sábado, 17 de janeiro de 2015

Covilhã - Os Ventos do Liberalismo/Os Ventos do Miguelismo V

O século XIX é um período de grandes transformações políticas, económicas e sociais. As ideias liberais fervilham por todo o mundo, opondo-se ao absolutismo vigente.
 Encontrámos no espólio e nas publicações de Luiz Fernando Carvalho Dias alguns documentos que nos elucidam que na Covilhã também se viveram momentos revolucionários e contra-revolucionários. Houve muito descontentamento, reuniões secretas da maçonaria ou doutras associações (“sociedades denominadas patrioticas”), prisões, exílios, mortes, quer de miguelistas, quer de liberais constitucionalistas ou cartistas. Que miguelistas? Que liberais?

Os documentos que estamos a apresentar sobre a Covilhã acompanham a guerra civil que os portugueses viveram ao longo de várias décadas do século XIX: a Vilafrancada miguelista em Maio de 1823; a Abrilada em Abril de 1824, cuja derrota obriga D. Miguel a abandonar o país; a morte do rei D. João VI em Março de 1826 e o início da Regência da Infanta Isabel Maria; a Carta Constitucional outorgada por D. Pedro que se encontrava no Brasil, o 1º Imperador; a abdicação de D. Pedro em sua filha, Dona Maria da Glória, como Dona Maria II; o regresso de D. Miguel em 1828 e o país virado do avesso.
 Todas estas divergências e dúvidas parecem ficar esclarecidas quando D. Miguel, ao regressar de Viena em 1828, é aclamado Rei absoluto. Contudo há focos de oposição por todo o país, desde a Covilhã, passando por Aveiro, Faro, Porto e Coimbra. Aqui aconteceu um facto insólito e triste, quando uma comitiva foi a Lisboa em nome da Universidade saudar o rei D. Miguel e foi apanhada perto de Condeixa por um grupo de estudantes, os Divodignos, pertencentes a uma sociedade secreta de cariz liberal. Mataram e feriram a tiro aqueles miguelistas. O governo miguelista vai ser fortemente repressivo e persecutório, originando julgamentos, mortes e muita emigração de liberais para Inglaterra e Açores. Será pertinente fazermos referência ao que podemos chamar miguelismo, uma espécie de sebastianismo negro?
Oliveira Martins apresenta números da repressão miguelista: nas prisões 26270; deportados para África 1600; execuções 37; julgamentos por contumácia 5000; emigrados 13700. Segundo Vítor Sá foi considerada culpada à roda de 15% da população. Há ainda outros números: cerca de 80000 famílias, cujos bens foram confiscados.
A oposição liberal manifesta-se e centra-se no Porto, desde que D. Miguel é aclamado rei absoluto. Os absolutistas liquidam estes revoltosos que, no entanto, se vão conservar vivos, mas longe, no estrangeiro europeu e na Ilha Terceira (Açores). Para defender o trono de sua filha Dona Maria, vem ter com eles D. Pedro, o IV e o 1º Imperador do Brasil. Para combater os 80000 soldados miguelistas, consegue juntar mais de 7000 soldados que irão encontrar-se várias vezes numa triste guerra civil entre 1832 e 1834 que só termina com a Convenção de Évora Monte (1834). Enquanto uns combatem outros legislam: Mouzinho da Silveira lidera o primeiro Ministério liberal promulgando reformas económicas, sociais, fiscais, administrativas e judiciais.



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Embora ainda não tenhamos encontrado no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias documentos do período da Guerra Civil de 1832 a 1834, deparámos com uma rica “Relação dos maços da Correspondência dos corregedores das Comarcas do Reino e juízes de fora com o Intendente Geral da Polícia da Corte e Reino” que vamos publicar. Dessa lista escolhemos o respeitante à Covilhã que referisse algo que possa levar-nos a descontentamentos ou desordens políticas, bem como à Guerra Civil em curso. 

Intendência Geral da Polícia
Relação dos maços da Correspondência dos corregedores das Comarcas do Reino e juízes de fora com o Intendente Geral da Polícia da Corte e Reino

Maço 332
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, 16/2/1830 sobre cantos constitucionais em Aldeia de Mato.
- Carta do juiz de Fora da Covilhã sobre a desordem no Convento de S. Francisco de 13/12/29. Covilhã 6/3/30.
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, 1/3/1830 sobre o roubo de cartuxame no paiol de pólvora.

