domingo, 5 de janeiro de 2014

Covilhã - Os Jesuítas II


   Como encontrámos no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias uma pasta sobre Jesuítas covilhanenses ou que se fixaram na Covilhã, continuamos hoje a publicar o tema a eles dedicado.
    A Companhia de Jesus foi fundada por Santo Inácio de Loyola que nasceu em 1491 no País Basco – Azpeitia – e morreu em Roma em 1556.
    Os Jesuítas entram em Portugal no reinado de D. João III, através de Francisco Xavier e Simão Rodrigues e tendo como pontos de partida Lisboa, Coimbra e Évora, toma nas suas mãos o ensino e a organização da missionação das colónias.

    Acompanhemos os Jesuítas nascidos na Covilhã e arredores em fins do século XVI e sobre os quais temos informações interessantes: fichas, fotografias de documentos originais – cartas, autógrafos ou profissões de fé - que pensamos poderiam ter-se destinado a uma exposição, ou a um "Dicionário" de covilhanenses ilustres.
   Também vamos publicar uma carta sobre uma ida à Covilhã do jesuíta Padre Manuel da Nóbrega que viveu entre 1517 e 1570 e chefiou a 1ª missão jesuítica na América.

          O Padre Manuel da Nóbrega fez uma missão na diocese da Guarda e aí aparece um trecho de uma carta dele para os irmãos do Colégio de Coimbra:
Véspera de S. João parti para a Covilhã. Villa de muita gente. E porque me furtaram ou eu perdi o sombreiro no caminho, fui ao sol três legoas, achei-me lá meyo doente, preguei ao dia a muito descontentamento meu, E do povo porque eu sou quem sou: foi de maneira que quando veyo ao Domingo seguinte, que eu havia de pregar outra vez, disse hum cura, que havia pregação em tal igreja, porém pera que hera ouvir me, que eu nam dizia nada, e outras palavras semelhantes. Aquelle Domingo preguei melhor, E publiquei, que à tarde em todos os Domingos e dias santos ensinaria os mandamentos a toda a gente, e pella semana todos os dias aos meninos. Dia de Nossa Senhora da Vizitação preguei a muito concurso de gente, e a contentamento meu e do povo: Ao Domingo também e melhor que nunca; foi de maneira que era honrado já, E me lançavam bençãos, por onde hia “. (1)

VI - Padre Manuel Rodrigues - (O Padre Caridade)

Nasceu na Covilhã, filho de Francisco Gonçalves e de Guiomar Rodrigues, entrou na Companhia a 27 de Dezembro de 1571 e morreu a 20 de Setembro de 1612 . 
- "Relação da peste que devastou a cidade de Coimbra no ano de 1599 e do que obrou e mais seus companheiros em socorro dos empestados" (2) 

VII - Padre António de Proença

Natural do Fundão, filho de Silvestre de Proença e de Jerónima de Sousa, entrou na Companhia em 17 de Outubro de 1574.
Professou solenemente em 10 de Março de 1602 e em 1603 seguiu para a Índia, onde morreu. (3)

VIII Venerável Padre Manuel da Cunha

Proto mártir na gloriosa missão de Mayssur, natural de Aldeia Nova do Cabo. (4)

IX - D. Diogo Seco


    

"Natural da Covilhã, filho de Manoel Seco e Maria Jorge. Com 16 anos entrou no noviciado de Coimbra da Companhia de Jesus em 23 de Março de 1591 “e no mesmo colégio aprendeu Humanidades e poesia latina em que saiu eminente de tal sorte que sendo mestre da 3ª classe no Colégio de Lisboa representou no ano de 1604, na presença do Ilustríssimo Bispo de Coimbra D. Afonso de Castelo Branco, quando este chegou a Lisboa eleito Vice Rei de Portugal, uma tragédia cujo assunto era a vida de S. Antão. Fizeram as figuras os filhos dos principais fidalgos do Reino. Esta obra deu-lhe universal aplauso.
Depois de ter ditado em Coimbra, duas vezes, a classe de Humanidades, ensinou Filosofia e Teologia mostrando em uma e outra faculdade engenho, agrado e talento profundo.
Partiu para Roma no ano de 1618, para revisor dos livros da Companhia de Jesus. Aí leu teologia, sendo admirado por toda a cúria a sua profundidade Teológica e  eloquência Latina.
Como na sua pessoa concorriam tantos dotes, foi eleito Bispo de Niceia, para sucessor do Patriarca da Etiópia, o P.e Afonso Mendes. Foi sagrado a 12 de Março de 1623. Pouco tempo correu que não se fizesse à vela para o destinado termo das suas angélicas fadigas, embarcando-se a 25 do dito mês em a Nao Stª. Izabel de que era almirante D. Diogo de Castelo Branco. As infermidades que com pestífera brevidade extinguiam grande parte dos navegantes chegou a privar da vida o almirante, de cuja morte ficou tão penetrado, que passados poucos dias o acompanhou em tão funesta calamidade a 4 de Julho de 1623.
Foi insigne poeta latino de cujas poesias conservava grande parte o P.e Baltazar Teles, uma das quais sobre a frescura da Serra da Arrábida e mosteiro dos Seráficos Religiosos. 
   Apreciemos esta poesia em latim e na primorosa tradução portuguesa feita na década de setenta do século passado pelo jesuíta covilhanense António de Almeida Fazenda, a pedido do investigador Luiz Fernando Carvalho Dias.



