domingo, 2 de novembro de 2014

Covilhã - Memoralistas ou Monografistas XII

  Continuamos hoje a publicar os monografistas da Covilhã, começando com algumas reflexões de Luiz Fernando Carvalho Dias já publicadas neste blogue.
        
“Convém enumerar os autores de monografias da Covilhã, os cabouqueiros da história local, aqueles de quem mais ou menos recebi o encargo de continuá-la, render-lhes homenagem pelo que registaram para o futuro, dos altos e baixos da Covilhã, das suas origens, das horas de glória e das lágrimas, dos feitos heróicos e de generosidade e até das misérias dos seus filhos, de tudo aquilo que constitui hoje o escrínio histórico deste organismo vivo que é a cidade, constituído actualmente por todos nós, como ontem foi pelos nossos avós e amanhã será pelos nossos filhos. […]
Para a Academia Real da História, no século XVIII, destinada ao primeiro dicionário do Padre Luís Cardoso, escreveu o prior de São Silvestre, Manuel Cabral de Pina, a monografia mais completa dessa época, que constitui um trabalho sério, no sentido de que é possível hoje referenciar quase todas as suas fontes. O Padre Pina, que frequentou um ano a Universidade de Coimbra, era natural do concelho de Fornos de Algodres e colheu muitos elementos para a sua monografia nas cópias do Arquivo da Torre do Tombo existentes na Câmara e nos livros paroquiais."


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      Pelas leituras que temos feito podemos concluir que o texto que estamos a apresentar - Monografia de o Padre Manuel Cabral de Pina - não é o original. Trata-se de uma cópia, pois constatámos que ao longo da monografia aparecem, por vezes, frases entre parêntesis e até com letra diferente feitas por alguém que, em época posterior, pretendeu incluir no texto original dados mais recentes. Num dos casos chega-se a datar: "...Esta nota se fez em 1850".
"O original perdeu-se no Terramoto. A cópia que possuo é dos princípios do séc. XIX, mas posterior às invasões Francesas. Cedeu-me um exemplar o Ex.mo Senhor Artur de Moura Quintela... O questionário que lhe serviu de base é diferente daquele que foi enviado aos párocos, depois do Terramoto de 1755." (1)


A Serra da Estrela

[...]

