domingo, 20 de abril de 2014

Covilhã - O Cancioneiro Musical da Covilhã e o Engenheiro Melo e Castro


    Estas reflexões de Luiz Fernando Carvalho Dias serviram de prefácio à publicação de 1984 “Cancioneiro da Covilhã”, aquando do 1º Centenário da Escola Industrial Campos Melo da Covilhã. Apresentamos também duas músicas - o Bendito do Campo - “o Bendito da procissão do Senhor dos Enfermos da segunda-feira de Páscoa” e Duas Canções de Roda (Refúgio). Sobre estas canções de roda disse Luiz Fernando Carvalho Dias: "o Eng. Mello e Castro, nessa altura, como depois outros músicos, buscava na Beira as canções da roda de tirar água: foi pela minha mão que recebeu a única do seu cancioneiro e creio que raríssima".
      Na parte final publicamos uns dados biográficos de Mello e Castro, não revistos, da autoria de Luiz Fernando Carvalho Dias.

O Cancioneiro da Covilhã
e o
 Eng.º Ernesto de Mello e Castro

            Das minhas andanças na Mancha da bibliografia algo haveria de contar. Hoje cabe a vez ao Cancioneiro Musical da Covilhã, recolhido e preparado pelo Eng. Ernesto de Mello e Castro, de como veio à minha posse e porquê. É o que passo a descrever.

            Por voltas de 1970 comecei a organizar um dicionário de autores covilhanenses, com o intuito de acertar as minhas pesquisas nesse sector, feitas até então, e para prosseguir no registo de trabalhos de interesse regional, publicados posteriormente às grandes bibliografias gerais de Inocêncio Francisco da Silva, de Brito Aranha e de Martinho da Fonseca. Dentro dos limites de tal objectivo ordenei um questionário, distribui-o e publiquei-o nos jornais locais e quedei à espera do resultado. Com quanto as respostas me não tivessem decepcionado, notei no entanto, que muitas pessoas a quem dirigira o questionário e eu sabia autores de trabalhos literários e técnicos publicados, alguns até com quem não mantinha relações pessoais, não responderam, ou porque a iniciativa carecia de actualidade ou porque viram nela mais um gesto de promoção pessoal do que uma valorização de interesse comum.
            Puz a iniciativa de remissa e aguardei melhor oportunidade.
            Há meses, revendo esses papéis, topei entre as fichas com algumas referentes a membros da família Campos Mello que o eng. Ernesto, então interessado na iniciativa, se prontificara a redigir e, junto delas – o Cancioneiro da Covilhã.

            Recordo que ao confiar-mo, me dissera:
            - Se um dia tiver oportunidade, publique-o.

            Várias vezes o tentei, mas em vão, se não quando me apareceu o Francisco Geraldes a falar no Centenário da Escola Industrial e nas festas que se propunham realizar. Pensei que era a oportunidade de publicar o Cancioneiro do Eng. Mello e Castro, como homenagem ao seu autor que fora Director da Escola durante muitos anos, e homenagem à Escola que assim via consagrado quem fora um valioso elemento do seu corpo docente.
            Acrescia a circunstância de ter sido o Cancioneiro motivo para o seu autor organizar na Escola, entre alunos, quando Comissário da Mocidade Portuguesa, um Grupo Coral para a execução e difusão das canções do folclore da Covilhã. A iniciativa constituiu, na altura, uma expressão cultural de muito interesse e mereceu do público uma total adesão.
            Francisco Geraldes propôs-se imediatamente a integrar a publicação do Cancioneiro no programa das festas centenárias e, dado que o original estava em borrão, mandá-lo copiar convenientemente, trabalho de que se encarregou o filho Marco Paulo Fernandes Raposo Fazendeiro Geraldes.
            As minhas relações pessoais com o Eng. Ernesto de Mello e Castro, embora sempre atenciosas – foram cerimoniosas, e só o comum interesse pelas tradições da Covilhã, justificaram a oferta do Cancioneiro. Trinta anos, no fim da década de trinta, sugestionados pela publicação do livro de Rodney Gallop, e sobretudo pelas surpreendentes colheitas de António Joyce, no Paul e em Monsanto, deambulámos ambos pela Boidobra e pelo Refúgio, acompanhados do seu pequeno órgão, em busca das canções da Covilhã. Poderia estar aqui a razão da amável oferta de que fui alvo?
            Eu não sabia música, mas romeiro da mesma peregrinação folclórica já antes percorrera aqueles caminhos à cata de rimances e quadras populares, por isso estava em condições de servir de cicerone a quem dominava a música. Nesses tempos buscava eu, na tradição local, elementos líricos sobre Santa Maria da Estrela, mas eram turvas as águas onde navegava, todos me repetiam que a melodia da Senhora da Estrela se confundia com o Coração de Maria do Ferro. Por isso, o Coração de Maria do Ferro entrou no Cancioneiro do Eng. Mello e Castro. Mais tarde D. Maria d’Ascenção Carvalho Rodrigues faria dissipar o engano a que as nossas deduções de então, ingenuamente nos levaram. O Eng. Mello e Castro, nessa altura, como depois outros músicos, buscava na Beira as canções da roda de tirar água: foi pela minha mão que recebeu a única do seu cancioneiro e creio que raríssima.

