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sábado, 1 de agosto de 2015

Covilhã - Memoralistas ou Monografistas XVIII


Continuamos hoje a publicar os monografistas da Covilhã, começando com algumas reflexões de Luiz Fernando Carvalho Dias já publicadas neste blogue.
        
“Convém enumerar os autores de monografias da Covilhã, os cabouqueiros da história local, aqueles de quem mais ou menos recebi o encargo de continuá-la, render-lhes homenagem pelo que registaram para o futuro, dos altos e baixos da Covilhã, das suas origens, das horas de glória e das lágrimas, dos feitos heróicos e de generosidade e até das misérias dos seus filhos, de tudo aquilo que constitui hoje o escrínio histórico deste organismo vivo que é a cidade, constituído actualmente por todos nós, como ontem foi pelos nossos avós e amanhã será pelos nossos filhos. […]

Esta memória histórica que continuamos a apresentar, já publicada no volume I da “História dos Lanifícios” (Documentos), de Luiz Fernando Carvalho Dias, e designada por Memória das Fábricas da Covilhã, é cópia do original existente no Museu Britânico, que o investigador obteve, obsequiosamente, através dos irmãos William e Anthony Hunter, penteadores de Bradford na década de 50 do século passado, que conheceu em Lisboa, no Congresso da Lã, realizado em 1953.
A Memória, de autor desconhecido, foi citada, sem crítica, por diversos escritores, entre os quais J. Lúcio de Azevedo, mas nunca fora publicada, apesar do seu indiscutível interesse para a história económica, certamente, por a cópia conhecida da Biblioteca Nacional de Lisboa se encontrar deteriorada em longas passagens.
Quando o autor entregou à Federação Nacional dos Industriais de Lanifícios, no ano de 1939, o trabalho de que fora encarregado de elaborar, designado por “Aspectos Sociais da Indústria dos Lanifícios e Subsídios para uma Monografia Histórica” (Relatório duma inquirição 1937-1938), incluiu alguns fragmentos desta Memória, segundo a versão existente na Bibioteca Nacional de Lisboa. Sobre ela refere: “que dá indicações muito interessantes não só sobre a fabricação dos panos, mas também sobre a psicologia dos industriais, mercadores e operários que a ela se dedicavam, no século XVIII. De certo modo, certos aspectos desta monografia são como que um inquérito industrial à indústria desse tempo e uma base de informação para a grande reforma pombalina.” 
   
O Arco do Quartel que une dois dos espaços da Universidade da Beira Interior na rua
 Marquês d' Ávila e Bolama (Antigo Quartel de Caçadores 2  e antes Real Fábrica de Panos)

MEMÓRIA  DAS FÁBRICAS DA COVILHÃ
[…]

Estas são as providências que me parecem pôr em lembrança; se bem que me parece que nada basta para se evitarem tantas desordens, roubos, falsidades, e enganos, que cotidianamente se estão vendo e experimentando; o que só o poderia ser com um novo estabelecimento, com crédito da Nação, e das mesmas fábricas, utilidade dos vassalos, e do Real Erário; mandando-se estabelecer na dita vila uma Companhia Geral, tanto para a compra de todas as lãs, como para o fabrico dos mesmos panos, e todas as mais fazendas da lã.
Bem vejo a dificuldade que há em se criarem Companhias neste reino, tanto pela pobreza de ânimo dos vassalos, quanto pela renitência dos mes­mos, por não quererem sujeitar o seu cabedal à administração alheia, sem atenderem, que só por meio das Companhias se adiantam os mesmos vassalos, e se conservam as manufacturas e lavor delas, em reputação.
Esta porém me parece terá menos dificuldade, se Sua Majestade for servido tomá-la debaixo da sua Real Protecção; concedendo-lhe outrossim as três condições seguintes, com as quais se animarão todos a entrar com acções, que bem bastem para o fundo da mesma Companhia.
A primeira que as acções dela serão privilegiadas com o privilégio de Morgado. Segunda: que Sua Majestade é servido mandar entrar todos os anos adiantado para a caixa da dita Companhia, com o importe dos far­damentos das suas tropas, tanto das do reino como das conquistas; com o que se animará muito o fundo da mesma, sem prejuízo da real fazenda, mais que o desembolso de ser adiantado, ou no fim da entrega do mes­mo fardamento, sendo com utilidade dos soldados, pela melhoria dos panos, que deve mandar fazer a mesma Companhia. Terceira: que Sua Majes­tade é servido mandar, que nenhum criado de servir, nem escravos, e oficiais de ofícios mecânicos, se vistam senão de panos dos fabricados no reino. E suposto pareça que não bastarão os fabricados para tanta gente veja-se a conta seguinte:

Teares que há na vila da Covilhã, e seus distritos; e na de Manteigas, distante 3 léguas da dita vila:

......................... Dentro da vila da Covilhã       72
......................... Sarzedo  ...........................        4
......................... Verdelhos ........................ .       1
......................... Manteigas .........................      28
......................... Aldeia do Mato..................        5
......................... Aldeia do Souto.................        2
......................... Belmonte............................      18
.... .................... Areias (sic = Orjais) ………       1
..........................Teixoso................................     46
                                                                          177
                                                                                  