Início do Título 2ª

Título segundo da folha impressa. O que se procura saber desta Serra é o seguinte.
1º.
Esta serra, em outro tempo, se chamava Monte Hermínio. Hoje se chama Serra da Estrela. Sobre a etimologia deste nome varião os escritores porque uns afirmam se derivou de um penedo que estava no alto dela, figurado como estrela de pedra, outros dizem que foi por razão de uma estrela notável e de mui.ta grandeza a qual nasce sobre esta serra, a respeito dos que ficam para a banda do Norte quando o sol se vai pondo, nos meses de Julho e Agosto, co­mo tudo refere o Padre Esperança Liv.4. c.13. nº l. Fosse o que fosse, é certo que ainda hoje há nela um sítio alto, chamado o Malhão da Estrela, que abaixo se relatará. Na sua altura se eleva tanto esta serra que quere competir com as nuvens. Em quanto ao comprimento, se não pode dar medida certa por quanto, tendo seu princípio na Serra de Ancião, por baixo de Coimbra, discorre  pela Espanha adentro onde tem o nome de Serra da Gata e Morena e somente se pode dizer que, regulando o comprimento e distância que vai desde a dita Serra de Ancião até o fim do reino, serão mais de trinta léguas. A largura desta Serra, contando-a desta vila da Covilhã até à Vila de Melo, serão quatro léguas, pouco mais ou menos. Mas, contando-a desde a tal declinação da mesma serra, desta parte da Covilhã até à tal declinação dela, da outra parte para o Norte, serão seis léguas ou quási.
2º.
Os principaes braços desta serra são muitos : o primeiro se chama Serra do Açor que divide este bispado da Guarda do de Coimbra e fica quasi no fundo do termo desta vila da Covilhã, virado para o Poente. Pelo mais alto dela vai uma estrada de quatro léguas de comprimento sem haver povoado.
 No meio dela, ao pé da dita estrada, está uma cova celebrada que parece artificial porque é feita em modo de abóbeda de arco redondo. Tem a boca virada ao Norte, corre ao lanceiro para o Sul, e logo, no princípio, entra por ela qualquer homem sem se abaixar. O comprimento desta cova se não sabe com certeza porque, suposto muitos homens animosos tenham tentado chegar ao fim dela, ninguem o tem conseguido e, depois de ter caminhado dilatado espaço por ela adentro, se vê obrigado a retroceder ou por causa da muita obscuridade ou pela razão do temor e medo que concebe quem, estando ainda vivo, se considera já sepultado debaixo deste monte onde a imaginação lhe representa quaesquer infaustos sucessos. Esta mesma serra ou braço, pela parte de cima, em distância de duas léguas, se chama Pedras Lavradas e, mais acima, em distância de uma légua, se chama a Serra da Aboaça. E, tambem por estes sítios assim das Pedras Lavradas como da Aboaça vai estrada para o Bispado de Coimbra.
O temperamento deste braço é frigidíssimo e áspero de tal forma que, na estrada que corre pelo dito sítio do Açor, teem morrido inumeráveis pessoas com o rigor do frio. E, havendo nesta estrada um sítio chamado Portas de Égua, há tradição que este apelido lhe viera de que, em tempo muito frio, alí passara um homem com uma égua e que, não podendo suportar o frio, abrira a dita égua e se metera dentro e que mesmo, procurando aquele refúgio, não escapara porque foi encontrado morto. O segundo braço desce da direitura desta vila da Covilhã e corre ao Sul mais alguma cousa, inclinado ao Poente, vai findar no lugar do Ourondo, dentro do termo da mesma vila, entre o rio Zêzere e uma ribeira que aí corre. Tem de comprimento cinco léguas. A vista desta vila se chama Serra dos Livros e daí a pouca distância se chama Penedo da Albarda; porque, em uma portela e caminho que alí vai, se acha um penedo formado pela natureza com a mesma forma de uma albarda. Daí, em distância de uma légua, faz um abaixo por onde vai uma … ( sic ) alí se chama Portela do Padrão e, tornando a levantar, vai correndo até ao di to lugar do Ourondo. Todo este braço é de temperamento áspero e frio. O terceiro braço é tambem à vista desta vila. Corre ao Norte mas alguma cousa inclinado ao Nascente. Vai findar na ponte da vila de Valhelhas, fora do termo desta vila da Covilhã: tem quatro léguas de comprido e tem vários nomes porque, à vista desta vila, se chama Picoto de Manteigas, mais adiante Portela do Sarzedo e, para diante deste sítio, se chama Serra das Cortinas e, junto ao lugar de Aldeia de Mato, últi­mo deste termo da Covilhã, se chama Castelo Derradeiro e ao findar, junto ao rio Zêzere, tem uma costa chamada Massaracana que consta de muitos soutos. Es­te braço tambem é de temperamento frio mas, em parte, é muito menos que os outros acima.
Outros muitos braços terá esta Serra da Estrela mas, em tanta distância desta vila e seu termo, que aqui se não pode deles dar notícia.
3º.
Dentro do sítio desta serra nascem três rios. O primeiro é o Mondego que até à vila de Celorico, por onde passa, corre virado ao Norte e daí corre até junto de Coimbra, virado ao Poente, e daí, virando outra vez ao Norte, corre desta terra até ao porto da Figueira onde fenece e se mete no mar. O segundo rio é o Alva que corre ao Poente e fenece no Mondego onde se mete para cima de Coimbra. O terceiro rio é o Zêzere que desde o seu nascimento corre até à vila de Valhelhas do Poente ao Nascente e daí virando corre ao Sul até à vista desta vila da Covilhã e daí vai, inclinando ao Poente, até se ir meter no rio Tejo onde fenece, pegado à vila de Punhete.
Nascem mais dois rios pequenos que são o Sertã e o Ceira que fenecem no Mondego, por cima de Coimbra. Nascem mais muitas ribeiras : a primeira que é caudalosa e grande, chamada Beijames, que corre ao Norte e fenece no rio Zêzere, por baixo do lugar de Verdelhos por onde passa. A segunda que corre ao Sul e logo, no seu princípio, se chama Ribeira das Cortes, por passar por uns povos chamados um Cortes do Meio e outro Cortes de Baixo e daí, em distância de uma légua, se chama Ribeira do Paúl onde tem uma ponte de pedra, toda de cantaria lavrada, e dali, passando pelo lugar do Ourondo onde tem outra ponte semelhante à de cima, vai fenecer no rio Zêzere. A terceira ribeira tambem corre ao Sul e logo no seu princípio, se chama Ribeira da Alfofa por nascer no sítio dos Covôes da Alfofa, declarados abaixo ao nº ll. Depois se chama Ribeira de Unhaes da Serra por passar junto de um povo assim chamado Unhaes da Serra e vai fenecer no rio Zêzere. A quarta ribeira que tambem corre ao Sul, por baixo desta vila, na distância de um quarto de légua, chama-­se Ribeira de Água de Alta, passa pelo lugar da Boidobra e junta com outros pequenos ribeiros vai fenecer no rio Zêzere, à vista desta vila. A quinta ribeira que tambem corre ao Sul, junto desta vila, para a banda de baixo, chamada Ribeira de Goldra, é relatada acima, no nº 2 do primeiro título e vai fenecer na ribeira chamada Corges, à vista desta vila. A sexta ribeira que corre tambem junto desta vila, pela banda de cima, in­clinada para o Nascente, chamada Ribeira da Carpinteira, é relatada acima no número 2 do 1º título e, tambem, vai fenecer à vista desta vila, na dita ribeira do Corges. A sétima ribeira que corre inclinada ao Sul passa junto do lugar do Teixoso, daí corre à vista desta vila onde se chama Ribeira do Corges que é caudalosa e fenece no rio Zêzere. A oitava ribeira, chamada Canhoso, tem uma ponte de cantaria e corre perto desta vila da Covilhã, do Norte ao Sul, fenece na dita ribeira de Corges. A nona ribeira é a da Gaia, fora já do termo desta vila, vem das partes de Famalicão e de Valhelhas, correndo de Norte ao Nascente e fenece no rio Zêzere, para as bandas da vila de Belmonte.
Outras muitas ribeiras e rios nascerão desta serra de que aquí se não pode dar notícia por falta de conhecimento.
4º.
Na serra está a vila de Manteigas e os lugares de Sameiro, Vale de Moreira, Verdelhos e Sarzedo. Ao longo dela estão as povoaçôes seguintes: Famalicão e a vila de Valhelhas, que estão fora do termo desta vila da Covilhã. Continuando já logo, dentro do termo dela, estão Aldeia de Mato, Aldeia do Souto, Orjaes, Gibraltar, Teixoso, Aldeia de Carvalho, Covilhã, Boidobra, Trutuzendo, Casal da Serra, Maio­raes, Quadrados, Bouça, Cortes do Meio, Cortes de Baixo, Unhaes da Serra, Dominguiso, Pezo, Vales, Coutada, Barco, Paúl, Ourondo, Relvas, Erada, Cazegas, Sobral da Serra, Cebo­la,Unhaes, Vila Meã, Vidual de Cima, Vidual de Baixo, Cambas, Caneiro, Rouços, Pesoa­ria, A de Moço, Janeiro de Baixo, Brejo de Baixo, Brejo de Cima, Esteiro, Porto das Vacas, Machialinho, Souto, Dornelas, Machial, Carregal, Durão, Portas do Souto, Se­ladinhas, Póvoa, Bodelhão, Alqueidão, Vilar Barroco, Silvares, S. Martinho, Bogas de Cima e Buchinhos.
5º.
Não há que responder a este interrogatório.
6º.
Há nesta serra Cariteiras de pedra tosca, chamadas Dentição, capaz para mós de moer centeio. Da serra se não conduz facilmente pedra alguma não só porque ao pé da vila há muita quantidade dela mas tambem porque do alto da Serra seria quasi impossível a condução dela, somente das partes da declinação da mesma serra para esta parte da vila se pode conduzir ainda que com bastante dificuldade.
7º.
