dedicada em 2 de Agosto de 1675 com grandiosa pompa e solenidade; havendo assinalado este dia pelo mais alegre e bem ditoso que havia tido a Nação depois da ruína de Jerusalem. Os príncipes d’entre os judeus levaram em procissão a Lei e entrando na Sinagoga praticaram actos de sua devoção e deram avultadíssimas esmolas, fizeram grandes festas por espaço de 8 dias, nelas pregaram os seus Deraschot ou Sermões e foram oradores os portugueses Isaac Aboab, Salomão de Oliveira, Isaac Zacuto, Isaac Neto, Elijahu Lopes, D. Isaac Vellosino e D. David Sarpathi.
O principal que pregou no primeiro dia tomou por tema as palavras do Cap. 41 v. 4 do Deuteronomio = Vós estais unidos ao vosso Deus = e mostrou que o tempo dos milagres não havia acabado, se não que Deus só mudará a maneira de os fazer porque então a força os fazia a Deus secretos e ocultos, quando antigamente eram sensíveis e públicos; que um destes milagres secretos era sem dúvida o zelo e a caridade que haviam mostrado na edificação da Sinagoga que consagravam e que isto havia anunciado Ezequiel no Cap. XI, v. 16: Eu serei a ele um pequeno templo no lugar a que vierem.
De todas as orações se fez uma colecção que se publicou depois com este título = Sermões que pregaram os doutos emgenhos da K.K. Talmud - Tora desta cidade de Amsterdão no alegre estreamento e pública celebridade da Esnoga que se consagrou a Deus para casa de oração cuja entrada se festejou em Sabath. Nahamia. Anno 5435 (de Cristo 1675) Estampado em Amsterdão em casa e à conta de David de Castro Tartaz em 4º. (11)
Tão assinalado ficou o dia desta dedicação que ainda hoje celebram o seu aniversário a 2 de Agosto com grandiosas demonstrações de alegria.
O Príncipe de Orange Frederico Henrique e a Rainha Henriqueta Maria, mulher de Carlos, Rei de Inglaterra que muito os favoreceram, foram em pessoa visitar a Sinagoga; e o Rabi português Menaseh Ben Israel lhes recitou em língua portuguesa uma oração gratulatória em nome da sua Nação que fez imprimir em Amsterdão em 402 (de Cristo 1642) dedicado ao Doutor Abraham Ferraz, Aharon Acoen, a Jeosuali Jesurum Rodriguez, a Moseh de Mesquita, a Iahcob Coen Enriquez, e a Habrahão Franco, chefes ou directores da Sinagoga dos Judeus Portugueses em Amsterdão.
Há nesta sinagoga cinco fraternidades ou sociedades Académicas que chamam Kether Thora = Tora or = Jesiba de los Pintos= Tiphereth Bachurim = Meirat Enajein = a principal he Kether Thorah = isto é Corôa da Lei., fundada em 1643, dirigida por muitos e mui sábios homens. Há além disto dez Academias Caritativas intituladasAbi Ietimim, Gemilut Chasadeim, Temime Darech, Ionem Daltim, Maskil el Dal, Se hare, Zedeek, Ketersem Tov. Resith Chochmi, Baale Teschuiva = (12)
A Haia é outra cidade que frequentaram os nossos: para ali se recolhiam de Amsterdão e de outras partes, os mais ricos e poderosos da Nação para gozarem socegadamente dos imensos tesouros que juntavam vivendo prosperamente em soberbas casas com toda a ostentação do luxo. Tem nesta cidade uma grande sinagoga e extremam-se dos Alemães por certos ritos e cerimónias como sucede em Amsterdão. Também alguns se estabeleceram em Hamburgo, entre os que ali se domiciliaram foi um deles o insigne médico Rodrigo de Castro.
Os judeus portugueses de todas estas cidades usam da tradução castelhana da Bíblia de Ferrara, maiormente das Edições de R. Menassés ben Israel de 1630 e de 1646, das de Samuel de Cáceres de 1661 e da de Jacob Lumbroso de 1639 e em particular de Pentateuco do mesmo R. Menassés de 1627 e de 1655, da Parafrase de R. Isaac Aboab de 1681 da versão castelhana de R. José Franco Serrão e de uma versão portuguesa de que faz menção Cristóvão Arnoldo nas suas notas ao Sota Wagen seiliano. (13) Também se servem da tradução castelhana de Miscna impressa em Veneza em 1606, feita quanto parece, por R. Abraham, filho de Reuben ben Nachman de Marrocos, (14) e do Tratado dos Capítulos dos Padres da tradução espanhola de Moses Belmonte, impressa em Amsterdão em 1712, em 8º na oficina de Salomão Praops. com o texto hebreu e com parafrase caldaica do Cântico de Salomão.
Entre todos os judeus portugueses de Holanda os que mais se assinalaram por seu grande saber foram os seguintes: Jacob Jehuda Leão, R. Salomão Jehudah de Leão, Isaac Aboab, Isaac Ben Matalias Abuab, R. Isaac Abas, Samuel Ben Isaac Abas, Rab. Menassé Ben Israel, Abraham Israel Pilzaro, R. Mortera, Aguilar, Nunes, Telles, Pereira, Cardozo e Zacuto.
Pelo que toca às famílias distintas dos judeus portugueses, ali se achavam mais que em nenhuma outra parte do mundo: uma das quais era a dos Abarbaneis de quem faz muita muita menção Levi de Barrios na sua História Universal dos Judeus, falando de José Abarbanel e de seu irmão Menasseh, e de Jonas seu filho (15) e ainda hoje se mantêm outras muitas como a dos Pintos, a de Nunes, da Costa, etc...