Cada oficial de tecelagem, tecendo mal, tece duas teias cada semana; e tecendo bem, uma e meia, que vem a ser 6 em cada mês; porém atendendo aos dias santos que há, sem embargo de no bispado da Guarda estarem dispensados só com a obrigação de ouvirem missa, se faz a conta a cinco peças cada mês, a cada tear, que multiplicadas por 177 teares, ficam sendo 885 teias em cada um mês, e cada um ano 10.620, que a 40 côvados cada uma, são 424.800 côvados, que repartidos a 7 côvados cada vestido importam 60.685: além de outros teares que há dispersos por outros lugares, de que se não faz conta; nem também dos que só tecem panos de varas; e dos muitos que se podem aumentar, vendo que há saída ao mesmo lavor.
Que a Companhia terá só o privilégio de comprar as lãs adonde quer que as houver, pelos preços acima referidos, sem que nenhuma outra pessoa as possa comprar, por se evitarem os monopólios, que delas se fazem; e também o extrairem-se para fora do Reino.
Que a mesma Companhia largará das suas mãos as lãs aos traficantes dos mesmos panos pelo mesmo preço que lhe custarem, postas na casa da sua administração, só com o avanço de 5 por cento pelo desembolso.
Que todos os panos que se fabricarem serão levados à casa da mesma Companhia aonde se pagarão em dinheiro de contado aos mesmos traficantes pelo seu justo valor, e na forma que pela mesma Companhia lhe for deter­minado, descontando-lhe o importe, que corresponder à lã que tiverem levado fiada.
Que ninguém poderá comprar panos de qualquer qualidade que sejam, que não seja a mesma Companhia; e que esta os mandará tingir nas cores que lhe parecer; e que só ela os poderá vender, e repartir pelas terras deste Reino. E como há vários mercadores, que andam pelas feiras vendendo a retalho e atacado: estes poderão comprar os que quiserem à mesma Companhia ficando a esta vedada a Cidade de Lisboa, e a do Porto, adonde terão armazéns para poderem vender por junto, e não a retalho, pagando os direitos que deverem nas alfândegas das respectivas duas cidades
E porque não é justo se prejudique o Real Erario, se deve adiantar a sisa particular; e em lugar dos 600$000 rs. acima declarados, seja aquela porção que melhor parecer, em razão da maior porção dos panos, que se há-de gastar; além dos que entrarem nas referidas duas cidades que esses sempre devem pagar os direitos que deverem nas alfândegas delas; e os mais correrão livres pelas terras do Reino, como é costume debaixo do selo que deve ter a Companhia; e que todos os mais que se acharem sem o dito selo, serão tomados por perdidos a favor da mesma; e que esta não poderá vender a retalho coisa alguma, mas só em peça, e partidas.

Pauta dos preços, que devem ter os panos em branco, conforme a sua qualidade:
........................ Pano dozeno           de 1.200 fios      400 (rs.)
 .......................   "    quatorzeno     de 1.400 fios       480
 .......................   "    dezocheno      de 1.800    "        600
 .......................   "    vinteno           de 2.200    "        800
 .......................   "    vintequatreno de 2.400 fios    1.000

Pano jardo mesclado; conforme sua qualidade se ajustará.

                             Baetas
   Baeta quatorzena ........................ 300
       "    dozochena ......................... 400
       "    dita fina ............................. 550

                         Preço das tintas
Que actualmente se dão
................................. Azul ferrete em pano                  100
................................. Baeta da mesma cor                      80
................................  Azul, meia cor em pano                60
................................. Baeta da mesma                            40
................................. Pano cor de prata                          40
................................. Baeta da mesma                            30
................................. Pano encarnado com ruiva          100
................................. Baeta da mesma                             60
................................. Pano vermelho com pau Brasil      50
..................................Baeta do mesmo                             30
..................................Pano amarelo de lírio                     50
..................................Baeta do mesmo                             30
................................. Pano cor de ouro, com ruiva          80
................................. Baeta da mesma                             60
................................. Pano escuro, com ruiva                  80
................................. Baeta da mesma                             50
................................. Pano escuro, sem ruiva                  50
................................. Baeta da mesma                             30
................................. Pano verde subido                          80
................................. Baeta do mesmo                             60
................................. Pano verde claro                             70
................................. Baeta do mesmo                              50
................................. Pano preto, que leva azul              100
................................. Baeta do mesmo                              60
................................. Pano roxo, com ruiva                    150
................................. Sem ruiva                                       100
................................. Baeta da mesma, com ruiva           80
..................................Sem ruiva                                         60