No alto desta Serra, ao pé de uma grande fonte, chamada de Paulo Martins, abaixo relatada no nº 11 se criam as árvores silvestres chamadas Azevinhos que cercam a mesma fonte e, no verão, são muito vistosas por estarem carregadas com muita abundância dumas bagas encarnadas. Em muitas partes da declinação desta serra há muitos soutos que produzem grande quantidade de castanha excelente e tambem deles se fazem muitas madeiras. Há também, no alto desta serra, hervas medicinaes, chamadas Genciana, Colher de Prata, Zimbro e Tamarga e muitas haverá mais mas a experiência as não tem descuberto ainda nem as suas virtudes. Não somente na declinação desta serra mas tambemJ em muitas partes e no alto dela, se cultiva e produz centeio que é excelente e melhor que em outros diversos paízes.
8º.
No alto desta serra está uma hermida cujo orago é Santo António e se apelida Santo António da Argenteira. A hermida é de pedra tosca e a imagem do santo é em vulto, muito bem estofada. Esta hermida é administrada pelos pastores da serra os quais todos os anos, em véspera de S. Tiago, a 24 de Julho, fazem ao Santo uma festa, com missa cantada e sermão; que ali vão os frades capuchos do Convento de Santo António desta vila, com os quais os pastores repartem os seus borregos. Neste dia há alí um grande concurso dos povos circunvezinhos que  no mesmo dia, ali pernoitam, fazendo notáveis fogos, com grande abundância de lenhas que há para se repassarem do frio que, ainda naquele tempo, ali de noite se experimenta. Fora deste dia não acorrem ali romeiros.
9º.
No território desta serra está, para a banda do Norte, a vila de Folgosinho que é antiquissima. Desta vila foi natural o nosso insigne português Viriato, ca­pitão esforçado e valeroso que pôs em grande consternação ao Império Romano e foi terror dele notável que, havendo em Roma os mais famosos capitães, a eleição do sujeito que houvesse de vir resistir a Viriato a refere Valério Máximo, Liv.6. C.4. Esta naturalidade de Viriato se prova pela tradição que disto há, assim na Vila de Folgosinho como nas vizinhanças dela, qual eu ouvi desde a minha tenra idade e tambem o confirmam as histórias.
10º.
No alto desta serra pastam mais de dez mil ovelhas desde a Primavera em que veem do Alentejo, aonde vão no Inverno, até ao Outono em que tornam para lá, sem para tão grande número de gados faltarem, por todo este tempo, pastos porque deles é a serra povoada na mais excessiva abundância, em tal forma que, em uma relva sita ao pé da hermida de Santo António da Argenteira, acima relatada, chamada por esta razão a Nave de Santo António, por todo este referido tempo pastam mais de quinhentas ovelhas, sem pelo mesmo tempo sentirem a mínima falta de pastos. E se consta que os pastos são tão puros que não só são alimentares para os gados mas tambem medecina para curar os achaques que eles padecem os quaes se lhes desfazem com o uso de taes pastos. Há tambem nesta serra creação de lobos, raposas, coelhos, perdizes e águias reaes que criam nas penhas altas.
11º.
Há nesta serra umas lagoas notáveis, bem celebradas de escritores e da fama. A primeira se chama Lagoa Escura porque está entre altos penhascos que a cercam e não dão entrada para ela mais que por uma parte; é redonda como a esfera e de tanta grandeza que o pastor mais esforçado e exercitado, atirando com funda grande,  muito, chega com pedra ao meio dela. É esta lagoa tão alta que até agora se lhe não descobriu ou achou fundo, pois nem ainda nas suas margens se lhe acha. Daqui veio a nascer uma fábula que vulgarmente se conta não só pelo povo mas tambem por alguns escritores, que esta lagoa é um braço de mar que, por concavidades ali vem a ter. Posto isto seja fábula, contudo consta que a sua altura se não averiguou até agora pois se conta que, estando nesta vila o Visconde de Barbacena Afonso Furtado de Mendonça, alcaide mór dela, fora ao dito lugar para sondá-la com imensa quantidade de barbante que levou e que, deitando-o com um pezo de chumbo na ponta, não chegara ele ao fundo. Esta lagoa não deita para fora e somente, para uma parte, se descobre um pequeno rego por onde parece deita água no Inverno para outra lagoa abaixo relatada. Esta Lagoa Escura, em certos tempos, faz estrondo tão grande que se ouve em distância de muitas léguas. A causa deste estrondo, com certeza, se não sabe pois, nas ocasiões dele, se enfurece o vento e temporaes de maneira a não poder ir averiguar-se a causa disto. O que se pode conjecturar ser causa deste estrondo é o seguinte: é muito provável haver, no fundo desta lagoa, cousa oculta que move as águas, por quanto as taes águas estão sempre bolindo, ainda no verão e no maior socego do vento, sem nunca estarem quietas e na ocasião, em que os ventos se enfurecem com maior força, correndo com eles, a dita qualidade se conjura junto com eles e todos juntos levantam as águas, com altura excessiva e assim as águas, ao descer, não somente repercutem aquelas penhas mas tambem caiem de tão alto naquela mesma concavida­de e veem desta sorte a fazer aquele estrondo.
A segunda lagoa se chama Lagoa Comprida por ser mais comprida que larga, principia em uma relva e é menos funda que a outra acima e, em algumas partes, se lhe descobre o fundo com a vista. Nesta lagoa principia o rio Alva, relatado acima ao nº. 3.
Em uma destas lagoas é tradição estar o corpo de Santa Antoninha, natural da vila de Seia, aquem os mouros deram martirio em ódio da fé e que lançaram na dita lagoa assim como Santa Iria foi sepultada no meio do rio Tejo, defronte da vila de Santarém, cujo sepulcro foi ali vizitar a nossa gloriosa Rainha Santa Isabel, entrando pelo rio adentro, a pé enxuto, para cujo efeito se apartaram as águas dele como já tinham feito as águas do Jordão quando nelas entrou a Arca do Testamento, cujo caso da Santa Rainha relata o Padre Esperança na sua Crónica.
Há nesta serra uns rochedos naturaes ou penhas a que vulgarmente se chamam Cântaros e são na verdade bem célebres e famosos. Um deles chama-se Cântaro Delgado e é uma das maravilhas do mundo, formado pela natureza para competir com as estrelas. Está formado com tal arte pela natureza que parece foi formado pela indústria e artifício dos homens por quanto, compondo-se somente de penedos e grossas penhas, é redondo sem ter quinas nem mais grossura de uma parte que da outra. E por modo de pirâmide e, imitando a esta, vai fazendo para o cimo delgado e agudo e talvez daqui lhe proveio o nome de Cântaro Delgado. Por todos os lados está despegado da serra e sem arrimo algum. Somente, de uma parte, tem arrimo de uma rocha sólida, a qual por esta parte o faz parecer menos alto; porem, ainda desta parte da tal rocha terá de altura aquele espaço, que abrange, um tiro de bala, e pelas mais partes é tão alto que se assenta terá de altura meia légua ou mais. A subida dele e muito mais a descida, é muito dificultosa e perigosa e só a consegue algum pastor forte e prático. Neste cântaro se cria a herva medicinal chamada Genciana, relatada acima ao nº 7. Nas raizes dele tem principio o rio Zêzere, re­latado acima ao nº 3. Contam os pastores uma cousa célebre e é que no cimo deste tão elevado monstro há uma relva e uma fonte cujas hervas e águas, se acaso lá podem levar algum gado morboso e doente, lhe dão saúde. De haver lá fonte é sinal estar ele pelos lados sempre lançando gotas de água.
O segundo Cântaro é o Cântaro Chão o qual por uma parte é plano e igual com o plano da serra mas pelas mais partes tem excessiva altura ainda que nela não chega a igualar o Cântaro Delgado, porem, na grossura, o excede muito. O terceiro cântaro é o Cântaro Gordo o qual, posto que por uma parte não seja muito alto, por estar arrumado ao campo da serra a que excede muito em altura, é pelas mais partes, tão alto que fica a sua altura sendo notável e excessiva posto que tambem não iguale nela ao Cântaro Delgado, ainda que na grossura o excede muito. Nestes dois cântaros se cria a herva medicinal chamada Olho de Prata, relatada no nº 9.
Para diante destes cântaros e junto ao Cântaro Delgado, há uma concavidade, chama­da Rua dos Mercadores, por estar formada à maneira de rua, terá dez palmos de largo até quinze de alto e trinta ou quarenta passos de comprido: é formada, quasi toda ela, de uma outra parte, em penha viva e cortada com grande direitura. Nasce nesta serra, no alto dela, uma fonte, chamada Fonte de Paulo Martins, tão abundante de água no seu nascimento que logo ali principia a ser uma ribeira não pequena que corre ao Norte e, dentro da mesma serra, se mete no rio Zêzere, e nela se pescam bastantes trutas. Esta fonte está cercada de árvores silvestres, chamadas Azevinhos, relatadas acima no nº 10. Para a parte do Sul, entre umas grandes penhas, está um vale, chamado Covões de Alfofa, no qual corre a ribeira, chamada Ribeira da Alfofa, acima relatada no nº 3. Para diante desta ribeira está uma dilatada e áspera ladeira e, no cimo dela, para se passar à parte do Norte, está um sítio chamado Espinhaço de Cão, que se passa com dificuldade e risco, por ser a passagem estreita, com um notável despenhadeiro duma e de outra banda, se bem que a tal passagem, onde se considera o risco, é de pouca distância e logo dá em terra plana.
Do Cântaro Delgado para diante, a pouco espaço para o Poente, está o sítio chamado Malhão da Estrela que se assenta ser o mais alto da serra ainda que em si é plano por todas as partes. Dele se descobrem as barras da Nazaré e Aveiro cujas areias se estão dali vendo em dia claro. Neste sítio se conserva todo o ano a neve, sem nunca se acabar, e daquí vai para Lisboa e mais partes do Reino..