Notas:
(1) - Lettres de quelques Juifs Portug., pag. 18.
(2) - Wagenseilo, na obra Para loculo II, pag 126.
(3) - Assim o notam dois grandes escritores dos mesmos alemães Jehudt na obra Memorabilis Judaica, P. 1, pag. 133. Wolfio, Biblioth. Hebr., Tom. II, pag. 1107.
(4) - Este foi o juízo que deles fez, entre outros, o sueco André Morelis, nos Prolegomenos ad Phosphorum Fidei Orthodoscae, pag. 23, contando o grande cisma que houve entre uns e outros por ocasião dos escritos de Chaja Chajon e de R. Nechemia Chaija - Magnos Lusitanos inter ac germanos judeos excitavit motus lusitani autem ut sunt in omnibus aequores cultiores que i ita (sic) laudatum lebrum quieta industria examinarunt eundem que una cum tanto Nehemia auctrrea (sic) sinistris germanorum judiciis publica censura vindicarunt.
(5) - Bramer contum. Releg. , pag. 201.
(6) - Daniel Levi de Barrios, Casa de Israel, pag. 24.
(7) - Daniel Levi de Barrios, na obra Casa de Jacob, pag. 2.
(8) - Desta e das mais Sinagogas que tiveram em amsterdão faz memória Daniel Levi de Barrios na História Universal Judaica; na outra Arbol de las Vidas e na outra Luzes e Flores da Ley Divina = em que expõem a origem do judaísmo em Holanda e a vida de seus primitivos Doutores; Veja-se também António Álvares Soares na Sylva.
(9) - A esta Sinagoga se fez o Diálogo em português = dos Sete Montes Sagrados = que se viam naquela casa, obra a que Rohel Jesurum por outro nome Paulo de Dina, natural de Lisboa, fez uma prefação.
(10) - Vem uma descrição desta Sinagoga na Prefação da Coleção dos Sermões que se pregaram na Dedicação.
(11) - Vej. Daniel de Barros no Governo Popular Judaico, pag. 33. Wolfio, Biblioth. Hebr., Tom. 2, pag. 1284 e Tom. III, pag. 1181. Basnage, Hist. de Jucts, no Tom. V, pag. 2095 e no Tom. IX, pag. 995 e segts. Benthemio, de Statu Belgii Eccles. P. 1, pag. 53 e Jacob Scuda, Memoralia Judaica, Liv. IV. C. IX.
(12) - Delas faz uma descrição Daniel Levi de Barrios, na obra Triumpho del Governo popular y sedilo antiguedad Holay desa an. 443. (de Cristo 1683).
(13) - Pag. 1212.
(14) - Um judeu português trabalhava em 1726 em traduzir todo o Miscn e para isso comprara um exemplar em Veneza que fora da Livraria de Cornélio Schulterigio.
(15) - Daniel Levi de Barrios, Relacion de los Poetas e Escritores Espanholes de la Nacion Judaica, Amsterdão; e Basnage, Hist. des Juifs, C. XXVI, que referem alguns judeus portugueses.

[…]

Placa de rua no Recife (2)

Capítulo X

Dos Judeus Portugueses na América

A América, atraindo os olhos de todos os europeus, convidou também a muitos dos judeus portugueses a que deixando a Pátria ou as terras estranhas para onde se haviam transportado, viessem a estabelecer seu domicílio nos lugares do Brasil. (1) Uns passaram  a estas partes imediatamente do reino e ainda que o snr. Rei D. Sebastião lho proíbiu depois de seu alvará de 30 de Junho de 1567, sempre continuaram a ir, obtendo a princípio licença e dando fiança como no mesmo alvará se lhes permitia e depois ainda sem ela nos tempos da dominação castelhana, que por isso os povos requereram nas Cortes de Lisboa de 1642 que se renovasse a proibição que antigamente se havia feito.
A Baía de Todos Os Santos era uma das cidades do Brasil aonde se estabeleceram muitos deles; lá os acharam os Holandeses quando a conquistaram, que por ventura tiveram muita parte na entrega da cidade, segundo então se suspeitou; pelo menos foram eles os que depois persuadiram aos Índios com o título de Liberdade e de religião a receber o novo jugo, quando o Coronel João Dort lançava bandos em que oferecia fazenda, casa e liberdade de consciência a todos os que quisessem gozar dela e consta que mais de duzentos judeus ali ficaram. (2)
Não só os do Reino mas os mesmos judeus portugueses de Holanda se trespassavam em grande número para o Brasil por ocasião das conquistas dos holandeses e da sua Companhia Ocidental porque vendo Holanda quanto lhe importava para seu comércio valer-se dos cabedais, e pessoas dos judeus do Norte, pôs grande cuidado em fazer com que eles passassem ao Brasil e se interessassem no trato e comércio da terra. (3) Quase todos eles foram assentar seu domicílio em Pernambuco no Arricife e Torres junto a ele e na fortificação nova que os holandeses haviam feito na sua vizinhança (4), chamada Cidade Maurícia, de Maurício de Nazão ou Nassau, seu autor. (5)
Entre os que foram para terras do Brasil ou lá nasceram, deixaram de si assinalada memória os seguintes que aqui poremos: António Mendes R.          Moyses (sic) de Aguilar, António de Montesinos ou Aaron Levi, natural de Vila Flor (6) que havendo ído desde o porto de Honda até a Província de Quito, dali passou a Pernambuco, o qual escreveu uma Relação das Relíquias que achara no Brasil, do Povo de Israel e abriu caminho a que o R. Menassés na sua obra = Esperança de Israel = assentasse como certo que as Dez Tribos estavam ocultas em várias regiões da América, maiormente em terras de Setão, vivendo conforme a Lei de Moysés; Isaac Aboab, natural de castro Daire, na Beira, discípulo de Uziel, de Amsterdão se passou ao Brasil em 1642 e ali foi Presidente da Sinagoga dos Judeus, donde tornou para Amsterdão e sucedeu ao R. Menassés na Cadeira da Gemará (7); Ephraim Soeiro, irmão do mesmo R. Menassés, que o havia enviado ao Brasil para ver se pelo trato do comércio podiam ambos crescer em cabedal e fortuna; Jacob de Andrade Velosino que nasceu em Pernambuco em 1657, no domínio dos holandeses, com os quais depois da Restauração que fizemos, se passou para Amsterdão.