Maço 333
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, de 27/7/30 com a devassa a que procedeu pelo que denunciou o vigário de S.ta Maria e pelos vivas à Carta, canto da Constituição e morras ao ex juiz de fora Moreira Vaz (em 10 do corrente às 2 ou 3 da madrugada).
- Carta do corregedor sobre o vigário de S. Maria da Covilhã Ver.mo João José Alves. Covilhã 28/8/30
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, 14/8/1830 sobre meia dúzia de esturrados que há na vila etc. a quem o Juiz de fora suspenso, Moreira Vaz dava ouvidos e muita aceitação.

Maço 334
- O Corregedor da comarca é Manuel da Mota Pessoa de Amorim (10/1/1831)
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, de 1/2/1831 e sumário de várias denúncias contra Manuel Pessoa de Amorim (Muito interesse)
- Id. 26/2/1831 (Festas miguelistas na Covilhã)
- 2 Cartas muito interessantes do Juiz de fora da Covilhã (14/5 e 21/5/1831)

Maço 335
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, 16/7/31 – Pasquins no Teixoso.
- Outra de 10 de Setembro sobre o mesmo assunto.
- Carta do Major Com.te interino João Rodrigues de Magalhães, da Covilhã, de 24 Setembro 1831 com a nota dos presos da cadeia da Covilhã por crimes políticos.
- Carta (longa) e documentos do juiz de Fora da Covilhã, de 18/10/1831 sobre uma falsa amnistia dos liberais.
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, de 25/10/31 com o sumário (de cariz político) contra José Lopes Toucinho.
- Carta do corregedor Pessoa de Amorim e nota dos presos que foram removidos da cadeia da Guarda para a de Lamego. É tudo por crimes políticos. 19/10/31.
- Carta do coronel com.te dos voluntários realistas da Covilhã e Fundão Luiz Cândido de Tavares Osório, de Covilhã, 19/11/31 com um edital que mandou afixar.
- Lista dos subscritores do Fundão para capotes e arranjos do Batalhão de voluntários realistas.

Maço 336
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, de 10/1/32 com papéis subversivos.
- Carta do juiz de Fora da Covilhã com a notícia de dois presos políticos de Unhais, agora presos, Rodrigues Gomes e Januário José da Costa. 3/1/32
- Relação dos donativos que ofereceram os oficiais das confrarias da Provedoria da Guarda. Também traz Covilhã.
- Sumário de testemunhas, tirado em Alcaria, sobre cantos da Constituição

Maço 337
- Carta do corregedor da Guarda, 10/7/32 com notícias de cantigas subversivas no Tortosendo.
- Carta do juiz de Fora da Covilhã, 21/8/32 anunciando ter morrido o P. António do Pezinho por ter resistido às autoridades que o iam prender.
- Carta do juiz de Fora da Covilhã com notícias do réu político Luiz Pinto Pereira, da Capinha.
- Carta do juiz de Fora da Covilhã sobre a morte do P- António Delgado, do Pezinho, morto por maldade e não porque resistisse.

Maço 338
- Carta do juiz de Fora da Covilhã anunciando a fuga de 3 presos políticos da cadeia da Vila, 12/3/33, um de Unhais, outro de Souto da Casa e outro da Aldeia do Mato.
- Carta do juiz de Fora do Fundão anunciando que se preparava lá uma rebelião que se dirigiria depois à Covilhã. 23/4/33. (MUITO interessante)

- Nota de vários presos políticos entre eles alguns da Covilhã ou seu concelho. 8/6/33

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    1834 é o ano da derrota e do exílio miguelista com a Convenção de Évora-Monte. É também o início da governação de D. Maria II, embora a estabilidade ainda esteja longe… 

D. Miguel (sentado) no exílio com os seus correlegionários.
 Entre estes encontra.se um antepassado do editor.



As Publicações do Blogue: 
Publicações no blogue sobre este assunto:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/12/covilha-os-ventos-do-liberalismoos.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/10/covilha-os-ventos-do-liberalismoos_26.html
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2014/09/covilha-os-ventos-do-liberalismoos.html
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