Há nesta serra uma lapa, chamada vulgarmente Lapa das … (sic), que se compõe de uma só pedra e, somente, por uma parte, está pegada na penha e por todas as mais partes está totalmente despegada e no ar. E de tanta grandeza que debaixo dela se acomodam mais de cinquenta pessoas. Por de traz desta lapa, para o Norte, está uma grande penha, despegada da serra por todos os lados e muito alta mas menos alta que os cântaros, acima relatados. Em distância de um quarto de légua desta dita penha, para o Nascente, está outra penha, chamada Penha de Águia, por nela criarem as águias reaes. Esta, por uma parte, é tão alta como a penha próxima, acima relatada, e pela outra parte é mais baixa mas é tão áspera que, por nenhuma parte, se pode subir a ela. 


Fim do Título 2º

Nota dos editores 1) Dias, Luiz Fernando Carvalho, "Frei Heitor Pinto (Novas Achegas para a sua Biografia)", Coimbra, Biblioteca da Universidade, 1952.

As publicações do blogue:
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Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:

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domingo, 26 de outubro de 2014

Covilhã - Os Ventos do Liberalismo/Os Ventos do Miguelismo III

O século XIX é um período de grandes transformações políticas, económicas e sociais. As ideias liberais fervilham por todo o mundo, opondo-se ao absolutismo vigente.
 Encontrámos no espólio e nas publicações de Luiz Fernando Carvalho Dias alguns documentos que nos elucidam que na Covilhã também se viveram momentos revolucionários e contra-revolucionários. Houve muito descontentamento, reuniões secretas da maçonaria ou doutras associações (“sociedades denominadas patrioticas”), prisões, exílios, mortes, quer de miguelistas, quer de liberais constitucionalistas ou cartistas. Que miguelistas? Que liberais?

Os documentos que estamos a apresentar sobre a Covilhã acompanham a guerra civil que os portugueses viveram ao longo de várias décadas do século XIX: a Vilafrancada miguelista em Maio de 1823; a Abrilada em Abril de 1824, cuja derrota obriga D. Miguel a abandonar o país; a morte do rei D. João VI em Março de 1826 e o início da Regência da Infanta Isabel Maria; a Carta Constitucional outorgada por D. Pedro que se encontrava no Brasil, o 1º Imperador; a abdicação de D. Pedro em sua filha, Dona Maria da Glória, como Dona Maria II; o regresso de D. Miguel em 1828 e o país virado do avesso.


Fotografia de D. Miguel e seus correligionários (1)

 Todas estas divergências e dúvidas parecem ficar esclarecidas quando D. Miguel, ao regressar de Viena em 1828, é aclamado Rei absoluto. Contudo há focos de oposição por todo o país, desde a Covilhã, passando por Aveiro, Faro, Porto e Coimbra. Aqui aconteceu um facto insólito e triste, quando uma comitiva foi a Lisboa em nome da Universidade saudar o rei D. Miguel e foi apanhada perto de Condeixa por um grupo de estudantes, os Divodignos, pertencentes a uma sociedade secreta de cariz liberal. Mataram e feriram a tiro aqueles miguelistas. O governo miguelista vai ser fortemente repressivo e persecutório, originando julgamentos, mortes e muita emigração de liberais para Inglaterra e Açores. Será pertinente fazermos referência ao que podemos chamar miguelismo, uma espécie de sebastianismo negro?
“Venha cá, senhor malhado/Sente-se nesta cadeira/Grite: Viva D. Miguel!/Senão parto-lhe a caveira”, versos que podem ajudar a provar que o medo funcionava mesmo, o controlo existia de facto. A Igreja Católica apoiava verdadeiramente D. Miguel, “o arcanjo salvador” e por isso se falava em unanimidade na aceitação daquele rei; mas os muitos liberais apanhados pelo terror miguelista existem de facto, como alguns historiadores nos dizem:
Oliveira Martins apresenta números da repressão miguelista: nas prisões 26270; deportados para África 1600; execuções 37; julgamentos por contumácia 5000; emigrados 13700. Segundo Vítor Sá foi considerada culpada à roda de 15% da população. Há ainda outros números: cerca de 80000 famílias cujos bens foram confiscados.  
Esta situação abre em Portugal uma guerra civil entre absolutistas e liberais. Só a Convenção de Évora-Monte (1834) e o início do reinado de Dona Maria II procuram sanar a ferida imensa que grassa no País.

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Ilustração de Alfredo Roque Gameiro



Ill.mº e Ex.mº Senhor

            Hoje se está formalisando em camara um batalhão de voluntarios realistas do Senhor D. Miguel, para com o mais vivo zelo e amor debelar os perversos traidores que ousaram ofender os seus Direitos. Toda esta Vila e seu Distrito se acha animada do maior entusiasmo pela sagrada causa da Realeza.
            Consta-me que todos os habitantes da Província se acham animados do mesmo amor não poupando sacrificio algum que seja necessário fazer-se.
            Puz em Custódia o Dr. Manuel António Leal Preto de Lima Castelo Branco e seu filho Augusto do lugar do Dominguizo por se acharem com armas em casa e serem conhecidos por exaltados liberais, assim como o P.e Manuel Alves Padez, cura do mesmo lugar, José Pessoa Leão, solteiro, desta Vila e Manuel da Silva, soldado de Caçadores nº 3, que transitava sem passaporte e proferindo expressões suspeitosas.
            Não sei se V. Ex.ª foi entregue da minha participação com data de 13 do corrente mês em que detalhava o plano da conspiração que descobri, apreendendo seus autores, porquanto ainda não recebi disto certeza.
Deus guarde etc.

Covilhã, 24 de Maio de 1828.