Dizem os Procuradores do Povo desta vila que para certos requerimentos com Sua Majestade lhe é necessário que o escrivão da Câmara ou qualquer dos do geral em seu impedimento lhe passe por certidão o teor de uma provisão que se acha no livro do registo pela qual é proibido lavrar a chapa da serra desde o Penedo dos Livros até ao Picoto do Monteiro pelo prejuízo que se segue a todos os engenhos da ribeira, chãos e pomares, e porque esta se não pode passar sem despacho
Pª V. M.º Sr. Dr. Juiz de fora seja servido mandar passar a dita certidão de tudo o. que constar em modo que faça fé,
E. R. M.
P. do constar
    Tavora
Manuel Coelho de Almeida escrivão do público judicial que em esta notável Vila da Covilhã e todo seu termo sirvo por provisão de Sua Majestade que Deus guarde. Certifico e porto por fé em como vendo o livro das provisões tiradas da Torre do Tombo pelo Guarda-mór dela João Couceiro de Abreu e Castro a folhas dele noventa e quatro se acha a provisão cujo teor é o seguinte = Eu El Rei faço saber aos que este alvará virem que os procuradores da Vila de Covilhã por ela enviados às Côrtes que fiz na Vila de Tomar me enviaram pedir nos capitulas particulares que nas ditas cortes me presentaram houvesse por bem que se não lavrasse a chapa da serra que está entre as ribeiras que cercam a dita vila desde o Penedo dos Livros até o Picoto do Monteiro porque lavrando-se com a pedra e areia que corria da dita serra se fazia notável prejuizo a muitos engenhos de moinhos azenhas pisões lagares e a muitos chãos de regadio pomares hortas e a muitas árvores de fruto sendo a dita lavrança da serra de muito pouco proveito e pelas ditas razões de muito pouco prejuizo digo de muito prejuizo para o campo de Santarém e barra desta Cidade de Lisboa e visto por mim seu requerimento antes doutro despacho mandei do caso tomar informação pelo provedor da Comarca ao que satisfez e vista sua informação e parecer e as causas que os ditos procuradores alegaram hei por bem e me praz que as terras da serra dentro no dito limite do Penedo dos Livros até o Picoto do Monteiro de que fazem menção se não lavrem e não se podendo os donos das terras que hajam de ser lavradas aproveitar delas em outra coisa se taxará por homens sem suspeita a perda que nisso recebem e lhe satisfarão soldo livra o que lhe for taxado os donos das azenhas, engenhos, pisões e propriedades que disso recebem proveito e mando às justiças oficiais e pessoas a quem o conhecimento disto pertencer que cumpram e guardem e façam inteiramente cumprir e guardar este alvará como nele se contém sem dúvida nem embargo algum que a isso seja posto. Pedro da Costa a fez em Lisboa a três de Julho de mil e quinhentos e trinta e dois (l)./ / E não di­zia mais no registo do dito alvará que aqui foi trasladado a requerimento dos sobreditos que lhe mandei dar nesta com o selo de minha Chancelaria a que se dará tanta fé e crédito como ao dito livro donde foi tirada e esta com ele concertada; dada em Lisboa ocidental a doze de Julho, El-Rei nosso Senhor o mandou por João Couceiro de Abreu e Castro Guardamor da Torre do Tombo Faustino de Azevedo a fez ano de mil setecentos e dezanove e vai escrita em três meias folhas de papel com esta ……….de Manuel da Silva a fez escrever = João Couceiro d'Abreu e Castro Pagou do selo das armas = e não continha em si mais o dito alvará que eu sobre dito escrivão aqui passei por certidão por impedimento do da Câmara e esta conferi e concertei com o próprio a que me reporto em Covilhã aos dezanove de Novembro de mil e setecentos cinquenta e oito e eu Manuel Coelho de Almeida o subscrevi.
Manuel Coelho de Almeida Concertado com o próprio livro por mim      Manuel Coelho de Almeida

Notas:

(1)     Esta data deve estar errada, embora do registo da Câmara da Covilhã assim conste. Parece que deveria ser 1582. A Provisão seria de Felipe I. Nunca poderia ser de D. Manuel, mesmo com data de 1532, por nesse ano reinar D. João 3º.

Nota dos editores - A fotografia é da autoria de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias.

Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:

Publicações neste blogue sobre os monografistas covilhanenses:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/05/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/04/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/03/covilha-memoralistas-ou-monografistas-xv.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/01/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/12/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/11/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/10/covilha-memoralistas-ou-monografistas-xi.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/08/covilha-memoralistas-ou-monografistas-x.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/06/covilha-memoralistas-ou-monografistas-ix.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/05/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/03/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/01/covilha-memoralistas-ou-monografistas-vi.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2013/12/covilha-memoralistas-ou-monografistas-v.html

sábado, 30 de maio de 2015

Covilhã - Memoralistas ou Monografistas XVII

Continuamos hoje a publicar os monografistas da Covilhã, começando com algumas reflexões de Luiz Fernando Carvalho Dias já publicadas neste blogue.
        