Notas:
(1) - Dos judeus na América falou com erudição Fabrício, na obra “ Lux Salutaris Evangelica “, pag. 754; Wolfio, na Bibliotheca Hebraica, Tom. IV, pag. 515; Besnage, Histoire des Juifs, Liv. VII, C. 4; Coreal, Voyage aux Indes Occidentales, Tom. 1, pag. 291, ed.. de 1722. O Jesuíta Latifau nos “ Costumes dos Selvagens Americanos “ e o anónimo autor da “ Dissertação sobre os Povos da América e sobre a Conformidade dos seus Costumes com os de outros Povos Antigos e Modernos “ que saíu em Amsterdão em 1724, fol . e vem no Tom. 1º dos Costumes Religiosos e outros muitos, dos quais alguns se persuadiram que os Americanos descendiam dos Hebreus.
(2) - D. Gonçalo de Cespedes e Meneses na História de Filipe IV, C. 20, pag. 206, col. 2.
(3) - D. Francisco Manoel = Restauração de Pernambuco, nas Epanáforas, pag. 492.
(4) - Consta do assento e condições com que Pernambuco se entregou ao Mestre de Campo General Francisco Barreto e dos artigos militares que traz D. Francisco Manoel, no lugar acima citado, pags 529 e 536.
(5) - D. Francisco Manoel no lugar acima citado, pag. 489 e 490. - ( A construção denomina-se hoje por Forte Orange ou de Itamaracá )
(6) - Castro, na Bibliotheca Esp., pag. 564, põem Miraflor por Villa flor: sobre este escritor veja-se Basnage na Historia dos Judeus.
(7) - Wolfio, Biblioth. Hebr. Tom. 3, pag. 538; Barrios, na Arbol de las Vidas, pag. 64 e na Vida de Ussel, pag. 45. := Sabio Ishac Aboab en el remoto = Brazil=
(8) - Barrios diz dele na obra Arbol de las Vidas, pag. 79:
= Primero illustró al Brazil
= con virtud, y sciencia summa
Wolfio. 703. Consta da sua obra determinio ( sic ) Vitae Sect. XII, pag. 236. Castro na Biblioth. Esp. pag. 551 chama-lhe cunhado de Menassés, sendo que ele era seu irmão, como ele mesmo lhe chama adiante. ap. 557. [...]

Nota dos editores - 1)Presumimos sejam de António Ribeiro dos Santos (1745-1818). 
2) Fotografia da autoria de Leonardo Dantas Silva no album  "A História dos Judeus dos EUA - Arruando pelo Recife" In Facebook

As Publicações do Blogue:

Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/11/covilha-lista-dos-sentenciados-na.html


As publicações sobre Judeus Covilhanenses:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2012/02/covilha-judeus-covilhanenses-no-seculo.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2012/02/covilha-judeus-covilhanenses-no-seculo_10.html

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Covilhã - Sobre o Processo de Gonçalo Vaz IX


    Concluimos hoje a publicação do processo de Gonçalo Vaz (1), que Luiz Fernando Carvalho Dias copiou na Inquisição de Lisboa.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição/S. Francisco, Covilhã
[...] A 18 de Janeiro de 1586 começam a ser ouvidas algumas das testemunhas do réu no Mosteiro de S. Francisco, Capela de Jorge Cabral, pelo muito Revdo Padre Frei João de Aveiro, Guardião do Convento de Sto. António Extra Muros.
Igreja de S. Francisco, Capela dos Cabrais
As testemunhas da Covilhã dizem que o réu é tido e havido como católico ouvindo missas e sermões.

Jorge Mendes (Martins?) é que escreve os depoimentos.

- Simão Vaz declara que é verdade que o Réu tratar sempre com homens honrados e com os mais principais da terra e assim o via muitas vezes no Mosteiro de S. Francisco tratar e conversar com os frades e assim com os clérigos da terra. 