Ill.mº Intendente
O Juiz de Fora
                                            Antonio Roberto de Araujo Queiroz

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Ilmº e Ex.mº Senhor


Tendo mandado repicar o sino da Camara pelo motivo da muito agradável notícia da Vitória que as tropas realistas alcançaram em Penafiel sobre os rebeldes, acontecia juntar-se imenso povo que correu às casas dos notados por liberais e lhes quebrou as vidraças sem que os voluntários e milicianos pudessem impedir este excesso, porem dizendo eu ao povo que estes procedimentos eram contrarios às Reais Intenções de El-Rei o Senhor D. Miguel, logo se absteve da sua continuação e hoje reina o maior socego.
Deus Guarde etc.

Covilhã 16 de Junho de 1828

Ill.mº e Ex.mº Snr. Intendente
                                                                       O Juiz de Fora
                                                     Antonio Roberto de Araujo Queiroz

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“Ill.mº e Ex.mo Senhor

            Participo a V. Ex.ª que em todo o meu distrito tem havido muito regozijo pelo inapreciável decreto de El Rei N. S. o Snr. D. Miguel I de um do corrente mez.
            Tenho continuado a fazer abrir a mala do correio desta vila afim de reter e abrir as cartas suspeitas.
            Deus guarde etc.

            Covilhã 12 de Julho de 1828

            Ill.mo e Ex.mo Snr. Intendente etc.

      O Juiz de Fora
António Roberto de Araujo Queiroz



Nota dos Editores - 1) Fotografia existente no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias, sem nenhuma referência que nos elucide se efectivamente se trata de D. Miguel I ou de seu filho D. Miguel no exílio.

Fonte - Dias, Luiz Fernando Carvalho, "História dos Lanifícios, Documentos".

As Publicações do Blogue: 
Publicações no blogue sobre este assunto:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/09/covilha-os-ventos-do-liberalismoos.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/07/covilha-os-ventos-do-liberalismoos.html 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Covilhã - Centenário da Elevação da Covilhã a Cidade II


    Como hoje se comemora o aniversário de elevação da Covilhã a cidade, voltamos a apresentar o seguinte texto:
    "Hoje publicamos este texto escrito pelo autor para a pagela de apresentação dos selos postais comemorativos do 1º centenário da elevação da Covilhã a cidade. A importância do selo como meio de ligação entre pessoas e prova de pagamento de serviços postais nasceu em 1840 no Reino Unido e em Portugal em 1853, quando D. Maria II fez a reforma dos Correios. Podemos ainda considerar o selo um instrumento de cultura e uma fonte para os estudos históricos e até geográficos. Exemplificamos com estas estampilhas, cujos motivos estão ligados ao brasão e à vida industrial da cidade.    

Foi J. H. Fradesso da Silveira, emissário da Regeneração, na década de 1860-70, quem chamou a atenção do liberalismo para o curioso fenómeno social e económico da Covilhã, vila desde os alvores da nacionalidade, realenga por graça do Venturoso, notável por mercê de D. Sebastião, e terra com largo contributo espiritual, científico e heróico na gesta dos descobrimentos.
            Alheia aos bandos políticos do séc. XIX, fechada numa saudade teimosa pelo Rei D. Miguel I que aclamou duas vezes e a quem deveu, a favor do povo, o caducar dos privilégios daqueles que ao depois formaram a aristocracia dos comendadores, imagem covilhanense dos barões de Garrett, a Covilhã concentrou todas as suas forças de desenvolvimento na indústria de lanifícios, cujos alvores nela recuam ao último quartel do séc. XV, e, sempre que, em Portugal, estadistas de vanguarda como o Conde da Ericeira e o Marquês de Pombal, tentaram arremeter com a rotina e programar um surto industrial, vieram inspirar-se nas suas técnicas e no seu espírito inovador.
            Sem estradas nem caminhos-de-ferro para acompanhar a revolução industrial, nem por isso os então novos maquinismos ingleses e franceses deixaram de trabalhar na Covilhã, graças à energia dum povo cheio de vontade.
            Quando outros ficaram ensimesmados, constrangidos por caducas estruturas agrárias, a cidade dos Hermínios cedo se acostumou ao periódico e contínuo renovar das suas elites e a estimar, com sentido social, aquela eterna verdade, por vezes tão esquecida, de que foi pregoeiro no século XVI o nosso Frei Heitor Pinto: o Sol quando nasce é para todos.
            Daí as lutas clássicas desta cidade pela liberdade do comércio e da indústria, com larga projecção na documentação política dos sécs. XVII e XVIII, desde os documentos de Cortes aos processos inquisitoriais.
            Além de berço de Heitor Pinto, luminar do Renascimento português, glória das letras e da liberdade da Pátria; de Pêro da Covilhã, precursor do Gama; do judeu Vizinho, tradutor de Zacuto e cientista da Junta dos Matemáticos de D. João II; dos irmãos Faleiro, inspiradores, técnicos e colaboradores de Magalhães na primeira volta da circum-navegação do globo e de cinco mártires da fé de Cristo, todos seus filhos, a Covilhã notabilizou-se sobretudo como centro de trabalho e de iniciativa.
            De certo, a estas duas qualidades da sua gente ficou a dever a mercê de cidade, outorgada em 20 de Outubro de 1870 pelo Rei Popular (D. Luís), a velha vila de D. Sancho I, a minha terra muito amada.
                          
    (Outubro de 1970)   "       

sábado, 18 de outubro de 2014

Covilhã - Contributos para a sua História dos Lanifícios XLV

    
   Estamos no século XVIII, na Beira, comarca de Castelo Branco, onde é corregedor Gaspar de Sousa Barreto Ramires. (1) 
    Pouco ou nada sabíamos do autor destas “Notas que dão a conhecer o que são os pastos comuns nas terras da Comarca de Castelo Branco; a sua origem, o seu uzo e a sua aplicação”. A nossa pesquisa levou-nos a “O Albicastrense”, onde são reproduzidas umas “Efemérides Municipais” publicadas de 1936 a 1940 em jornais regionais. Algumas fazem referência ao corregedor em causa, autor deste texto não datado, embora em determinada altura se refira o ano de 1784. Nas "Efemérides" copiam-se e comentam-se actas de sessões da Câmara: Na de 22 de Julho de 1786 tecem-se elogios ao corregedor Barreto, que servia com “hum zelo pelo publico como certamente não mostrou outro algum Ministro”. Ora em 5 de Maio de 1790 já se considera que foi culpado da falta de paz e sossego na comarca, bem como de perturbações camarárias e por isso “fizeram a dita suplica” à Rainha para que escolhesse outro corregedor e não reconduzisse Gaspar de Souza Barreto Ramires no cargo. O corregedor Barreto Ramires perdeu a confiança do povo. Será que as suas ideias sobre campos abertos e pastos comuns eram consideradas retrógradas? Será que os grandes proprietários discordam e reagem mal às ideias defendidas pelo corregedor?