“Convém enumerar os autores de monografias da Covilhã, os cabouqueiros da história local, aqueles de quem mais ou menos recebi o encargo de continuá-la, render-lhes homenagem pelo que registaram para o futuro, dos altos e baixos da Covilhã, das suas origens, das horas de glória e das lágrimas, dos feitos heróicos e de generosidade e até das misérias dos seus filhos, de tudo aquilo que constitui hoje o escrínio histórico deste organismo vivo que é a cidade, constituído actualmente por todos nós, como ontem foi pelos nossos avós e amanhã será pelos nossos filhos. […]

Esta memória histórica que continuamos a apresentar, já publicada no volume I da “História dos Lanifícios” (Documentos), de Luiz Fernando Carvalho Dias, e designada por Memória das Fábricas da Covilhã, é cópia do original existente no Museu Britânico, que o investigador obteve, obsequiosamente, através dos irmãos William e Anthony Hunter, penteadores de Bradford na década de 50 do século passado, que conheceu em Lisboa, no Congresso da Lã, realizado em 1953.
A Memória, de autor desconhecido, foi citada, sem crítica, por diversos escritores, entre os quais J. Lúcio de Azevedo, mas nunca fora publicada, apesar do seu indiscutível interesse para a história económica, certamente, por a cópia conhecida da Biblioteca Nacional de Lisboa se encontrar deteriorada em longas passagens.
Quando o autor entregou à Federação Nacional dos Industriais de Lanifícios, no ano de 1939, o trabalho de que fora encarregado de elaborar, designado por “Aspectos Sociais da Indústria dos Lanifícios e Subsídios para uma Monografia Histórica” (Relatório duma inquirição 1937-1938), incluiu alguns fragmentos desta Memória, segundo a versão existente na Bibioteca Nacional de Lisboa. Sobre ela refere: “que dá indicações muito interessantes não só sobre a fabricação dos panos, mas também sobre a psicologia dos industriais, mercadores e operários que a ela se dedicavam, no século XVIII. De certo modo, certos aspectos desta monografia são como que um inquérito industrial à indústria desse tempo e uma base de informação para a grande reforma pombalina.” 
   
MEMÓRIA  DAS FÁBRICAS DA COVILHÃ
[…]

E como da vila de Manteigas, e outras diversas partes, se introduzem panos em enxerga e os vendem ao terço aos traficantes deve ser proibida esta introdução pelo prejuízo, que se segue não só às fábricas da dita vila mas também à Real Fazenda de Sua Magestade; porque pagando-se na mes­ma vila 600$000 rs. de sisa particular, pelos panos correrem livres pelo Reino com o selo que há nela; e como na de Manteigas não há este privilégio, por lograrem do da dita vila é que metem os panos e os vendem ao terço; e sendo os teares de Manteigas quase todos marcados para panos catorzenos, os quais depois da dita introdução, e apisoados, nas tendas os precham de sorte, que os fazem da marca dezochenos: eis aqui terceiro prejuízo para os que os gastam; porque suposto tenham a largura ficam de menos qualidade para a duração.

Para se evitar esta desordem, se deve ordenar ao Juiz c.onservador que de tempos, em tempos, que bem lhe parecer, dê uma correição pelas tendas, pisões e casas dos traficantes e os mais que lhe parecer e achando dos panos referidos, os tome por perdidos, ficando duas partes do valor para a Real Fazenda e a outra para o denunciante, ou oficiais do mesmo Conservador.
Também se deve proibir que nenhum dos traficantes dos panos pague aos obreiros o seu trabalho, com géneros, mas sim em dinheiro de contado, para cada um dele usar como lhe parecer; porque muitos dos traficantes costumam comprar vários géneros comestíveis; e quando o obreiro pede a féria, dizem não tem dinheiro, que se querem este ou aquele género lho darão; e o mais é, que se o tem comprado por cinco, lho dão por dez; e o obreiro por remir a sua necessidade aceita o que lhe dão, e vai vendê-lo por metade para, comprar (o que) o de que carece, como agora próximamente sucedeu, que um clérigo, que também fabrica, seus panos em sua própria casa, comprou uns poucos de queijos na Feira de Santiago, próximo passado, que se faz na dita vila, a 120 cada um, e os deu em pagamento a um obreiro a 200 rs., o qual os foi vender para se remediar a 100 rs.; e destas ladroeiras há muitas, como me constou por informação dum sacerdote, além de outras muitas pessoas.
Também se deve proibir com penas graves, que ninguém lave lãs, ou outras coisas algumas por cima dos pisões, porque se não suje a água que vem aos mesmos, por ser muito prejudicial vir a água turva, quando os panos se andam apisoando, por se não introduzir nos mesmos panos o lôdo, que traz a mesma água na ocasião das ditas lavagens.

Pisão Novo e Ribeira da Goldra

A água da Ribeira da Goldra no Largo do Rato

Ao longe a Calçada do Biribau

E porque a ribeira da parte do Sul, chamada dos Pisões, tem um sitio chamado o Bribau, adonde se pode fazer lavadouro suficiente para se lavarem as mesmas lãs, por ser também excelente sítio para se enxugarem depois de lavadas fazendo-se os pios que forem necessários e também uma casa em que se guardem as lãs antes de lavadas, e. depois de lavadas, enquanto seus donos, não as levam para casa, com a comodidade que for precisa para se aquentarem as águas para as lavagens: e como esta despesa é em utilidade dos traficantes, deve fazer-se por sua conta, por uma derrama, conforme a quantidade de panos, que obrar cada um.