- Cristóvão Roiz, genro de António Afonso, diz que o réu passava os dias da semana a visitar os tecelões a que dava trabalho aos pisoeiros. Que sabe que o Réu quando andava fora de casa andava em Medina, em Castela e no Algarve. 

- António Fernandes de Cáceres, cunhado de Gonçalo Vaz.

Gonçalo Vaz quando ía a Castela trazia espadas, para vender.

- Diogo Vilela, 36 anos- A Feira das Virtudes é dia de N. Senhora de Setembro.

Também ía à feira das Mercês e viu o Gonçalo Vaz em Lisboa, algumas vezes, com panos.
- Maria Fernandes, mulher de João Fernandes, o Buro de alcunha, 30 anos, Que o R. morava à porta de S. Domingos desta vila. Costumava passar o dia em casa do R. desde que tomava a roca pela manhã. 

- Marçal de Colónia, flamengo de nação, 45 anos, diz que nas casas para onde foi morar Gonçalo Vaz, a S. Domingos depois de sair das suas, havia uma fornalha no sobrado - que ele o sabia por lá ter vivido há cerca de 20 anos. 

- Manuel Mendes, filho de Pero Francisco, já defunto, mercador, de 36 anos, que há dez anos a esta parte foi à Feira das Virtudes; umas vezes Gonçalo Vaz estava lá, outros ía com ele. 

- Cristóvão Roiz, cardador, 23 anos, era vizinho do R. e trabalhou algumas vezes em sua casa, que o R. ordinariamente comia na sala diante de todos os oficiais e algumas vezes os convidava a tomar alguma coisa à mesa.
- Diogo Sardinha, morador no Tortozendo, mercador, 35 anos, que não se recorda de ver o R. na Feira das Virtudes, mas um ano ou dois antes que o prendessem o viu lá a vender espadas. 

- Isabel Fernandes, 60 anos, mulher de Francisco Álvares, carcereiro da vila, diz que o R. foi preso haverá 13 ou 14 anos. 

- Guiomar de Matos, x. n., mulher de Manuel Lopes, x.v., 55 anos. 

- Fernão Lopes, filho de Simão Roiz, mercador, da cidade da Guarda, 30 anos, diz que foi para Beja enquanto Gonçalo Vaz ficou em Évora depois da Feira da Flor da Rosa. 

- Diogo Mendes, x.n., do Fundão, 60 anos, diz que Gonçalo Vaz é primo co-irmão da mulher dele testemunha, que quando o R. foi preso em Lisboa até apresentar os papéis que trazia de Roma, deu-lhe fiança Jácome Borges.

- André de Sousa, genro de Diogo Mendes, 40 anos, x.n. 

- Diogo Vilela, 36 anos, nunca da Feira das Virtudes foi com o dito Gonçalo Vaz a Lisboa acabar de vender as suas mercadorias como é costume fazerem os mercadores desta terra. 

- Fernão Henriques, filho de Fernão Manuel, 22 anos. 

Livro de Baptizados da Igreja do Lugar do Fundão

- em 28 de Setembro 1572 baptizei Diogo, filho de André de Sousa e de Isabel Mendes, sua mulher, foi padrinho Jorge Roiz e madrinha Clara Lopes. 

Diz Gonçalo Vaz que tem muitos inimigos por ter sido seu pai procurador do Concelho, entre eles Ciciso (Cício) Nunez de Albuquerque (2) de Covilhã.
Que é irmão de Luiz Vaz que há 14 ou 15 ou 16 anos matou de uma estocada Manuel Cão, filho do Licº Mendo Cão e de Brites Proença, pelo que o pai dele R. e dois irmãos solteiros foram presos acusando-os Brites de Proença, seu filho António Cão, António de Proença, escrivão e António de Proença, meirinho de Covilhã, saindo os presos soltos e as partes acusadoras condenadas em 80.000 rs de custas, cujos são seus inimigos e de quem tem carta de inimizade.
É inimigo Estêvão Magro, etc...
É inimigo António Feio, por ser amigo e parente dos Proenças e amigo de Estêvão Magro. Teve palavras de escândalo, para sua mulher Leonor Roiz e ele R. o ameaçou de morte se não fora clérigo, há 9 ou 10 anos, e assim é inimigo de Fernão Carvalho, irmão dele prior, da sua mãe Isabel Feia e de sua irmã.
Que é inimigo duma mulher (Ana Pires) que foi criada de seu cunhado António Fernandes de Cáceres e lhe criou um menino que chamou Francisco por muitas vezes o R. a injuriar e lhe chamar puta velhaca e por pelejar muitas vezes com ela, etc... que disse aos parentes que pusessem a ama do filho fora de casa - que enquanto o não fizessem que nunca os trataria por parentes; que ela parira de vários, etc...
Que desde o ano de 1575 era inimigo de Francisca Dias, parteira, moradora na Covilhã, por ele R. difamar dela, que dormira com dois irmãos e que dava mulheres em sua casa, entre elas uma mulher muito honrada, viúva; vivia numa casa da sogra do R.
É inimiga Maria Antunes, mulher de Francisco Covas Castelhano, por há dez anos ele R. lhe chamar ladra, alcoviteira e bruxa publicamente; que ele R. dava muito má vida a sua mulher por se dar com ela; que é muito amiga de António Proença; o R. não quiz dar seus panos a tingir ao genro dela Diogo Vilela, que ele R. se escondeu muitas noites em casa de Rº de Matos, alfaiate que morava defronte dela para lhe dar uma cutilada pelo rosto.
Que ela é ladra, alcoviteira de mulheres honradas, que andou quando viu Marcos Teixeira a alvoroçar a gente plebeia para testemunhar contra o R.
Item Genebra Fernandes, a Pêga de alcunha, x.n., que ora mora em Abrantes por várias causas sem importância.
Item de Maria, moça, filha que ficou de Lopo Fernandes, disse muito mal dele R. e de sua mulher; que lhes comeria os fígados, se pudesse.
Idem, Leonor, moça de soldada, que foi criada da sogra dele R. porque fez que um criado da dita sua sogra não casasse com ela, porque a achava má mulher de seu corpo e é moça de mau viver.
Item Maria Simões por ele R. a pôr fora de casa por parir dum parente dele R.
Item Guiomar Teixeira e suas filhas Clara, Isabel e Maria, por um irmão dele ter cópula carnal com a Clara, que a forçara e parir dele, e por isso ao R. e irmão muitas pragas.
Item que pelejou com a Isabel, filha e irmã das sobreditas, criada que foi dele R. por andar de amores com o filho de Fernão Manuel.
Item com António Roiz, morador no Bairro de S. Francisco, irmão de André Roiz, o clérigo, por ele R. haver sido grande amigo de Miguel de la Plaza, Castelhano, irmão de Frei João Guio (?) da Ordem de Malta e lhe dizer que não fizesse negócio com o dito António Roiz porque o enganava.
Item Baltazar de Figueiredo, tabelião diante o juiz da Covilhã, porque ele R. testemunhou contra ele num feito de António Ferreira do Fundão dizendo que ele fizera falsidade o que foi há 7 ou 8 anos e o dito Baltazar de Figueiredo veio em contraditas ao R. no qual disse palavras muito difamatórias contra ele R. que o juiz mandou riscar. 