A Arrábida


Arrabida Mons = Serra da Arrábida
(Tradução)

Lá onde o sol no mar do Ocidente
Afunda as chamas do seu carro ardente
E onde o Oceano investe duro
A terra, que lhe opõe seu forte muro,
Há um lugar, oh! Príncipe eminente,
Gloriosa luz da Lusitana Gente,
-Pois no vosso coração volveis
Sangue de tantos, tão ilustres reis-
Um sítio que, com justa diligência,
Do princípio do mundo a Providência
Vos guarda, exultante de riqueza
Que gozosa opulenta a natureza.

Iminente aos escolhos, altaneira
Sobre os cumes ondeia a cabeleira
Da cerrada beleza da floresta;
Variedades sem fim viceja a fronde,
E em mil formas e cores lhe responde
Garrida flor em colorida festa.

Enquanto as ondas galgam, à conquista
Das angras fragorosas, vêm a vista
Os astros no arvoredo regalar;
E, se as águas são fogo no verão,
Dóris bela e cem Ninfas lá irão
À fundura dos vales refrescar

Não há canto, onde o vidro transparente,
De fonte regelada não rebente
E não se ponha com o seixo à fala;
Serpeia a clara linfa na verdura,
E toda a confidência que murmura,
Alegram-se as ervinhas de escutá-la.

Cala-me, oh! Tempe, a glória da Tessália,
E o Peneu, fecundo role e cale-a,
Com rica abundância que lhe dá...
Siga seu curso rápido e veloz,
Fuja ao tormento e à amargura atroz
De volver os seus olhos para cá.

Se ele atingisse a altura destes montes,
E a tais vales descesse de tais fontes,
Ante esta maravilha, é minha mente
Não só que suas águas refreasse,
Mas que, negando ao mar a própria face,
Suspenso aqui ficasse eternamente.

Toda a vez que aqui vem o Cíntio Apolo,
Olvida o seu amor ao pátrio solo
De Delos, que lhe viu o nascimento;
E Diana, com a sua comitiva,
Destas serras ao ver a perspectiva,
O Cinto nem lhe acode ao pensamento.

Desdenha aqui do Irmão a ardência brava,
Pendura ao ombro a perigosa aljava,
Solta os arcos sonoros e os cavalos;
Lábios de rubra chama e olhar feliz,
Espera, de emboscada, os javalis,
P’ ra a tiros, de surpresa, trespassá-los.

Já corre atrás de bandos de veados,
Já no sopé dos montes, alagados
Da muita água por eles despenhada,
À rede enganadora, com seus brados,
Por manhosos ardis multiplicados,
Leva e colhe infinita passarada.

Ou então põe seu gosto na armadilha,
Que assenta habilidosa, onde filha
Da orelhuda lebre a timidez;
Ou, despedindo a zunidora seta,
Que grande complacência, quando espeta
O quadril da veloz cabra-montês!

Oh! Anfião, que ao som da tua lira,
Talhas na rocha o canto, e ele gira
A assentar-se no muro que alevantas,
Não cuides que estas fragas ou colinas
Fossem após as músicas divinas
Com que na Grécia os pedregais encantas...

O que é mais certo sucedera aqui,
É que elas te chamassem tanto a si,
Te enlevassem de tanta suspensão,
Que o silêncio calasse a sua lira,
Sem palheta nem dedo que a ferira,
Esquecida de encanto a tua mão...

O Rei do Canto e da Harmonia, Orfeu,
Que, segundo se conta, faleceu
Da sua inconsolável viuvez,
Se entre estes bosques modulara a voz,
Teria mitigado a dor atroz,
Eternizado Eurídice talvez...

Aqui as auras esvoaçam ternas,
Afagam com amor estas cavernas
E bafejam de graça belas flores;
E as Ninfas engodadas pelas sombras
Dos cerros ervecidos como alfombras,
Habitam facilmente estes frescores.