    Este texto que encontrámos no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias pareceu-nos digno de publicação:
- A teoria fisiocrática e o liberalismo económico espalham-se pela Europa, vindo a substituir o mercantilismo/proteccionismo.
- A discussão entre baldios, pastos comuns, campos abertos e campos fechados está na moda, é assunto do dia. Em Portugal começa-se a falar na necessidade de reformar os Forais e dela fazem parte estes temas.
- A industrialização, o desenvolvimento da agricultura e da pastorícia são assuntos focados.
- O papel da sociedade, o contraste entre ricos e pobres também é referido pelo autor.
- Embora a Covilhã não seja nomeada, várias vezes é lembrada a criação de gado, especialmente de ovelhas e cabras, principal riqueza da comarca.
- A importância das lãs para as fábricas da Beira em que se ocupam muitas pessoas. “… Faltarão por este modo as lãs para as fábricas da Beira em que se ocupão 70$000 pessoas, como se calculou pela Junta das Fabricas em uma consulta sobre o Fardamento das Tropas”…
- Muito curiosas são as consequências que o autor apresenta se for “dada liberdade para os senhores das terras, as circunvalarem de paredes”.
- No princípio do século XIX a reforma dos Forais vai integrar propostas contra os campos abertos.
Desenho que representa o sistema de exploração rural openfield,, campo aberto


Gravura que ilustra o sistema denominado enclosure, campo fechado

Leiamos:
 "Notas que dão a conhecer o que são os pastos comuns nas terras da Comarca de Castelo Branco; a sua origem, o seu uzo e a sua aplicação