Antigas fábricas na ribeira da Carpinteira

Antigo estendedouro junto da ribeira da Goldra

Na ribeira da parte do norte, chamada da Carpinteira, ou da Fábrica, por baixo da mesma, também se pode fazer outro lavadouro muito melhor, por ter mais águas, e mais limpas, e frias, em cujo sítio há um moinho, que algum dia foi pisão, o qual se poderá comprar para servir de depósito das lãs, na forma que fica dito, que não haverá dúvida, em se vender por limitado preço; adonde também se podem fazer dois pios excelentes, tendo muito bom terreiro para enxugar: e para se evitarem contendas de todos quererem lavar ao mesmo tempo, será justo que as chaves das ditas casas estejam na mão do juiz vedor para este as entregar por distribuição a quem tocar.
Também se podem fazer vários lavadouros, no caso de se julgarem precisos, na Ribeira do Canhoso, meia légua distante da dita vila na qual não há impedimento algum para se fazerem.
Todos os obreiros do tráfico da lã se queixam dos limitados ordenados que lhe dão os traficantes; e o certo é que têm razão; e por isso parece se deve regular o que cada um deve ganhar, segundo a sua ocupação; e que do que se lhe arbitrar, senão possa abaixar, ficando no arbítrio dos trafi­cantes o poderem dar mais, conforme a obra que mandarem fazer.
Ao carduçador se dão 80 rs. por cada 20 arrateis; e se lhe deve dar um tostão: ao cardador em lugar de 30 rs. por cada arratel, 40 rs.; à fiadeira o mesmo; ao tecelão em lugar de 800 rs. por cada pano, dez tostões; ao pisoeiro o mesmo; ao tosador de segunda em lugar de 150, dois tostões; e desta sorte todos ficarão satisfeitos.
Também se faz muito preciso para a perfeição deste lavor, haverem nas fábricas prensas bronzeadas, para darem melhor lustro aos panos e também para ficarem mais lisos, o que não pode ser com tábuas, como o costumam fazer.
Também se faz muito preciso mandarem-se vir famílias estrangeiras para ensinarem, e aperfeiçoarem os portugueses, assim de cardar, fiar e tecer; tintureiros para ensinarem a dar as tintas finas; e estambradores para as baetas.
Temos em Portugal várias tintas como é a grãa e a cochonílha., da qual se não usa, por se não saber preparar; o que tudo se pode fazer havendo quem ensine. 
(Continua)


Nota dos editores - As fotografias são da autoria de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias.

Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:

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http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/04/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/03/covilha-memoralistas-ou-monografistas-xv.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2015/01/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/12/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/11/covilha-memoralistas-ou-monografistas.html
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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Covilhã - Memoralistas ou Monografistas XVI

     Continuamos hoje a publicar os monografistas da Covilhã, começando com algumas reflexões de Luiz Fernando Carvalho Dias já publicadas neste blogue.
        
“Convém enumerar os autores de monografias da Covilhã, os cabouqueiros da história local, aqueles de quem mais ou menos recebi o encargo de continuá-la, render-lhes homenagem pelo que registaram para o futuro, dos altos e baixos da Covilhã, das suas origens, das horas de glória e das lágrimas, dos feitos heróicos e de generosidade e até das misérias dos seus filhos, de tudo aquilo que constitui hoje o escrínio histórico deste organismo vivo que é a cidade, constituído actualmente por todos nós, como ontem foi pelos nossos avós e amanhã será pelos nossos filhos. […]

Esta memória histórica que continuamos a apresentar, já publicada no volume I da “História dos Lanifícios” (Documentos), de Luiz Fernando Carvalho Dias, e designada por Memória das Fábricas da Covilhã, é cópia do original existente no Museu Britânico, que o investigador obteve, obsequiosamente, através dos irmãos William e Anthony Hunter, penteadores de Bradford na década de 50 do século passado, que conheceu em Lisboa, no Congresso da Lã, realizado em 1953.
A Memória, de autor desconhecido, foi citada, sem crítica, por diversos escritores, entre os quais J. Lúcio de Azevedo, mas nunca fora publicada, apesar do seu indiscutível interesse para a história económica, certamente, por a cópia conhecida da Biblioteca Nacional de Lisboa se encontrar deteriorada em longas passagens.
Quando o autor entregou à Federação Nacional dos Industriais de Lanifícios, no ano de 1939, o trabalho de que fora encarregado de elaborar, designado por “Aspectos Sociaisda Indústria dos Lanifícios e Subsídios para uma Monografia Histórica” (Relatório duma inquirição 1937-1938), incluiu alguns fragmentos desta Memória, segundo a versão existente na Bibioteca Nacional de Lisboa. Sobre ela refere: “que dá indicações muito interessantes não só sobre a fabricação dos panos, mas também sobre a psicologia dos industriais, mercadores e operários que a ela se dedicavam, no século XVIII. De certo modo, certos aspectos desta monografia são como que um inquérito industrial à indústria desse tempo e uma base de informação para a grande reforma pombalina.” 
   