Rompendo a água mansa com seus braços,
Curvam-se abruptas penhas em regaços,
Que embalam na moleza areia fina;
Aqui, os ventos morrem e sossega
O mar, que não mostrando uma só prega,
Recorda a placidez da paz divina.

As águas, superfícies de patena...
Grata mansão do Pego, tão serena,
Que imita do seu dono a mansidão;
Aqui, gosta Neptuno de acolher-se;
Cansado, vem aqui a refazer-se
De todas as maçadas que lhe dão.

Aqui, Senhor, estupefacto vedes
Com que empenho ele empurra para as redes
Apetecidos peixes em cardume;
Sempre a vosso serviço bem disposto,
A vontade de em tudo vos dar gosto
É nele, há muito, habitual costume.

E agora enorme assombro! Como nunca
Tão funda se abriria a espelunca,
A Santa Margarida dedicada!?
No lindo nome a santa, e no semblante,
É pérola de luz, tão deslumbrante,
Que o Céu no-la levou arrebatada.

Difunde o meigo rosto suavidade,
E, no enlevo da sua claridade,
As sombras da caverna transfigura;
Ao pé do Santuário água perene,
Bem mais inspiradora que Hipocrene,
Mais salutar, mais deliciosa e pura.

Junto do alto monte, sem amparos
De colunas da Líbia nem de Faros,
Mas de calaus grosseiros de ali perto,
Fez-se a Casa, depois que das cidades,
A Virtude, coagida às soledades,
Foi meter-se nas brenhas do deserto.

Pobreza e Piedade nestes cumes,
Pela Idade do Ferro e p’los ciúmes
Da cobiça às alturas relegadas...
Feliz a Religião aqui floresce,
Paz e Calma, que o mundo desconhece,
São sempre nestas choças encontradas.

Olha, em disfarce de figura humana,
A Pobreza, opulenta Soberana,
Que riquezas eternas distribui!...
Virtudes mais ilustres que as estrelas,
Em homens sobre-humanos pode vê-las
Quem ao Convento for, como eu lá fui.

Abrem por todo o lado as penhas brutas
Em seus roídos seios amplas grutas,
Donde temeis vos salte alguma fera...
Não são covis, são belos santuários,
São, no fervor de tantos solitários,
Do Palácio de Deus salas de Espera!...

Aqui víreis primeiro a Frei Martinho,
Que, inspirado de Deus, abre o caminho
Destes ásperos montes para o Céu...
Insigne na piedade, aqui se esconde,
Mas calca fundas, mil pégadas, onde
Corre a progénie que o Senhor lhe deu.

Para Miguel não são precisos rastros,
É Águia que se eleva sobre os astros;
-Voos de Arcanjo e nome de Falcão...
Mas há tantos que põem às escuras
As mais belas estrelas das alturas
E nos cobrem a nós de confusão!...

Aqui, oh! ilustríssimo Senhor,
Vos traz alguma vez vosso fervor;
Aqui vos repousais, no esquecimento
Dos cuidados da vida e seu tormento;
Aqui se põe, a vosso olhar, patente
O trono de Deus Pai Omnipotente;
Aqui, sedento e absorto, meditais
A doçura das coisas eternais;

Aqui mostrais, na vossa justa estima,
Que as colocais imensamente acima
Dos magníficos Paços sublimados,
Tão alto sobre as nuvens levantados,
Que com tanto primor e ostentação
Mandastes construir em Azeitão;
Aqui, enfim, mostrais a propensão
Do vosso grande espírito cristão. (5)