Compreende a Comarca de Castelo Branco 79 concelhos. Entre estes há alguns que se compoem de 800 fogos, outros de 700, 600, 500, e outros de menos número. Todos os seus habitantes, vivem da cultura das terras, e creação dos gados.
               Como as terras dos limites destes concelhos são proporcionalmente extensas, e pela qualidade, e fraqueza do seu terreno não admitem cultura de todos os anos, estão estes distritos repartidos em folhas que se semeam alternativamente de trez em trez anos / só há diferença na Idanha Nova, onde há oito folhas, e delas se semeam duas, de quatro em quatro anos /. Emquanto as folhas não semeadas descansam praticão os respectivos moradores apascentar nelas gados, vacuns, égoas, ovelhas, cabras e porcos; e por este modo tirão das terras, emquanto se conservão pouzias um avultado interesse, e elas ao mesmo tempo recebem o beneficio de serem engrossadas pelos gados que as pastão.
Estas terras das folhas não são baldios cuja propriedade esteja no dominio dos concelhos, mas todas elas pertencem a particulares.
Estes proprietarios, nas suas terras, não teem mais que o direito de as semear e colher-lhe o fruto / que regularmente é centeio / no ano da folha.
Nos anos em que elas descansam e se destinão a pastos pertence aos concelhos e ao comum dos habitantes respectivos a servidão dominante de os vender e de os pastar.
Destes pastos se separa primeiramente a coitada dos bois. Esta coitada é um grande terreno que de longissimo tempo está assinalado na folha dos restolhos para nela pastarem todas as vacas e bois de arado e égoas de creação dos moradores do distrito gratuitamente por todo o ano. Esta coitada que há na maior parte dos 79 concelhos, é a origem da subsistencia daquele país e sem ela não poderá não só prosperar a lavoura mas nem ainda conservar-se. Daqueles lavradores bem poucos são os que podem sustentar os bois de arado por todo o ano; e por isso acabada a lavoura, eles os mandão para a coitada até que outra vez precisem deles. Na coitada, introduz cada um as vacas que pode adquirir. Na mesma há toiro comprado pelo comum. Ali fecundão e ali crião os bezerros. Destes apartão os que precizão para o arado e quando querem dinheiro para a ceifa e malha, que é serviço muito dispendioso, eles só o conseguem, vendendo alguns dos bois que crearão. Por este modo se animão todos a arrendar terras para cultivar, e não há homem de qualquer trato e oficio que não semeie uma terra, ajudado por aquelas comodidades.
E por este modo se crião na comarca imensos bois; pois na coitada de Castelo Branco se conservão regularmente mil rezes, e na de Idanha e seu termo 2$500; e assim à proporção no resto dos 79 concelhos. Depois se separa uma grande hervagem para o marchante trazer gado açougueiro, o qual, por esta concessão lhe dá a carne mais barata, o que interessa a todos.
   Do resto, que fica, depois de separada a coitada e o açougue, vendem os concelhos e o comum dos povos, estes pastos, divididos em terrenos a que chamão hervagens, (tendo cada uma seu nome e seu distrito / a credores (sic = creadores?) de ovelhas, preferindo as da propria terra, aos de fora. E esta fruição comprada só dura desde o S. Miguel até o S. Matias, e nos sete meses que decorrem de S. Matias até o S. Miguel, recobrão os habitantes a sua antiga fruição gratuita, tendo eles a faculdade de apascentar, nestes pastos, todos os seus gados.
   Esta servidão tem diversas origens, ambas imemoriaes. A que pertence à pastoria gratuita de todos os moradores é mais antiga; e a que autorisa os concelhos para a venda, é mais moderna, porque foi estabelecida por comum acordo dos antigos, de venderem por aqueles cinco meses os pastos que antecedentemente se pastavam gratuitamente em comum por todo o ano, para do seu produto se fazerem as despesas publicas dos concelhos, e povos, e evitar as fintas que para eles se fazião.
   Desta posse imemorial e desta convenção dos povos nos atesta o alvará de 1610, fazendo menção de muitos informes que se tomarão e pelas quais constou ser já imemorial a posse destas duas formas de economia, mandando por isso, derribar as paredes com as quaes Antão da Fonseca havia tapado tres grandes herdades que possuia no concelho de Oledo, termo de Idanha. São conformes os alvarás de 1616 e 1696, recomendando aos Corregedores a sua observancia, por ser indispensavel para a creação dos gados. Houve tambem provisões antecedentes aos anos de 1570 e 1608. Há acórdãos da Relação de 1599 e 1666, atestando desta unânime convenção dos povos, e da sua existencia, por tradição antiga, atestou o Senador Oliveira, que escreveu há mais de cento e trinta anos, no seu Tratado de Muner. Provisor. Cap. 6. in Add. nº 11. Temos pois reconhecida a posse immemorial e confirmada a convenção dos povos, por autoridade régia.
Alem da numerosa creação de bois, e cavalos, há em todos os concelhos imensa creação de ovelhas e cabras, o que constitue a principal riqueza da comarca. No ano de 1784, só no distrito de Castelo Branco fiz contar 22$500 ovelhas e 30000 cabras. Na Idanha e seu termo costumão regularmente crear-se 20$000 ovelhas e 40000 cabras, e respeitando a toda a comarca não pode calcular-se menor numero que o de 80$000 ovelhas e 20$000 cabras.
Aqueles pastos que os concelhos e o comum dos povos vendem em hasta publica, importão regularmente 60$000 mil cruzados. Da parte que pertence aos concelhos se tira a terça que chega a 10$000 cruzados. O resto dos concelhos e o que pertence ao comum dos povos se gasta nas despezas publicas a que os concelhos estão obrigados. Taes são a creação dos engeitados; a contribuição dos medicos de Coimbra; a do Secretario do Dezembargo do Paço, as propinas e apozentadorias dos ministros. Ordenados de medicos, cirurgiaens, Meirinhos, Alcaides, carcereiros, porteiros, e todos os mais que servem o publico, levas de prezos, reparos das cazas da Camara, calçadas, pontes, e mais obras publicas a que os povos são obrigados, em que tem principal parte as Igrejas. Transtornado este sistema, e dada a liberdade para os senhores das terras, as circumvalarem de paredes, se altera toda esta economia.
Não haverá coutada, e extingue-se o tezouro dos cultivadores. Diminuir-se há a numerosa creação dos bois, e bons cavalos, de que abunda a comarca. Não haverá hervagem para os gados açougueiros, e os povos comprarão a carne muito mais cara.
Faltará o dinheiro nos concelhos, e comum dos povos. Não haverá quem sirva o publico, e ou as terras correrão à sua ultima ruina, não se lhe fazendo os reparos que cooperão para a sua conservação ou os pobres habitantes sofrerão o vexame de serem fintados todos os anos para estas despezas, tendo eles a sua intenção fundada para não serem fintados. Seria então insuportavel o gravame dos pobres porque não pagando nestas fintas os fidalgos, os cavaleiros, os vereadores, os juizes, os soldados auxiliares, os privilegiados do tabaco, e da bula, vem a cair este encargo nos pobres que nada teem por onde paguem, e eles dezertarão de um paiz em que quatro poderosos os vão reduzir a miseravel condição de indigentes, estando elles dantes proporcionalmente abundantes.
Não haverá creação de ovelhas. Os povos se animão a esta numeroza creação porque vendida a hervagem de cinco mezes pelo concelho a um creador da terra, é ordinariamente comoda e tem os sete meses a franqueza gratuita da pastoria, porem tendo de comprar hervagem todo o ano, e pelo preço da ambição do senhorio, não haverá rebanho que compense esta imensa despeza e precisamente hão de dezemparar esta creação que os não interessa.
Estes rebanhos não podem sustentar-se sem larquezas o que é incompativel com a circunvalação das terras. Ainda que quizessem passar de umas tapadas para outras, tem tambem dificuladade regularmente invencivel. As tapadas serão de diversos donos, comprada uma, precisa o creador comprar duas, trez e mais, naquele mesmo distrito. Os donos vendem a necessidade do creador, ou abusão dela para lhe tirar um preço excessivo ou não podem vender, porque já venderão a outro.
É preciso unir a vontade de muitos, o que é um obstáculo à creação, que dificulta e desanima porque necessariamente lhe há-de faltar a pastagem, e perecer o gado.
Faltarão por este modo as lãs para as fábricas da Beira em que se ocupão 70$000 pessoas, como se calculou pela Junta das Fabricas em uma consulta sobre o Fardamento das Tropas. Faltarão os gados para engrossar as terras precisando-a tanto a sua magreza. Faltará esta grangearia, e imensas familias que sem possuir terras se sustentão e vivem com proporcional abundancia desta creação.
E faltará ao comum da comarca a parcela de 25:600$000 rs. que nela entrâo todos os anos, somente deste ramo da lã das ovelhas, feita a conta a 80$000 ovelhas, e a 10 velos por arroba, a 3.200, que é o preço mais inferior. Importancia esta a que nenhuns frutos poderião chegar ainda que as terras das folhas, se semeassem todos os anos. E isto sem falar no valor dos queijos, das carneiradas, e das chibarradas.
Diminuir-se à a população, que se conserva por meio desta comunião de pastos. Naquellas terras regularmente há tres ou quatro cazas que são senhores de todos os bens de raiz das folhas. Os mais vivem de terras que arrendam a estas casas, os quais as cultivão porque teem o recurso da coitada. Um pai de familias que tem quatro filhos, como não tem terras que lhes dar, reparte com eles o seu gado de vacas, ou ovellhas ou cabras. Cada filho continua a mesma grangearia do Pai, e suprem os gados, a prizão e apego ao paiz natal, que só costumão produzir os bens de raiz. Animão-se a esta continuação pela comodidade de não pagar a pastagem, ou de pagar bem pouco; porem, metidas as terras no pleno dominio dos Senhorios, e tendo então de pagar-lhe as rendas do seu capricho, necessariamente hão-de desmaiar estes novos creadores, e dezertar; porque em breve tempo será pouco o valor do seu gado para pagar ao senhorio.