MEMÓRIA  DAS FÁBRICAS DA COVILHÃ
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Quanto ao clima, é este o mais singular para a natureza, que se encontra nas terras e povoações vizinhas; os ares são muito puros e saudáveis porque a mesma Serra a defende: No tempo do Inverno se experimentam bastantes frios pela aspereza de alguns ventos rijos, e também nela em alguns dias cai bastante neve, que se conserva a ela contígua dilatado tempo: as águas porém nas fontes são temperadas e parece que nada participam deste rigor; neste tempo costuma haver alguns pleurizes, mas pouco malignos: No Verão se não experimenta calor demasiado, porque na intensão do sol principiam a sombrar a maior parte das ruas; e o mesmo vento brando que de ordinário as refresca; nos meses porém de Julho, Agosto e parte de Setembro, se experimenta a maior calma; porque passado o dia de S. Lourenço se lança o fogo nos campos da Idanha, Castelo Branco, Penamacor e Raia, e com ele ficam os ares tão incendidos que alguns dias se não podem satisfazer os corpos da respiração; nesta quadra; e na do Outono algumas sezões se padece, mas são de fácil cura, porque com a quina se rebatem; e ainda que muita seja, não faz nos corpos aquele efeito maligno que em outras terras padecem, o que se atribui à qualidade das águas, que dissolvem.
Os frutos que se produzem são excelentes e saborosos; tem vinhos maduros em muita abundância; azeite, e castanhas, feijões, milho, grãos, lentilhas; centeio e trigo menos; porém não falta porque continuamente está entrando dos campos, que só destes dois géneros criam. Tem abundância de fruta temporã; de maçã e pera, e muito mais da serôdia de diferentes castas; as carnes que se criam são as de melhor gosto, que as de qualquer outra parte, e também delas é mimosa; assim como também de peixe do mar, pelo grande carreto que a ela fazem os almocreves, deste doutros géneros, que nela se não produzem, como é, fruta de espinho; e posto que em alguns quintais se criam estas árvores, ordinàriamente se destroiem com os ventos de inver­nos, e neves, e geadas; e o fruto que escapa é pouco e menos gostoso, produ­zindo nas estações do ano os mais frutos, sem excepção; também nela se não criam repolhos, espinafres e outras ervas mimosas.
Pelo que fica dito e ponderado é a dita Vila um dos melhores países na Beira Alta, porque nela se encontram as três circunstancias que fazem qualquer habitação gostosa: como é, bom terreno, saudável clima e muito abundante de águas e mantimentos.


A Serra da Estrela, parecendo tão áspera pela sua eminência, tem no alto dela, em distância da dita vila, quase duas léguas, campinas muito dilatadas; e tão assente o terreno, que nele, no tempo de Verão, se podem acampar mais de 8.000 homens; produz ervas de muito préstimo em tanta abundância, que os gados que nelas pastam todos os anos, são mais de 40.000 cabeças, desde a direitura de Unhais até à Vila de Gouveia. Também no alto da mesma serra há quatro lagoas; duas da parte do Norte, e duas do do Sul: estas são as mais famosas especialmente a chamada Escura, que se acha metida em rochedo, de todos os lados, fazendo figura como circular:
Da parte do Nascente tem um eminente penhasco superior aos dos mais lados; e o que mais nela se admira, é a profundidade e contínuo movimento da água, porque não podendo ser açoutada dos ventos, se move como as ondas do mar, fazendo retrocesso para os lados: terá de círculo, mil e seiscentas varas. A outra imediata tem menos largura e maior comprimento e desta nasce o Rio Alva; na mesma serra nasce além deste o Rio Zêzere que vem passar distante da dita vila uma légua.