            “Anda, minha roda, anda...”

            Anoto, por isso, os locais da freguesia da Boidobra e do Refúgio onde foram recolhidas esta e outraas canções e ainda o nome das colaboradoras: quinta Velha ou Polito Pequeno, com elementos da família Gaiola e Neto (Guilhermina e Maria); Quinta do Ribeiro Negro, com elementos da família Carrola e Mingote (Maria, Piedade, Conceição e Teresa), frente à loja do sr. Santarém (Natividade de Oliveira, Anita Curto, etc.).
            Não colaborei na colheita das canções de Orjais, do Teixoso e de Verdelhos e desconheço as condições da sua recolha, mas sei terem sido posteriores às da Boidobra e do Refúgio.
            As recolhas da Covilhã coincidiram cronologicamente com estas últimas e essas canções provêm de fontes várias. Andavam nos ouvidos de todos nós como o Bendita e Louvada Seja das novenas da Imaculada Conceição do Antigo Convento de São Francisco; o Bendito da procissão do Senhor dos Enfermos da segunda-feira de Páscoa; o São João da Covilhã e o São João do Campo; e as canções do Natal, versão diferente das estropiadas na versão de Gallop e as Janeiras.
            Além destas e outras canções, o Cancioneiro da Covilhã de Mello e Castro contém algumas cantigas das romarias da Beira tal como os romeiros da Covilhã as entoavam: refiro-me designadamente à Senhora da Póvoa de Vale de Lobo, à Santa Luzia do Castelejo, à Senhora do Desterro do outro lado da Serra da Estrela.
            Reparo ainda, sem encontrar explicação para a falta, na ausência de outras canções que eu sabia constarem da recolha do Eng. Ernesto de Castro, como por exemplo o Senhor Deus Misericórdia das procissões da Semana Santa, canto propiciatório nas tempestades e naufrágios das naus da India; os Martírios – da quaresma; o Encomendar das Almas – tudo recolhido nos mesmos locais e na mesma época. Sou levado a atribuir tal ausência, na minha colectânea, a que esta resumiria somente as canções exibidas pelo Grupo da Mocidade Portuguesa e não todas as canções recolhidas primeiramente.
            De qualquer modo considero o Cancioneiro Mello e Castro, não como um cancioneiro definitivo do folclore covilhanense, mas como uma nobre tentativa, capaz de ser aprofundada, completada e alargada por novas pesquisas noutras zonas do concelho da Covilhã.
            O Eng. Ernesto de Mello e Castro, embora esta sua obra tenha tardado muito, deve considerar-se como um pioneiro na pesquisa, recolha e difusão da música popular da sua terra.
            A recolha oferece ainda garantia de genuinidade e pureza dum meio de 1940, pouco poluído pelos meios mecânicos de difusão sonora. O campo aparecia como um oásis aonde não chegava a perversão dos ritmos doentios que a música exótica trazia no ventre.
          
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*              *

            O Eng. Ernesto de Castro apesar de ter vivido na Covilhã a maior parte da vida, finou-se em Lisboa, em Agosto de 1973, com 77 anos incompletos.
            Morrer em Lisboa, teatro de glórias fenecidas e de desvairos deste povo... merecia melhor sina quem nascera na Covilhã e se empolgara com os motes lígios e ilírios de seus cânticos, merecia que se lhe postassem em homenagem os pinheiros esguios e simples de Santo António e do Sineiro... e extintos os derradeiros pontos do Requiem, o amortalhasse carinhosamente a terra donde veio e o vento, em seguida, arrancasse das copas das árvores, em ritmos de adufe, a canção que ele considerava e repetia como hino à vida e à alegria da sua Covilhã.

“Agora é que ela vai boa
Já me cá vai agradando...”