Testemunhas 

Licº Álvaro Roiz, procurador de Covilhã.
Miguel da Costa
Jorge de Serpa
Belchior da Costa, escrivão
Antão Vaz e Simão Vaz, irmãos
Francisco Delgado, almocreve, x.velho
Manuel Lopes que foi tabelião e a mulher Maria, x.n. Guiomar de Matos
Francisco Roiz Moniz, x.n., mercador
Miguel Vaz, tosador, x.novo
Diogo Roiz, filangago, x.n.
Bartolomeu Mendes, x.v., que fez panos e mora a S. João do Hospital
Henrique Lopes, rendeiro dos portos em Covilhã
Francisco Flores, x.n., sapateiro
Maria Roiz, moça solteira, filha de Jorge Fernandes Mantinha, que se foi da Covilhã e dizem que está em S. Felizes, lugar de Castela.
Domingos do Reino, cardador, x.velho.
Antónia Fernandes Santarena, de alcunha mulata
Diogo Giraldes, tecelão, x.velho
André Roiz, tecelão, de S. João, x.velho
e Francisco Roiz, seu irmão, filhos de Amador Roiz.
Miguel Vaz, tosador e sua mulher Leonor Roiz, x.novos.
Isabel Dias, a panca, padeira, x.velha
 Pero Fernandes, o Cardosinho, cardador, x.velho
Lourenço Dias, cardador, de Covilhã
Baltazar Ferreira, cardador, x.velho
Francisco Roiz da Pedreira, escrivão
Dr. Álvaro Roiz, x.velho
Licº Sebastião Teixeira, x.velho
Francisco Roiz, escrivão
Dr. Domingos Vaz, x.v., inimigo do pai do R.
António do Vale, escrivão
Fernão Manuel, tintureiro, x.n.
Miguel Vaz, x.n., tosador. 

Autos de Suspeição contra o Licº Estêvão Magro

Estêvão Magro era prior de S. Tiago e Arcipreste.
- Que sendo amigo dele, ele arcipreste dissera, andar ele R. ausente dois anos por seus negócios, que bem sabia porque era, dando a entender que era por culpas de judeu.
- Que sabendo ele Vaz este facto  ... voltou, ele Vaz disse do Magro que sabia que este abraçara e tocara com modos desonestos a uma fª duma mulher honrada, tida por virgem e honesta cujo nome ele Vaz não declara pela honra da rapariga, mas que as testemunhas dirão e daí o ser ele Magro seu capital inimigo; punha-se vermelho quando o viu e ele Vaz murmurou do arcipreste com o Lcdº Diogo Gonçalves dizendo que se curara de alguma mula ou cavalo.
- Que no ano de 582, deu o dito arcipreste o dia de S. Matias aos 24 de Fevereiro, sendo ano bisexto e ele Vaz disse no Pelourinho perante muita gente que o Prior comia a Renda da Igreja e que não sabia declarar quando caíam os dias santos; tomou-se o prior muito disso, fizeram apostas, discutiram e ficaram inimigos.
- Que o prior, no adro de S. Tiago da Covilhã, ao passar uma mulher com hábito de penitência disse que se não podia confiar em nenhuma pessoa de nação porque todos eram judeus - ao que ele Vaz respondeu com cólera que também não havia de confiar de nenhum vilão ruim ainda que andasse em diferentes vestidos e logo um Jorge Vaz foi ter com ele Gº Vaz a perguntar o que tivera com o prior e assim ficaram inimigos.
- Que o prior é muito amigo de António de Proença, escrivão e de Uriana Ribeira e suas filhas e parentes porque o dotaram de fazenda patrimonial para se ordenar de ordens sacras e uma das filhas de Uriana Ribeira é casada com o dito António de Proença, tabelião das notas de Covilhã do qual e de seus parentes e cunhados o recusante Vaz tem carta de inimizade Real para não serem testemunhas contra ele pelas quais razões lhe é muito suspeito e por tal deve ser julgado.
Oferece as seguintes testemunhas: 