 Também nela pôs o Autor da natureza três eminentes penedos, a que chamam os Cântaros; é o do meio tão alto que do seu nascimento (da penha), custa a compreender o ponto em que acaba, com a vista; os outros dois causam a mesma admiração, pelo que respeita à sua formatura; nele se cria em abundância a erva chamada genciana, que os pastores pela sua brutalidade vão arrancar nas fráguas, com evidente perigo da sua vida, de que parece não fazem caso.
O firmamento das abas desta serra é uma terra safra e areenta, saibrosa, movediça, de sorte que só cria mato rasteiro, como giesta, urze, aroeira e outros semelhantes. Deste mato é que se costuma usar nas fábricas, para se aquentarem as caldeiras, por fazer labareda, que com brevidade fervem, em menos prejuízo das mesmas caldeiras, em que se gasta uma grande porção de cargas do mesmo mato em cada dia.
Também nas mesmas abas da serra se semeiam vários pedaços de terra fazendo suas roças, e queimadas de quatro em quatro anos, em que semeiam alguns alqueires de centeio.
Esta cultura que se faz na dita serra é de pouca utilidade e maior o prejuizo que faz às fábricas quando chove; porque como a terra se acha bolida e sem mato que a prenda, com as enchurradas, toda acode às ribeiras; e como os pisões trabalham em todo o tempo, esta mesma enchurrada, com a terra que traz, se introduz nos panos, e os corta, em prejuízo grande do mesmo lavor.
Têm mais o prejuízo as mesmas fábricas, que gastando continuadamente muito deste mato para o ministério das caldeiras, como fica dito, com a dita cultura, e queimadas que se fazem, já as mesmas experimentam grande falta, e lhes custa mais cara cada carga, por se ir buscar muito mais longe.
Faz mais prejuízo a dita cultura, em que como as ribeiras que descem da mesma serra, todas se metem no Rio Zêzere, e este, em Punhete no Rio Tejo, toda a areia que desce da mesma serra, se introduz nos campos de Santarém; e por isso se acham tão areados; e da mesma forma o mesmo Tejo de Punhete para baixo, em prejuízo da navegação tão necessária. Há vinte e cinco dias que agora tem chovido continuamente e sempre observei virem as ditas ribeiras turvas e cheias da mesma areia, sem que nunca cor­ressem claras, por causa da dita cultura.
A estes mesmos prejuízos atendeu já o Senhor Rei Dom Manuel, que escrevendo à Câmara da dita vila, no ano de 1532 (sic), a carta que consta da certidão junta, pela qual manda proibir a dita cultura, e que havendo pre­juízo de algum dos donos das testadas, se faça derrama pelos engenhos e se pague aos proprietários delas.
Porém parece que não deve ser assim; mas antes que se deve totalmente probir a dita cultura, atendendo-se aos graves prejuízos que se seguem; man­dando-se ordem ao juiz de fora da dita vila de que se informe quem são os proprietários, fazendo-lhes apresentar os títulos que tem das mesmas testa­das, que poderá ser sejam muitos intrusos; e achando que são legítimos, cada um dentro da sua demarcação plante castanheiros, aonde se dão sin­gulares; e desta sorte ficarão sem pensão os donos das fábricas, e mais engenhos úteis ao comum; e os proprietários das testadas percebendo o fruto todos os anos; o que na cultura da sementeira não tem senão de quatro em quatro e de cinco em cinco.
Com esta providência se evita o prejuizo dos panos nos pisões, a grande falta de lenha para os tintes, o grande prejuizo da navegação do Tejo, e campos de Santarém; e sem nenhum dos verdadeiros proprietários das testadas da serra.            .
Nesta vila há duas parcialidades de traficantes de panos; uns que são cristãos novos, e outros velhos: estes, mais verdadeiros, e por isso de menos cabedais e menos em número: aqueles, em mais número, e de maior cabedal, pelas falsidades e roubos que actualmente estão fazendo na manufactura, e lavor dos mesmos panos; de que tem resultado perderem-se os créditos das ditas fábricas, em utilidade dos estrangeiros pelo consumo das suas fazendas.
É certo que na dita vila e suas vizinhanças, só cuidam em como hão-de enganar e roubar uns aos outros; pois cada um no seu ministério cuida do modo mais subtil de o prejudicar. De sorte:
Que o creador quando quer tosquear, faz o seu terreiro, e sendo obrigado a borrifá-lo levemente, para que o pó se não introduza na lã; em lugar de o borrifar põem-no em lama; tosquia sobre ela; e como a lã é como esponja chupa toda a humidade; aqui acrescenta umas poucas de arrobas, além da lama que se introduz nos velos, quando os fazem: na véspera que hão-de tosquear levam as ovelhas a uma ribeira e nela as molham; depois metem-nas em um alqueive; entram a assobiar-lhes; as ovelhas ao som do assobio a correr; levantam uma grande poeira, que se lhe introduz na mesma lã; eis aqui outras poucas de arrobas que acrescem.
Vai o regatão por casa dos creadores a comprar a mesma lã; e depois de comprada entra a carregá-la, fazendo as cargas de 8 arrobas; e quando chega a povoado a vendê-la, tem dez, porque sempre vem a dormir ao pé de uma ribeira, e aí toma uma corda de esparto, amarrada uma ponta em uma pedra; bota esta no meio da ribeira, e a outra ponta, furadas as sacas, a passa por dentro delas; entra o esparto a chupar a água, e a introduzi-la na mesma lã, além de molharem as bocas das ditas sacas; e desta sorte fur­tam também seu par de arrobas, além das que furtam os creadores; e quem o sente são os traficantes dos panos, porque devendo deitar cada arroba, depois de lavada dezoito e dezanove arrateis em lugar destes não deitam (síc) senão 13, 14 e 15 arrateis o que não sucederia, se não houvera aqueles roubos