Luiz Fernando Carvalho Dias


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Nota - Onde se lê "Lá em cima altar-mor", deve ler-se "Lá em cima ao altar-mor"


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Dados biográficos não revistos da autoria de Luiz Fernando Carvalho Dias

"O Engº Ernesto de Campos de Melo e Castro, ou Engº Ernesto de Castro como melhor o conhecíamos, nasceu na freguesia de S. Martinho da Covilhã em 9 de Outubro de 1896, filho de José Maria de Melo e Castro e de D. Carolina Eugénia da Silva Campos. Era neto paterno de José Guilherme de Castro e de D. Guilhermina da Silva de Campos Melo e materno dos Viscondes da Coriscada Francisco Joaquim da Silva Campos Melo e Carolina Eugénia da Silva Campos.
Seu bisavô Fernando de Castro, tabelião de notas na Covilhã, como estimava, ele engenheiro, de me repetir e até escrever, encontrou-se entre os “bravos do Mindelo” e justifica a circunstância do pai deste Fernando de Castro – Gaspar Pereira da Costa, industrial de lanifícios em Pedrouços e mais tarde da governança da vila da Covilhã, ter fugido dela e morrido no Cerco do Porto.
A sua avó D. Guilhermina da Silva, uma senhora velhinha, muito simpática e muito culta, ouvi eu um dia recordar a vinda de Camilo Castelo Branco à Covilhã, quando escrevia “O Judeu”, de quem ela se considerava descendente pela linha Silva. Não curei deste facto porque o sangue covilhanense corrente na descendência do comediógrafo António José da Silva não vem dele, mas sim de sua mulher, Leonor Maria de Carvalho, esta sim natural da Covilhã.
Também o Dr. Francisco Miguel Henriques da Silva, durante muitos anos Conservador do Registo Civil na Covilhã, me confessou caber à sua gente a representação do malogrado António José da Silva. Nunca me dei ao trabalho de pesquisar se o “Silva” de um e outro lado era o mesmo, mas “Henriques da Silva”, pelo lado Broco representava uma das mais velhas famílias do gheto covilhanense, como se conclui do Tombo dos Bens de S. Lázaro de 1500. Os “Melos” e os “Silvas” do Engº Campos Melo, já aristocratizados, chegaram de outras bandas e já tardiamente. Da mesma avó D. Guilhermina vinha, ao Engº Ernesto de Castro o sangue Campos Melo que ele, com razão, considerava o cerne da sua estirpe, que não da sua personalidade. O Povo, no seu linguarejar arcaico, chamava-lhes os “Melas”, epíteto castelhanizado a evocar uma origem e uma raça. O século XIX covilhanense foi deles e só deles. Eles foram os arautos da inovação e do progresso no comércio e na indústria, como na época anterior o foram os Pereira da Silva, os Henriques de Castro, os Mendes Veiga e os Pessoas de Amorim. Mas enquanto estes deixaram casas pintadas, os Campos Melo, para além  das naturais fraquezas humanas dos palácios armoriados de latão e das ameias de porcelana, dos quadros de comendadores, das faixas e das veneras amarelas, deixaram uma herança cultural, comercial e industrial; deles permaneceram as novas técnicas comerciais e industriais largamente difundidas, as novas máquinas importadas directamente da Europa e, acima de tudo, a Escola Industrial, esse alfobre da indústria covilhanense do século XX. A esta escola, fundação da sua família, consagrou o Engº Ernesto de Melo e Castro depois dos anos trinta, a sua actividade profissional de engenheiro químico-industrial.


Escola Secundária Campos Melo

A indústria e o comércio criam riqueza e bem estar, facilitam a difusão da cultura, a própria actividade revestia aspectos de ética profissional a que a firma Campos Melo conscientemente se vinculara e religiosamente cumpria. Também um escrupuloso respeito pela ética profissional, tanto no comércio como na indústria, constituíram um verdadeiro timbre de nobreza desta gente e uma lição permanente para a Covilhã. Ora nem durante o liberalismo da monarquia, nem na república, apesar de em horas atribuladas compartilharem as mesmas dores, nunca os agrários do sul do distrito os convidaram a desfrutar a lauta boda ou depois a jogar os dados da tavolagem política. Por isso a Covilhã dessa época correu sempre marginalizada pela política, resolvendo por si as suas crises, perante a indiferença geral, gozando os seus triunfos de progresso e de abastança por entre a inveja e o ódio dos que nada faziam.

A actividade política dos Campos Melo além de eleições locais, do jornal “A Sentinela da Liberdade”, da Campanha do “Papa Rei e o Concílio” (que apesar de no Index, colheria hoje os votos do Concílio Vaticano II), e da recepção e jantares a Ministros visitantes, a pouco ou nada mais se resumia".

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As Publicações do Blogue:
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As Procissões no século XVII na Covilhã:
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Os Jornais neste blogue:
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Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/11/covilha-lista-dos-sentenciados-na.html

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