a)- Guiomar Pires, x.n., viúva, mulher que ficou de António de Andrade.
b)- Fernão Cabral, alcaide mor de Belmonte.
c)- António Roiz e Lourenço Roiz, filhos de Francisco Roiz da Pedreira.
d)- Jorge Vaz, filho de Fernão Vaz.
e)- o mesmo Fernão Vaz, x.n., mercadores.
   ao 2º artigo 

a)- Fernão Cabral.
b)- Guiomar Pires.
c)- Cristóvão Roiz, cardador, genro de António Afonso.
d)- Jácome Roiz, x.n., boticário, 64 anos.
e)- Henrique Lopes, x.n., escrivão das sisas.
f)- Jorge Vaz, supra.
g)- Duarte Dias, mercador. 

   ao 3º artigo 

a)- Licº Diogo Gonçalves, x.n., primo co-irmão dele recusante Vaz. 

   ao 4º artigo

a)- Domingos Vaz, x.n., tosador.
b)- António Roiz, supra, filho de Francisco Roiz.
c)- António Fernandes, x.n., tendeiro, o amito de alcunha. 

   ao 5º artigo

a)- Jorge Vaz, filho de Fernão Vaz. 

   ao 6º artigo 

Para provar a inimizade do António de Proença dá em prova a carta de inimizade d’ El Rei que se acha em casa de Diogo Dias e Gaspar Dias irmão dele recusante uma certidão do feito por ter acusado Fernão Vaz, pai dele recusante e assim seus irmãos pelo dito António de Proença e sua irmã Beatriz de Proença, criminalmente pedindo fossem enforcados por morte de um filho da dita Beatriz de Proença o qual matou ( foi morto por ) Luís Vaz, seu irmão e segundo sua lembrança foi escrivão deste feito António do Vale, escrivão diante o juiz de fora de Covilhã, ou quem em verdade foi. 

Testemunhas para provar a amizade do prior com António de Proença e Uriana Ribeira e suas filhas:
a)- Francisco Roiz da Pedreira.
b)- Francisco Roiz, seu filho.
c)- Miguel da Costa, x.v., cavaleiro fidalgo, vizinho do prior.
d)- Belchior da Costa, escrivão. 

Testemunhas para provar que Uriana ou filhas dotaram o prior : não sabe quem foi o escrivão, mas deve ser um dos 4 ou 5 que há em Covilhã, os quais são Francisco de Sequeira, Francisco Coelho, Jorge Coelho e António de Proença. 

- 4/11/1585 - Provimento dos inquisidores mandando ouvir as testemunhas do Réu. 

- É encarregado de averiguar o caso o prior de Alcongosta Licº António Nicolau que ouve as testemunhas na Igreja do Mosteiro de S. Francisco de Covilhã.
Belchior da Costa, tabelião da dita vila, diz ser fidalgo da Casa d’ El Rei.
Pero Vaz da Costa, cavaleiro fidalgo morador na Covilhã. 

Carta de Inimizade de D. Sebastião
Passada a favor do Licº Fernão Vaz e seus filhos contra a viúva do Licº Mendo Cão, Beatriz de Proença e a todos os seus filhos e parentes até ao 4º grau, em especial António de Proença, meirinho e António de Proença, tabelião de notas, todos moradores na Covilhã e seus inimigos capitais, por Luiz Vaz haver morto um menor, filho de Beatriz de Proença e sobrinho dos dois Antónios de Proença, chamado Manuel Cão. (Manoel Cam)

Dada em Lisboa a 25/8/1572. 

O Licº Fernão Vaz e seus filhos Diogo Dias e Gaspar, moço menor, estiveram mais de um ano e meio presos na cadeia da vila, querelados como ajudadores da morte de Manuel Cão, mas foram absolvidos. Foi também querelado pelo mesmo caso o sobrinho do Licº Fernão Vaz, de nome Licº Diogo Gonçalves. (Os Cães pagaram custas no valor de 80.000 rs) 

Certidão passada por João de Barbedo, tabelião do Judicial na Vila de Covilhã  (sucedeu na nota a Braz Nunes) dizendo que não achou no cartório o feito do crime - 28/11/1585.
Certidões que o Réu deu em sua defesa (não tem página numerada) 