Convento de Nossa Senhora da Arrábida


A Arrábida


Em Latim

Quà sol occiduo mergit gurgite currus,
Et Pater Oceanus terrae quà fluctibus obstat,
Est locus (ó Regum soboles numerosa parentum
Lusiadumque decus Princeps) quo numinis alti
Cura tibi merito terrarum ab origine servat
Naturae gaudentis opes.
                     Hîc pulchra comanti
Incumbens scopulis consurgit vertice silva:
Mille virent frondes diversae, mille perennant
Elysei flores vel quà (per aperta sonantes
Dum subeunt fluctus) spectantia sidera montes
Intonsi recreant, vel quà formosa jacentes
Doris amat valles, centumque ex aequore Nimphis
Immites egressa levat sub fronde calores,
Cum fervet rapidus Neptuni Syrius undâ.
Híc passim gelidi vitreo de fonte liquores
Emanant, lapisdesque cient, et amoena vireta
Obliqui subeunt, et laeto murmure complent.
                     Cedite Thessaliae felicis gloria Tempe
Quique vagas fluctu longe Peneus amoeno
Auget opes, rapidoque fluens petit aequora cursu;
His tamen ille cadens devectus montibus, hisque
Vallibus eexceptus, placida ad spectacula lymphas
Frenaret, serusque daret, si forte dedisset,
Oceano fluctus.
                      Maternam Cynthius (oras
Has quoties visit) mittit de pectore Delon;
Nec gelidi meminit Cynthi juga quaerere, montes
Hos quoties stipata choris Diana verendis
Adspicit; huc fratris jam dedignata nitores
Itaetantes immittit equos arcusque sonantes
Explicat, acque humeris suspendit laeta pharetram:
Aut latitans telis incautos excipit apros,
Errantesque greges cervorum cauta fatigat,
Aut liquidos, quà parte lacus e montibus amnes
Efficiunt lapsi, innumeras ad rara volucres
Retia compellit: positis seu fallere gaudet
Auritos laqueis lepores, et figere damas.
                  Amphion (cujus Dirces de rupibus olim
Saxa tulit, jussitque lyra componere Thebas
Sponte sua muros) non haec saxa canentem,
Aut tua tam pulchri sequerentur carmina colles,
Sed traherent, possetque manus mirata tacentis
Non meminisse chalys. Nec Rodhopeius heros,
Has inter silvas, modulus si voce dedisset,
Eurydicis maestos possuisset corde dolores
              Hîc dulces Zephyri volitant, haec antra salubris
Aura fovet, variosque inducit gratia flores
Per nemus, et faciles habitant juga mitia Nymphae.
Hîc blanda abruptae perrumpunt aequora rupes,
Et molle includunt curvata in brachia littus.
Hîc placidum ventis semper mara fluctibus obstat,
Grata quies pelagi, nulloque excita furore
Stagna modesta jacent, Dominique imitantia mores:
Neptuni dilecta domus, quo fessus ab alto
Se recipit, miràque loci dulcedine captus,
Praeteriti stimulos ponit de corde laboris;
Huc ille innumeras sinuata ad retia, Princeps,
Fert praedas, totosque greges ex aequore laetus
Compellit, gaudetque tibi parere jubenti.
             Hîc vastum spelunca patet depressa per antrum;
Sacra domus Nymphae, cujus de nomine gemmae
Lux melior fulget, stabilis quam regia caeli
Exceptam servat; facies hanc blanda benignis
Offundit radiis; delubra ad sacra perennes
Exsudant latices, quales nec docta poetis
Ungula sacravit, nec queis ad carmina Musa
Majores cupiat.
            Celso stat monte propinqua
Non Phariis Libycisve domus fundata columnis,
Sed saxo congesta rudi, quae culmina (Virtus
Effugit postquam pennis velocibus urbes)
Paupertas Pietasque colunt, quas dira cupido
Fereaque e terris ad caelum compulit aetas.
Pax sedet, eaternasque (hominum simulata figuram)
Pauperies ostentat opes: Virtutibus aequat,
Vel superat coetus mortali augustior astra.
              Adparent passim exesis sub rupibus antra,
Antra, quibus caelum spatiosa palatia pandit;
Hîc ille insignis latuit pietate (secutus
Qui quondam nutum, vitae, per dura jubentis
Ire Dei) sacri coluit culmina montis,
Alta petens, sociisque viam patefecit Olympi.
Hinc Michael celeri conscendit in astra volatu,
Moribus et pennis Michael, sed nomine Falco,
Atque alii, quorum ornantur virtutibus astra.
             Has sedes aliquando petis, clarissime Princeps;
Hîc te sollicitae capiunt oblivia vitae.
Hîc Pater ipse Deum totum tibi pandit Olympum,
Dulciaque aeternae meditaris gaudia vitae.
                Haec magis apta tuis, Princeps, stant moribus ergo
Quam quae regali jussisti instructa paratu
Inferius positas monumenta excedere nubos.

(Assim cantava, diz Baltasar Teles, este divino poeta). (6)


Fontes –  1) Padre António Franco, na pag 164 do 2º volume da Imagem da Virtude no Colégio de Coimbra,
2) Padre António Franco, "Imagem da Virtude no Noviciado de Coimbra", pag 493
3) Noviciado de Coimbra, pag. 506
4) Noviciado de Coimbra, pag 661
5) Esta tradução foi feita  em Lisboa, 19/4/1970 por Padre António de Almeida Fazenda, S.J. e copiada a 31/1/1972.
6) Teles, Baltasar, S.J., 1596-1675 - Historia geral de Ethiopia a Alta, ov Preste Ioam e do que nella obraram os Padres da Companhia de Iesus, 1660.
pags 390 a 392, IV tomo, Cap. XXIII,
https://bdigital.sib.uc.pt/bg1/UCBG-2-21-9-15/UCBG-2-21-9-15_item1/P440.html
Outras obras também referem D. Diogo Seco.

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