Nesta conservação não se ofende o Direito da Propriedade dos Senhorios, antes pelo contrario, alterada a forma actual, se arrancará a propriedade da mão do comum para se dar aos particulares que não erão senhores dela. Esses particulares quando herdarão e quando comprarão as terras já foi com esta separação de pastos e por isso na compra eles derão menos preço; porque o vendedor se lhe vendeu o que possuia, que era o direito de semear, e colher no ano de folha. E dando se lhe agora o poder de circumvalar, e disfrutar os pastos, eles adquirem repentinamente um cabedal imenso que não comprarão, e tira-se ao comum a quem pertence a servidão dominante da pastoria, pela posse imemorial, pela convenção, e pela autoridade regia, que já ficão expostas.
A qualidade das terras não admite serem semeadas todos os anos. É necessario descansarem ao menos tres para darem centeio, e algumas esperão oito anos, doze e vinte. Esta certeza responde à lembrança de que as terras tapadas, produzindo todos os anos, darão mais abundancia de frutos, porque nem elas os darião; nem na comarca há falta de terras, nas respectivas folhas que alternativamente se semeião nem há falta de centeios, antes regularmente redundão; de sorte que se não fossem os moradores das comarcas de Tomar e Crato que os vão comprar à comarca de Castelo Branco, eles não terião valor. Se algumas terras são capazes de produzir de contra folha, elas se aproveitão pelos donos, e com este fim, quando eu servi de Juiz de Fora em Castelo Branco, coitava a folha dos alqueves, mais cedo, para que os donos pudessem cultivar as terras baixas, com melancias e feijoais de que elas poderião ser capazes, para conciliar a possivel cultura com a creação dos gados, devendo-se uns e outros frutos não só ao descanso das terras mas à multidão de gados que as engrossão: multidão e abundancia que faltarião todas as vezes que tapadas as terras se dificultasse a creação que deixo notada.
É a prova desta conclusão, o que observo nas terras da comarca, e muito principalmente na Idanha. Em todas elas há infinitas tapadas, nos Sesmos, ou Enxidos, nos quaes não é proibido tapar. Em Castelo Branco haverá 800 e em Idanha mais de 600; e nas folhas de Idanha tem a Caza de Geraldes 42 Tapadões, ou Latifundios.
Se o fim dos pretendentes das tapadas fosse o da maior abundancia de frutos, e semear as terras livremente, nós o poderiamos ver nestas tapadas; mas até o prezente, ainda não houve uma unica esperiencia desta frutificação. Eles ainda não as semearão de contra folha, antes só são semeadas quando a folha cai para aquele sitio. Os pastos destas tapadas são vendidos para creadores de gados e como este preço é mais abundante que o da sementeira de centeio, eles querem aumentar os seus rendimentos, fazendo mais tapadas; encobrindo a sua ambição com o pretexto da maior frutificação, quando o seu fim é o lucro das pastagens, e tirar ao comum o que este vende; porque metidas na sua mão, será o valor delas, seis vezes maior que na administração dos concelhos.
Esta mesma certeza responde à outra ideia de população que se finge aumentada, reduzindo as terras a cazaes. Há muitos anos que a Caza de Geraldes principiou a fazer tapadas cada uma das quais, pela sua grandeza, poderia bem sustentar um lavrador mas até hoje nem se lhe fez casas nem admitiu um só cazeiro. É pois o verdadeiro fim que se procura com estas tapadas subtrair a fruição da pastoria ao comum, e vendê-las a creadores Serranos, que as pagão seis vezes mais que os da terra; e com este exemplo, trabalhão todos os grandes possuidores de terras por adquirir uma semelhante conveniencia obtendo a liberdade de as tapar francamente.
As lembranças dos escritores e economistas que declamão contra os pastos comuns, não tem aplicação ao estado da Comarca de Castelo Branco.
Estes escritores supoem que as terras destes comuns, são terras incultas, e nunca semeadas como se vê em Robinet Diet. Univers. 1º Comunes = pag. 297; e em Rosier, no curso de Agricultura 1º Comunaiz Comunes = pag. 444; porem as terras da Comarca são semeadas todas, alternativamente, segundo a ordem das folhas e regularmente elas não teem aptidão de produzir, sem se reporem com o descanso.
O Mesmo Robinet diz, que ele não trata daqueles comuns, cujo produto engrossa a caixa publica, e já eu deixo notado que destes pastos é que sae a renda dos Concelhos,e a subsistencia do Comum das terras.
A declaração dos escritores funda se em ideias vagas, que não poderião realizar se na pratica. Por isso a Legislação do Rei da Prussia, conservou semelhantes servidões de pastoria: e é entre nós constante essa determinação, no Titulo das Sesmarias. § 14 e 10, na Lei de 30 de Março de 1623, e mais recente, na Lei de 13 de Outubro de 1770 § 1º assinando os Ilheos para pastos comuns da Ilha do Porto Santo, assentando que sem elles se não poderia remediar a sua decadencia.
A comparação das terras em que não há comuns com aquelas em que os há, principal argumento de Rozier, é ainda muito menos aplicavel à Comarca; porque ainda que se escolha uma igual extensão de terreno, na Comarca mais abundante de gados, para este se comparar com outra igual extensão de terreno na Comarca de Castelo Branco, dificultosamente haverá uma que iguale a numerosa creação do distrito de Castelo Branco e os nove concelhos do seu termo: Idanha Nova, e Velha, Proença, Zibreira, Salvaterra, Segura, e Rosmaninhal. Logo falhão todos os argumentos de congruencias e Regras gerais, que não são aplicaveis àquele terreno.
De todos estes factos se segue, que alterar o actual sistema de economia, dando liberdade aos donos das terras que as tapem, seria arruinar vinte mil familias que na comarca vivem da industria exposta, sem possuirem terras, ou bem poucas. Alteração que afectaria tão bem os Comuns das folhas da Vila de Niza; da do Crato, e dos Tarrejaes de Evora, e outras terras, onde eles se conservão em beneficio do publico. Seria privar os concelhos e o comum dos povos das suas rendas. Seria diminuir a creação dos Bois, e Vacas, egoas, e bons cavalos, ovelhas, cabras, e porcos. Seria privar o comum da sua propriedade dominante, e aplicá-la a quem não pertence.
Não haverá modo de compensar aos povos, a fecundidade que se lhe tirava. As terras, todas teem donos, e em consequencia não pode verificar se a lembrança dos economistas, de se repartirem pelos povos, sem fazer uma violencia aos donos dessas terras. A Lei das Sesmarias não lhe é aplicavel por que essas terras não são incultas ou desamparadas, mas elas se cultivão, guardada a ordem das folhas, segundo o uzo dos povos, como recomenda o § 8º do Titulo das sesmarias. Se no meio desta dificuldade se distribuissem essas terras; como a sua qualidade é tão fraca que delas não poderia esperar-se durar na produção, elas não interessarião os distribuidos nem seria então conforme ao § 14 e 10 dar-se de sesmaria umas terras que não produzindo, só servião de impedimento para a creação dos gados.
Seria finalmente impossivel compensar a riqueza que todos os anos advem à Comarca de 25:600$000 de Lãs: a riqueza do produto dos queijos, das carneiradas, e das chibatadas; e sobre tudo do imenso numero de Bois, e vacas, e gados cavalares e isto com uns tristes bagos de centeio que não chegarião para as rendas das terras dos donos, para todos os mais perecerem à fome. E seria engrossar 10 ou 12 com o que não comprarão nem herdarão para emagrecer o resto de todos os habitantes da comarca.
O Estado interessa mais em que haja muitos abastados que poucos ricos. É mais felis aquele em que os povos tem mais recursos, e meios para subsistir e se acrescentar. Então são os naturais mais pegados ao seu paiz por que aquelles que nada possuem, facilmente o dezamparão, e o desprezão. E seria o mayor escandalo do Estado, ver no meio de campos respectivamente ferteis morrer de indigencia os seus habitantes; ao mesmo passo que o uzo primitivo das terras; a posse longeva e a paternal providência dos Senhores Reis, proveo a sua subsistencia e fartura, fazendo os participantes da abundancia universal do seu terreno em que nascerão.

                           O Corregedor Gaspar de Souza Barreto Ramires"

Que boa caricatura sobre estes temas

Nota dos editores - 1) A nossa pesquisa levou-nos aos cargos de Gaspar Sousa Barreto Ramires registados no ANTT:
- Carta. Juiz de fora da cidade de Castelo Branco. Data 1781-03-22. Código de Referência PT/TT/RGM/E/0000/95137. Cota actual Registo Geral de Mercês de D. Maria I, liv.10,f.236
Carta. Corregedor da Comarca de Castelo Branco. Data 1784-08-23. Código de Referência PT/TT/RGM/E/0000/95139. Cota actual Registo Geral de Mercês de D. Maria I, liv.10,f.236
- Provisão. Juiz Conservador do Contracto do Tabaco na Comarca de Évora. Data 1794-06-07. Código de Referência PT/TT/RGM/E/0000/95142. Cota actual Registo Geral de Mercês de D. Maria I, liv.10,f.236 v

As Publicações do Blogue:
Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:
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As publicações sobre os Contributos para a História dos Lanifícios:
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