Jerónimo Freire escrivão da casa da sisa dos pa/nos desta cidade de lixª faço saber Aos/ que esta sertidão virem que guoncallo Vaãz/ da covilhan despachou nesta cassa os paños/ abaixo declarados E delles pagou os dr.tos/ tambem abaixo declarados os quais panos/ despachou no Ano de mill quinhentos setenta/ he ojto annos/ ---
§ ê dous de jan.ro quinze c.ºs de pano pagou cem rs/ Ite ê vinte seis de Junho dezojto c.ºs de saragoça a duzentos/ e oitenta pagou duzentos sinquoêta dous rs/ § no dito dia dezaseis c.ºs de Saragoça a duzentos ojtenta/ rs pagou duzentos vinte quatro rs/ § no dia seis c.ºs de verdezo a duzentos quorenta/ pagou setenta e dous rs/ ê vinte sete de Junho vinte dous c.ºs de saragoça A / duzentos ojtenta pagou trezentos e ojto rs/ § no dito dia dezasete c.ºs de palmilha a duzentos/ ojtenta rs pagou duzentos trinta ojto rs/ ê prim.ro de Julho Goncallo Vãaz plo L.do djº glz trinta/ sinqº c.ºs de pano branqº a duzentos dez trezentos/ sasenta e sete/-------
§ ê trez de Julho vinte hû c.º de saragoça vinte quatre/na a duzentos e noventa as trezentos quatru rs/ § ê quinze de Julho diguo no dito dia quinze c.ºs/ de saragoça a duzentos ojtenta rs duzentos e dez/ § no dito dia dezaseis c.ºs de picote a cento ojtenta rs cento quorenta quatro rs ----/ § no dito dezasete de palmilha a trezentos rs duzentos/ sinquoêta sinquo rs // no dicto dia guoncallo Vãz plo djº glz dezaseis/ c.ºs de pano branqº vinte quatreno a duzentos a duzentos rs cento / he quorenta rs / § no dito dia trinta c.ºs de palmilha e verdezo por/ dois panos a trezentos vinte rs quatrocentos he/ ojtenta rs/ § elle no dito dezojto c.ºs de palmilha a duzentos/ e noventa rs / duzentos e satenta e hû rs/ § ê quatro de julho dez c.ºs de palmilha a trezentos/ rs cento sinquoêta Rs/ § ê ojto de julho trinta tres c.ºs de palmilha/ a duzentos e sasenta quatro cento e vinte / nove rs /  § ê nove de julho quorêta tres c.ºs de palmilha por / dous panos a trezentos rs seis centos quorêta / he sinqº rs / § no dito dia vinte sinqº c.ºs de picote a cento ojtenta/ duzentos vinte sinqº rs/ § no dito dia vinte quatro de picote a cento setenta / duzentos e quatro rs/ § no dito dia guoncalo vaãz plo Ldo djº glz dezasete/ c.ºs de vinte quatreno p.to a duzentos e trinta Rs/ cento noventa e sinqº rs/ E no dito livro da R.cta desta cassa não estavão / mais adicões q ho dito guoncallo Vaaz despachase/ q as vinte  e hua q vão escritas nestas duas / laudas as quais treladej do dito livro a que / me Reporto ê Lixª oje xij dag.to 1585/            
                                                 a)  Jrº Freire 

Jerónimo freire escrivão da casa da sisa dos panos / desta cidade de lixª Faço saber Aos que esta / sertidão virem que guoncallo vaaz de covilhan / despachou nesta cassa os panos abaixo declara/dos e delles pagou dr.tos tambem abaixo declara/dos os quais panos despachou / no Anno de mill quinhentos setenta he / nove annos/ ---
§ ê quatro de majº trinta c.ºs de palmilha a trezentos / he quarenta rs pagou quinhentos e dez/ § elle no dito dia por seu paj ho L.do fernão vaãz / vinte e dous c.ºs de fiorentino a trezentos he quo/renta rs pagou trezentos he setenta quatro rs / § elle no dito dia trinta ojto ( entrelinhado ) c.ºs de saragoça a trezentos he quorêta rs seis çentos quarenta seis rs / elle no dito dia vinte sinqº de palmilha a tre/zentos sinquoêta rs pagou quatro çentos / trinta sete rs / § elle no dito dia vinte sinqº c.ºs de palmilha A trezentos sasenta rs pagou quatro çentos sinqºêta / rs / § elle no dito dia vinte sinqº c.ºs de picote a cento / e noventa rs pagou duzentos e sete rs / § elle ê seis de majº quorenta ojto c.ºs de picote / por dous panos a cento setenta rs pagou quatro / çentos ojto rs / § elle no dito dia quorenta e seis c.ºs de picote dous panos a cento e setenta pagou trezentos noventa hû rs/ § elle no dito dia vinte c.ºs de picote diguo de vinte quatreno preto a trezentos quorenta rs / trezentos quorenta rs/
§ elle ê ojto de majº vinte c.ºs de palmilha a tre/zentos e sasenta rs pagou trezentos e sasenta rs /
§ elle ê treze de majº vinte dous c.ºs de palmilha / a trezentos sasenta rs pagou trezentos noventa / he seis/
§ elle ê dezoito de majº sinquoêta ojto c.ºs de picote / por dous panos a cento sasenta pagou quatro / centos satenta ojto rs /
§ elle no dito dia quinze c.ºs de verdezo a trezentos / he quorenta rs pagou duzentos sinquênta sinqº rs /
§ elle ê dezaseis de setenbro quinze e os de ponbinho / a trezentos dez pagou duzentos trinta e dous rs / E no dito livro da R.cta desta cassa não estavão / mais adicões q ho dito goncalo Vaaz de Covilhan / despachase q as quatorze q vão escritas nestas / duas laudas as quaes treladej do dito livro / a que me Reporto ê Lixª  xj dag.to 1585/   
                                   a)  Jrº Freire