Estes se poderiam evitar quando Sua Magestade fosse servido mandar proibir que nenhuma pessoa de qualquer qualidade que fosse, não comprasse lã por casa dos creadores, mas antes estes a trouxessem a vender ao povoado, que lhe parecesse, fazendo-se exame ao pé da balança da sua qualidade, na ocasião da venda; e achando-se-lhe algum vicio feito por malicia, serem castigados com as penas, que o mesmo senhor fosse servido; porque com esta providência se evitam os ditos roubos, e enganos, feitos em um género, que deve ser tratado com lizura, pela utilidade, que dele se segue ao Reino, no lavor dos panos.
E porque umas vezes sobem as lãs muito de preço, em prejuízo dos fabricantes; e outras descem em prejuízo dos creadores, seria útil, que tivessem um preço certo, de sorte que nem subissem de 2$400, nem descessem de 2$000, preços muito convenientes, tanto para os creadores, como para os fabrican­tes, pelas informações que tirei, tanto de uns como de outros; e desta sorte se livrariam os conluios que cotidianamente se experimentam nas vendas e compras deste género.
Também seria conveniente mandar Sua Magestade proibir que os donos das ervagens não possam levantá-las do preço por que antigamente se costumavam vender; e que nenhuma pessoa possa fazer delas o monopólio para as tornar a vender, com as penas que o mesmo senhor for servido.
Furtam os carduçadores; porque tendo de cada vinte arrateis, oitenta reis, por fazerem muitos pesos carduçam mal; além da que furtam, meten­do-a em si na ocasião em que estão trabalhando.
Furtam os cardadores; porque tendo em cada arratel que cardam, trinta reis por cardarem muitos, cardam mal, além da lã que furtam quando estão cardando.
Furta a fiadeira; porque suposto leva a lã de casa do fabricante pesada, e a entrega também depois de fiada, por peso, sempre furta; porque põem a lã em parte húmida, enquanto a não fia; e depois de fiada, toma uma bochecha de água, e com uma palha na boca borrifa a maçaroca pelo buraco do fuso e desta sorte a humedece; e além do que furta às vezes, entrega mais do que recebe.
Furta o tecelão, porque suposto que recebe o fiado por peso, e entrega o pano também por peso, de sorte que sendo costume levar cada teia 30 arra­teis de urdir, vinte e oito para tecer, logo ao urdir furtam aquela porção de fiado, que a sua ideia lhe arbitra; e o mesmo ao tecer, por serem os fiados diferentes; e para os panos terem a mesma quantidade de côvados, que é costume ter cada pano, não o apertam no tear; e por isso fica mais falsi­ficado; e para satisfazerem o peso do roubo, quando o vão desenrolando no tear, o deixam ir caindo em uma cova, que sempre está húmida e com lixo; e pela qualidade da lã, recebe a humidade; e pelo azeitado da mesma lã, o lixo e poeira; de sorte, que supre com estas duas subtilezas, o que furta, e o que entrega de mais no peso do mesmo pano.
É certo que todos os presos de cadeia da dita vila, e outras muitas pes­soas, que na mesma fazem imensidade de meias e outras que também fazem seus panos, não compram outra lã, se não a que furtam os ditos obreiros.
Para se evitarem estes furtos tão prejudiciais ao bem público em um lavor que se deve tratar com verdade, tanto para crédito do mesmo, mas também para a perfeição das mesmas fábricas; só se pode conseguir mandando-se ordem ao conservador delas para que todos os anos tire uma rigo­rosa devassa das pessoas que fazem meias, e das de suspeita, que fazem panos, das lãs furtadas, e averiguar a quem as compraram; e achando que são dos referidos obreiros, castigue tanto aos vendedores como aos compradores por­que ambos concorrem para o mesmo furto.
Furta o traficante; porque devendo levar cada pano de quarenta côvados, trinta arrateis a urdir, e vinte e oito a tecer; dá só 28 para urdir e 25 para tecer; e desta sorte ficam os panos mais estreitos e com menos corpo; e quando vão à tentada, puxam-nos com tal jeito, que ficam com a mesma largura, como se levassem a conta por inteiro.
Furta o pisoeiro no mal que apisoa os panos, que sendo estes em enxerga, de 60 covados e devendo ficar em 40, apisoam tão mal por apisoarem muitos e outras vezes porque os traficantes lhe dizem que querem covados, e não importa a qualidade, ficam os mesmos panos de 44 e 45 cavados; e o mesmo sucede aos das perchas e tendas.
Pelo Regimento das Fábricas, é obrigado o cardador a denunciar o carduçador por não escarduçar bem; a fiadeira, ao cardador, porque não cardou bem; o tecelão à fiadeira porque não fiou como devia; o pisoeiro ao tecelão; o da percha ao pisoeiro; o da tenda a da percha; mas nada disto se faz porque todos estão cúmplices no mesmo erro.
Para se evitarem todas estas desordens se deve ordenar ao juiz vedor, que faça em tudo observar o Regimento com as penas nele estabelecidas como é obrigado; e que o Juiz Conservador que pelo mesmo Regimento são os Juizes de Fora da mesma vila, tire uma devassa todos os anos do mesmo Juiz Vedor, se faz, ou não a sua obrigação; se disfarça algum dos com­preendidos nos sobreditos erros; e que achando-o culpado, o castigue como lhe parecer justo, admitindo-o a livramento perante si, dando-lhe apelação para o Conselho da Fazenda, como juiz superior das mesmas fábricas.
(Continua)
Nota dos editores - As fotografias são da autoria de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias.

Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:

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