Certidões que o Réu deu em pna de sua defeza  

Jeronjmo freire escrivão da casa da sisa dos panos / desta cidade de lixª faço saber aos que esta / certidão virem que goncalo vaz de covilhan / despachou ho ano pasado de setenta sete nesta / cassa os panos/ abaixo decrarados --- S ---
§ ê onze de setrº dous c.ºs de fradenho a duzêtos / e sasenta cº pagou       416/
§ ê treze do dito trinta hû c.º de saragoça a trezentos v.te / pago             496/
§ ê dezoito do dito por seu paj ho L.do fernão vaz v.te / dous c.ºs de picote verde a duzentos rs  o       220/
§ ê v.te do dito sasenta quatro c.ºs de saragoça A / duzentos noventa cº  928/ 
§ ê vinte tres do dito cento doze c.ºs de picote A / a cento noventa rs   1069/
§ ê v.te tres do dito v.te sinqº c.ºs de picote A cento / he noventa cº   237 1/2/
§ ê v.te quatro do dito per seu paj ho L.do fernão vaz / sinquoêta sete c.ºs de v.te quatreno branqº a du/zentos v.te   627/
§ ê v.te quatro do dito trinta quatro c.ºs de v.te qua/treno branqº a du/zentos v.te 374/
§ ê v.te quatro do dito plo dito seu paj v.te sinqº c.ºs de v.te quatreno branqº a du/zentos v.te    275/
§ ê v.te seis do dito plo dito seu paj trinta hû c.º / de v.te quatreno branqº a du/zentos v.te   341/
§ no dito dia v.te hû cº de saragoça a cento novêta rs   194/
§ no dito dia quatorze cº mais ao preço  133/
§ ê v.te sete do dito dezasete cºs de saragoça A / trezentos rs cº   290/
§ ê v.te sete do dito por seu paj trinta c.ºs de pano / preto a duzentos sasenta rs o cº 390/
§ ê trinta do dito plo dito seu paj trinta / dous c.ºs de v.te quatreno preto a duzentos sasenta 416/  
§ ê trinta do dito plo dito seu paj v.te / dous c.ºs de pano / preto a duzentos sasenta rs    286/
§ ê sete doutubro v.te hû c.ºs de fradenho a cento / sinquoêta cº  157/
§ ê oito do dito treze c.ºs de picote a cento ojtenta / o cº  117/
§ ê nove do dito por g.ço frz trinta ojto c.ºs de saragoça a trezentos rs 570/ 
§ no dito dia doze c.ºs de picote a cento ojtenta  108/
§ ê quatorze do dito sinquoêta c.ºs de picote a cento ojtenta / o cº 450/ 
§ ê quinze do dito plo dito seu paj trinta / tres c.º de pano a duzentos dez 346/  
§ ê quinze do dito trinta e sinqº c.º a du/zentos quorenta rs    320/§ ê dezasete do dito por Jacome Roiz botiquaj/ro trinta hû c.º de mourisqº a duzêtos / sasenta    403/
dos quais panos o dito g.lo vaz plo pagou / os dr.tºs a S. A. na dita cassa e não / achei no dito livro a que me Reporto mais / panos q ho dito g.lo vaz de covilham / despachase/ ê Lixª oje x de outubro 1585/           
                                    a)  Jjrº Freire 

Jeronjmo Frejre escrivão da casa da sisa dos panos / desta cidade de lixª faço saber aos que esta certidão / virem que Corj ho L.rº da R.ctª desta cassa / do anno de setenta e seis e nelle não achej / despachar G.ço Vaz de Covilhan mercadoria alguã / no dito anno ao qual livro me Reporto e por / meus S.res êcezidores ( sic ) pedirem esta sertidão lha / pasej ê lixª ao prim.ro doutubro 1585 / Jjrº Freire./
Gravura da época: o Rossio com o palácio dos Estaus
(o palácio da Inquisição) ao fundo
O Rossio hoje: ao fundo o Teatro Dona Maria II 

     Em 18 de Janeiro de 1586 é considerado católico por algumas testemunhas.
     A 1 de Junho de 86 ouve a sua sentença: “Ir ao auto-de-fé com vela acesa na mão, cárcere a arbítrio”.
     No dia 26 de Setembro de 1586 o processo de Gonçalo Vaz na Inquisição é dado por terminado e Gonçalo Vaz solto. Não se encontrou nenhuma informação da data da morte de Gonçalo Vaz.
 A mulher, Leonor Roiz,(3) também foi presa pela Inquisição, quando o marido, mas só termina o seu processo em 1588.

Notas dos editores – 1) Já referido  neste blogue http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/05/covilha-lista-dos-sentenciados-na_27.html sob o nº 100 da nossa Lista dos Sentenciados e em:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/05/covilha-contributos-para-sua-historia_28.html a propósito da história dos Lanifícios.
2) Cício Nunes de Albuquerque foi provedor da Misericórdia da Covilhã.
3)  Leonor Roiz é a número 99 na nossa lista dos Sentenciados:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/05/covilha-lista-dos-sentenciados-na_27.html

Publicações neste blogue sobre o processo de Gonçalo Vaz:


Publicações do nosso blogue: