terça-feira, 23 de outubro de 2012

Covilhã - Sobre o processo de Gonçalo Vaz VIII


   Continuamos a publicar o processo de Gonçalo Vaz (1), que Luiz Fernando Carvalho Dias copiou na Inquisição de Lisboa.Hoje estamos perante a defesa de Gonçalo Vaz, bem como as testemunhas de acusação e de defesa do réu.

 [...]

 Processo em Portugal

 Culpas contra Gonçalo Vaz, cristão novo, mercador, morador na vila da Covilhã

(Rectificado no processo de Isabel Roiz)
Azulejo representando um Judeu: Igreja de S. Vicente de Fora, Lisboa

Testemunha António Feo: - 9/7/1579, nas casas onde pousava o Snr. Licº Marcos Teixeira, (2) inquisidor, compareceu Antº Feo, clérigo de ordens de Epístola, nesta vila, morador no arrabalde, na rua de S. Domingos, de 26 anos: por morar perto dos cristãos novos, vê que guardam os sábados e vestem melhor nesses dias, se ajuntavam pessoas em casa de Leonor de Cáceres, x. n., viúva, e outras em casa de Gonçalo Vaz, mercador, e as que o tem feito são Joana e Isabel Roiz e Leonor Rodrigues, irmãs, filhas de Francisco de Cáceres, já defunto, e casadas com António Frz. mercador, e com Gonçalo Vaz, mercador, que dizem ser o rabino dos x. n., da Covilhã, e Leonor de Cáceres também é mestra, e a ela e a Gonçalo Vaz os x. n., dão grande obediência e têm com eles grande comunicação “ Que tem por grande serviço de Nosso Sñor não deixarem viver os xpãos novos todos iuntos em hum bairro nem em hua rua porque mais a seu salvo fazem suas cerimónias fiandose hus dos outros. E que isto da goarda dos sabbados he tão costumado antre as pessoas desta nação e se usa tanto nesta terra que tem pera sy em Ds e sua consciência que casi todos os goardão pello que nelles vee e que andão apartados de nossa sancta fee catholica e que se deve de dar meio por onde cessem estes erros. “ 

Testemunha Manuel Ravasco, no mesmo dia, x. v., que estuda medicina em Coimbra e natural da Covilhã, morador em Santa Marinha, 24 anos, que haverá 9 anos estando na Universidade de Salamanca ouviu dizer antre os portugueses que G. Vaz, mercador, que estudava leys e dois filhos de Diogo Roiz Picão, seus cunhados, que se chamam Diogo e Jorge, todos os três naturais desta vª, comeram um cordeiro qtª feira de endoenças e denunciaram deles e os dois irmãos se absentaram sem mais parecerem tee agora e Gonçalo Vaz tb. andou absente dous ou três anos, e dizem que foi pedir perdão a Roma e está nesta vª. 

Testemunha Francisco Giraldes, no mesmo dia, x. velho, cardador, morador na freguesia de Stª Marinha, desta vª, 33 anos. Há 3 ou 4 anos trabalhando na casa de Gº Vaz, na rua Nova, porque ouviu que em Salamanca com seus cunhados fizera cerimónias dos judeus, comera lá o cordeiro, cingidos com umas toalhas e com saiados nas mãos e que fora pedir perdão a S. Santidade e porque ouviu dizer que os judeus jejuavam às quintas feiras e por o não ver comer às horas costumadas suspeitou que jejuava e para apurar isto em outra quinta feira que era de quaresma, disse a seu irmão Gaspar que ficasse ali e o olhasse a ver se comia, enquanto ele testemunha não vinha e só o viram comer a horas em que havia estrelas no céu.
Mandou o dº Gº Vaz buscar ao Gaspar, leite, numa sexta feira de endoenças e recomendou lhe que na panela, que era nova não deitasse nada e ordenhasse a cabra para lá. 

Testª Ldº. António Gomez, prior de Santa Marinha (11 de Julho) e nela morador, que haverá oito ou nove anos estando na Univ. de Salamanca ouviu dizer a Rodrigo Jacome, estudante que naquele tempo era, e é filho de Jacome Roiz, boticário desta vª e agora é já médico e cura em Castela, x. n., e a Antº Cam, x. velho, estudante, natural desta vª que he nas partes da Índia e a Simão Roiz, médico em Penamacor, meio x. novo que Gº Vaz comera um cordeiro com os cunhados referidos já, e foram denunciados perante mestre Sancho, que em Salamanca era comissário do stº. ofício; ele denunciante tb. foi perguntado. Repete que os dois irmãos desapareceram e que diziam que Gº Vaz fora a Roma. 

Testª Caterina Antunes : - 12 de Julho - No Mosteiro de S. Francisco, na capela de Jorge Cabral, x. velha, mulher de Diogo Vilela, tintureiro, 30 anos; que há 10 anos a esta parte, por viver na R. Nova, sabe que os x. novos, guardam o sábado, jejuam a 10 dias da lua de Setembro, nas sextas feiras à tarde guardam e limpam as casas, vestem neste dia roupas limpas, especialmente camisas e toucados limpos ao Sábado - trabalham muito menos que nos outros dias, e em Setembro comportam-se como em dia de Páscoa. Ajuntam-se em casa de Leonor de Cáceres, mulher que foi de Miguel Roiz, já defunto, que foi já preso pelo stº. ofício, a qual dizem que é grande mestra e em casa de Gonçalo Vaz que faz panos e é filho do Ldo. Fernão Vaz; este ano, no dia da Rainha Ester viu ir a casa deste onde estava sua mulher Leonor Roiz, Isabel Roiz, mulher de António Frz, mercador, irmã desta, com uma filha chamada Leonor e estavam com a porta fechada. 

Testª António de Proença, meirinho desta vª, nela morador, (14 de Julho) 45 anos, Viu muitas vezes entrar em casa de Leonor de Cáceres, mestra de x. novos, que mora na freguesia de S. João (do Hospital), enfeitadas como em dia de festa, a mulher de Gº Vaz, que já foi penitenciado e tem em muito má conta, por ser seu vizinho, e por ouvir dizer, a uma criada chamada Maria, que é detraz da Serra, que na casa dele se fazia um certo comer em só sua mulher punha a mão, em louça nova, e que lá iam comer os x. novos.

Hector frz, notário do stº ofício o escreveu. 

Testª Manuel Frz, cardador, x. velho, morador nesta vila, defronte de S. Francisco, 24 anos, que nesta sexta feira de endoenças, faz dois anos, mandou comprar uma panela nova a um moço já defunto, filho de André Vaz e fosse buscar um pouco de leite e desse por ele o que lhe pedissem mas que havia de ordenhar na própria panela, sem medir, nem coar, nem tocar em outra coisa nenhuma, nem enxaguar a panela, e que não tinha ninguém doente em casa: que ouviu dizer a Fco Geraldes, cardador, morador em Sta. Marinha que o dº Gº Vaz rezava os salmos de David sem gloria patri, que estava um dia sem comer e que ele tb. sabe do leite.
Testª Diogo Vilela (15 de Julho), x. novo, tintureiro, morador na R. Nova, 30 anos, que por viver na R. Nova e ter muita comunicação e amizade com os x. novos, especialmente com Miguel Vaz, tosador e com Leonor Roiz, sua mulher, que tem por muito bons cristãos que lhes descobriram alguma coisa que eles como apartados da fé costumam fazer.
Os sobreditos x. novos é que lhe chamavam a atenção para os factos aliás já todos apresentados por outras testemunhas. 

Testª António Roiz, mancebo, solteiro, filho de Francisco Roiz, da pedreira, cardador, de vinte e dois anos, que trabalhou em casa de Gº Vaz, três anos a esta parte, morador em S. Domingos. Guardavam os Sábados, varriam a casa às sextas feiras, limpava os candeeiros em que lançava azeite limpo e punha torcidas novas e os acendia mais cedo que nos outros dias e ficava aceso de noite e depois de se alevantar se estava aceso não o apagavam, lançava lençois lavados na cama, faziam o comer de sexta para sábado, jejuavam 2ª e qtas da Quaresma e nestes dias punham a mesa com muita solenidade e comiam ovos, grão e peixe e por uma sua moça lhe dizer, que costumam em qta feira de endoenças lançar farinha sobre as comeeiras das portas e janelas, o que atentando viu. É muito amigo do Réu por boas obras que dele recebe. 

Testª Isabel de Jesus:- 12 de Agosto. - No mosteiro de Stª Clara da Guarda, religiosa professa do dº mosteiro há 8 ou 9 anos pouco mais ou menos estando ela doente de uma grande enfermidade, curou-a o Dr. Antº Vaz, x. novo, morador e físico nesta cidade da Guarda e perguntando-lhe ela quando lhe ensinava os erros declarados na sua denunciação, se sua mulher era judia e tinha mostrado isto a outra pessoa, respondeu que sua mulher era boa xristã e que não sabia isto dele mas de seu irmão Gonçalo Vaz, que tb. era letrado e que lhe ensinara a ser judeu e que pelo o culparem fora a Roma; e segundo sua lembrança lhe disse que o não culpara a ele, e assim lhe disse que mais sentiria culpar ella a seu irmão por se ter já acusado que a ele. 

5 de Agosto

Francisca Dias, na Guarda, trazida por Francisco Mexia, meirinho da visitação, esta mulher que disse ser x. velha, moradora na vª da Covilhã, na R. de S. Domingos: por haver informação que dissera que não havia de confessar nada por ser muita amiga dos x. novos e que fora a casa de Gº Vaz e quando este lhe perguntou o que na missa do stº ofício se passara, lhe contou tudo. 

Declaração de Hector Frz., de que tudo tresladar em forma. Lisboa 10/5/1581. 

Tribunal do Santo Ofício de Lisboa
Despacho de prisão do Réu 

Culpas de Ldº e defunto Fernão Vaz e de Gº Vaz, seu filho, xpãos novos da Covilhã, do procº do Ldº Antº Vaz, x. novo, físico, da Guarda, filho do dº Fernão Vaz.

Aos 25/1/1583 que domingo passado o dito António Vaz saindo a procissão para o culto da fé na qual devera ouvir sua sentença de relaxado pediu misericórdia com lágrimas e disse ter comunicado na ley de Moisés com seu pai, o Ldº Fernão Vaz e com seu irmão Gonçalo Vaz há alguns anos e muitas vezes e com Simão Lopes, cirgeiro da cidade da Guarda, e declararam como criam e viviam na dita lei, os referidos 3, que era amigo com o pai e irmão e de comunicações com o dito Simão Lopes.
Que haverá vinte anos, vendo que seu irmão Gº era muito bom cristão, o levou a um olival fora da vila, na vila da Covilhã donde são naturais e que lhe disse que as coisas dos cristãos e da igreja era tudo vaidade e engano e não prestavam para nada: a verdade era ser judeu, e crer na lei de Moisés, que o Messias ainda não era vindo, etc.. e o dº Gonçalo Vaz que então ficou atónito e veio a praticar com ele e viu depois que era judeu pelas coisas que lhe ouviu e que a dita comunicação durou por muitos anos.
E haverá 23 anos pouco mais ou menos que ele e seu pai praticaram várias coisas dos judeus, e que o turco devia vir tomar a Roma, e comummente se declararam judeus e nessa luz viviam e que tudo durou até haverá 3 anos que foram 8 meses antes da sua prisão e mais não disse.
Este Gº Vaz tem mais culpas, no 2º caderno, fol. 274  um segts e no procº de Isabel Roiz de Covilhã, sua cunhada, do testemunho de Antónia Pires e nas culpas de Lionor Roiz, sua mulher, do testemunho de Maria Simões e que se transcrevem para saber se são depois de sua reconciliação e são bastantes para prisão.
(Uma do 2º caderno é antes como se vê do processo de Granada - as outras são depois.[É uma observação de Luiz Fernando Carvalho Dias])

Despacho de precatória para Coimbra - para esclarecimento de certa passagem do processo do Ldº António Vaz, referente a Gonçalo Vaz.

Resposta a precatória, com novo inquérito de Antº Vaz, dizendo que tratava com o irmão esses assuntos desde há 20 anos e daí por muitos anos, que seriam 9 ou 10 e depois se separaram; que há seis ou sete anos voltaria para casa de seu pai depois de andar absente em Castela um ano ou mais; que o irmão negoceia lãa. - 17/9/583.

Treslado da rectificação do depoimento do Ldº. António Vaz.

- 17/9/583

Foi comunicado neste dia que fora dado como testemunha do seu irmão: lidos os anteriores depoimentos disse que estavam bem.

Vistas as culpas, pareceu que se devia prender pelos ajuntamentos em sua casa, em dias assinalados, alimparam as casas nas sextas feiras, lençóis lavados e fazerem o mais que costumam os judeus; por ser Isabel Roiz sua cunhada, presa em Lisboa, com muita prova de judaísmo; comprar leite em panela nova; estar diminuto em António Vaz, seu irmão e em Gomez de Osequa: e não diz deles das confissões de Granada e de Lisboa. 

Testemunhas

- 7/7 na Covilhã em pousadas de Estevam Magro
Ana Glz, mulher de Domingos Glz, de alcunha o almotacel, x. velha, 22 anos - que sabia que a mulher de Gº Vaz guardava o sábado - o mesmo fazia Isabel Dias e sua filha Leonor Dias e faziam jejuns tb. com Leonor Glz, mulher de Fernão Roiz, o piqueño, com louça nova, certo manjar com azeite e pescada. Que ouviu dizer a uma Isabel Teixeira, mulher de António Frz que a Leonor Roiz, mulher do dº Gº Vaz: guarda dos sábados, comida às sextas, pão ásimo; tb. viu o dito pão em casa de Isabel Dias, sem embargo de o não comer mas que o conhece por não ser finto nem lêvedo; um dia saiu a dita Isabel Dias, sua ama, enfeitada, vestida com camisa lavada e toucas lavadas e calçado novo e acompanhada de sua filha, fora do costume, em dia de trabalho.

3/6/585 - a mesma

Perguntado se lembrava do seu depoimento disse que não e pediu para lhe ser lido, confirmou e assinaram e deram fé os Revdºs padres o Dr. Francisco Nunes, Vigário e reitor da Igreja de Nossa Senhora, matriz desta vª e o Dr. António de Sequeira a quem pareceu que a testª falava verdade. 

4/6/1585 - António de Proença, morador nesta vª disse que se lembrava ter testemunhado, perante o Ldº Marcos Teixeira, contra a mulher de Gº Vaz e que não se recordava o que dissera contra elas e contra outras pessoas e pedia que lhe fosse lido o depoimento: que a mulher de Gº Vaz se chamava Leonor Roiz e ora está presa nos cárceres do stº ofício; que a viúva do Gda que diz em seu depoimento está ora casada com Dº Roiz, x. novo, filho do bubrinhos os quais são absentes e que a viúva Pinheira he sogra de Manuel Roiz, filho que é do Bacharel da Madalena e tem uma belda num olho digo uma vista menos, tb. absente, etc. Testªs as mesmas, acrescentando-se aqui que o Dr. António de Sequeira era coadjutor de S. Maria  (Na opinião de Luiz Fernando Carvalho Dias parece faltarem folhas) 

28/6/584 - Isabel Teixeira, mulher de António Frez, cardador, x. velha, 20 anos, disse que tinha algumas coisas respeitantes ao Sto. Ofício.

Diz que viveu por soldada por espaço de 7 anos com Gº Vaz e Leonor Roiz: a sua ama pelo tempo das endoenças escolhia trigo à mão, que mandava moer, peneirava por peneira nova muito basta e tirava o olho daquela farinha e o guardava e ela só amassava, costumando a outro trigo mandá-lo fazer por ela denunciante, fazia uns bolinhos do tamanho de patacões; dando ela conhecimento do caso a Ana Gtt (que já depôs) ela lhe disse que sua ama Isabel Dias, mãe do dito Gº Vaz fazia os mesmos bolos;

A Fonte das Galinhas, hoje
Fotografia de Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias 
havendo ambas as sopeiras um à mão o partiam ambas nos olivais da Fonte das Galinhas, o qual bolo julgaram não ter sal nem fermento, muito enresinado por dentro e este bolo achou a denunciante à cabeceira da cama da dª Leonor Roiz; esta o procurou com muita diligência; Leonor Roiz amassava estes bolos numa gamela nova, que não servia de outra coisa e que tb. são raspadoura apartada para a dita massa, vira comer os ditos bolos nas sextas feiras à noite à dª sua ama e a Antónia Roiz, sua mãe e isto via pelo buraco da câmara, Antónia Roiz, que costumava dormir com a filha a dª Leonor, que quando estava só fazia a mesma coisa; o comer fazia-se às sextas feiras e era grão, peixe e ovos, que nos sábados aquentavam num pouco de borralho. Leonor Roiz perfumava as casas à sexta feira e lançava lençóis na cama lavados nesse dia, excepto depois da prisão de sua irmã Isabel; Gonçalo Vaz vestia roupa lavada a domingo, embora antes das prisões dos parentes o fizesse tb. às sextas, algumas vezes; tb. os lançavam na cama dela porque jaziam lá os seus meninos; não costurava aos sábados a ama, mas muitas vezes o fazia ao domingo, na cama, antes da missa e perante o seu marido. Os jantares de sábado e as ceias eram mais abundantes e melhores e a ela davam-lhe nesse dia pão alvo, comendo pela semana centeio; somente rezavam Leonor Roiz e sua mãe antes de cear; nas sextas feiras, num sobrado mais alto da casa, o que não faziam nos outros dias.
Estando Marcos Teixeira na vila, altercando ela com a patroa, esta lhe disse que não lhe falasse soberba porque eles todos queimados valia mais a sua cinza que todo Marcos Teixeira; e que entrando ela sopeira um dia de Fernão Vaz, já defunto, ele altercava com o filho Gaspar dizendo: porque me levas o meu livro fora pois sabes que só esse livro nos podem queimar a todos. Disse mais que a dª Leonor Roiz não comia carne de porco magra nem gorda nunca e da carne da rez miúda tirava o sem junto das costelas e ela o tirava tb. por seu mandado e que posto que ela denunciante amassava pão ordinário ela, sua ama, Leonor Roiz o tendia e lançava muitas vezes massa nas brasas emborilhada nas mãos dizendo que era para os meninos; que Gonçalo Vaz quando foi preso a mandou chamar à cadeia e lhe pediu que não testemunhasse contra eles, que sempre falasse por sua boca e que a não enganasse palavras de Estevam Magro; que não lhe satisfizeram seu serviço, mas fizeram-lhe grandes prometimentos que vindo o fariam muito bem com ela ( à margem: havia dois meses que estava fora de casa) 

6/7/584 - 2º depoimento da mesma

Que soube que certas coisas que a ama fazia eram de judia - porque a Ana Gtt. a avisara que olhasse a ama porque eram de judia essas coisas. Que pensava que os bolos se faziam numa casa que estava no alto da casa, numa fornalha, porque o pão ordinário ela o levava a cozer fora; fora da quaresma não se recordava de ver os dºs bolos.
Dizia Gonçalo Vaz, às vezes à mulher: “Leonor Roiz muito vos fiais desta nossa Teixeira, ao que ela lhe respondia : se fio, porque se for necessário tomar vinte juramentos por amor de mim o há-de fazer“.
Até a prisão de António Vaz, irmão do Gonçalo, dava-lhe ordinariamente as camisas à sexta feira. Depois da vinda de Leonor de Cáceres, de Coimbra, nunca as vestiu à sexta feira, ela Leonor Roiz.
Não disse isto perante Marcos Teixeira, porque a não requereram para isso, nem os seus amos a deixavam vir ao Castelo onde o dito inquisidor pousava, antes a vigiavam se vinha e em todo o tempo que o dito inquisidor esteve na vª os seus amos não dormiam despidos. 

9/7/579 - “Do Livro da Visitação, 1º folio 313“: - Além das mencionadas no depoiemento atrás são em casa de Gonçalo Vaz: Brites Soares, viúva, e três filhas de Rodrigo Álvares, defunto, casada a mais velha com Frco Roiz, mercador; a do meio com um filho de Simão Vaz, defunto, e a terceira com Rodrigo de Matos; e Beatriz Henriques (Anriques), filha de Fernão Manuel que é a mais velha, e Isabel Roiz e Leonor Roiz, filhas de Francisco Roiz Cáceres, defunto, casadas com António Fernandes, mercador, e com Gonçalo Vaz, mercador; Leonor Mendes, mulher de Manuel Mendes, mercador, que foi penitenciado em Coimbra; e duas sobrinhas da dita Leonor de Cáceres que vivem na freguesia de São João com seu pai e mãe e dizem que vieram de S. Marinha ou de Seis.

- No mesmo dia Francisco Geraldes. repete o depoimento anterior. 

Aos 12/7/579 - (Cnª. Antunes)

- Leonor de Cáceres e suas duas filhas que tem em casa Beatriz Soares e Francisca da Silva e outra que se chama Branca Glz (paz?) Guiomar Roiz, mulher de Manuel Vaz, mercador e Serena Mendes, mulher de Rodrigo de Matos, alfaiate, Beatriz Soares, viúva; e Branca Roiz, viúva, irmã de Leonor de Cáceres; Isabel Roiz, viúva, mulher de Francisco Roiz.

- Leonor Roiz, mulher de Diogo Feijó, a qual disse um dia a ela denunciante que desejava viver onde vivesse pouca gente onde ninguém lhe soubesse sua vida e ver-se morta com ela para se saber qual andava errada e por ela denunciante lhe responder que Cristo vencera e que assim havia ele de vencer, disse a dita Leonor Roiz, como zombando, assim seria; também viu guardar a mesma festa a Guiomar de Matos, meia x. nova, mulher de Manuel Lopes, x. velho e ouviu dizer a Leonor Roiz, mulher do dito Miguel Vaz, tosador, que Isabel Roiz, x. nova do Fundão, filha de Leonel Roiz, que daqui se foram para lá e é casada, não sabe com quem, dissera que naquele dia de Setembro até os gatinhos jejuavam e que a filha mais velha de Leonor de Cáceres dissera à dita que se guardasse dela denunciante que lhe fizera quebrar um jejum.
Viu guardar a dita festa de Setembro a Gaspar Dias, filho solteiro do Licenciado Fernão Vaz e a Carlos Roiz, filho de Francisco Roiz Piquã.

- No mesmo dia - Manuel Fernades, cardador, - o mesmo que declarou atrás. 

- 15/7/579 - Diogo Vilela

- Leonor Mendes, mulher de Manuel Mendes, mercador e sua filha solteira Violante Mendes, mulher de Francisco de Flores que já foi penitenciado pelo Sto. Ofício.
- Filipa Nunes, viúva, mulher que foi de Diogo Vaz, que também foi presa e penitenciada a qual se enfeita por ser viúva e sua filha Branca Roiz; António Frez (?) mercador e sua mulher Isabel Roiz, viúva, sogra do dº Manuel Mendes que é tida por Mestra e foi-se já apresentar ao sto. ofício. Tem para si que todos os x. novos de sua rua e daquele bairro os guardam e vivem apartados de nossa Santa Fé e “dos homens não conhece tanto por serem mercadores e costumarem sempre folgar e andar fora de suas casas“
- Leonor de Cáceres e suas filhas Beatriz Soares e Francisca da Silva, sua sobrinha também Beatriz Soares, mulher de Francisco Roiz, mercador e Maria, sua filha que é já mulher; e Beatriz Soares, viúva, também sua sobrinha que veio para aqui da Guarda; e Guiomar de Matos, mulher de Manuel Lopes, cristão velho que elas mantém e Maria, sua filha que é já mulher; Carlos Roiz é mercador, alguns o guardam sozinhos em sua casa.
- Jorge Roiz, tosador; e Francisco Fernandes, sapateiro; Duarte da Fonseca Morão e disto saberá Catarina Pais, cristã velha, mulher de Pero Dias, rendeiro das penas que vive na freguesia da Madalena e tem para si que muitos outros cristãos novos e  cristãs novas celebram esta festa mas como não viu coisa em particular não os nomeia. 

- No mesmo dia, António Roiz

Isabel Roiz, cristã nova, mulher de António Fernandes Cáceres e sua filha Leonor Roiz que está em casa; e o ano passado pelo tempo das uvas, no mês de Setembro numa Quinta Feira, que é o tempo em que a esta terra chegou a triste nova de África, se vestiram de festa e guardaram aquele dia em grande solenidade: “teve ele denunciante para si que faziam esta festa pelo grande contentamento que mostraram pelo desbarate de África mas agora que ouviu ler o édito da fé lhe parece que o faziam por cerimónia judaica“ e al não disse. 

- 22/5/1583 - Maria Simões, solteira, que ora vive em S. João do Hospital, 30 anos pouco mais ou menos, cristã velha, natural de Tábua, Bispado de Coimbra, filha de António Pires e  de Helena Tomé, já defunta.
- Gonçalo Vaz e sua mulher eram moradores na freguesia de São Pedro.
Que na Semana Santa cearam em casa dos patrões Isabel Roiz, irmã de Leonor Roiz e seus filhos Rui Fernandes (15 anos então) e Francisco Roiz que seria então de 10 anos e Leonor que seria de 13 ou 14 anos e Ana de 14 anos.
E estiveram presentes por honestas e religiosas pessoas que tudo viram e ouviram prometer segredo no caso e assim juraram os Revdos Padres Gaspar Vaz, beneficiado da Igreja de Nossa Senhora desta vila e Jorge Mendes, os quais assinaram aqui com ele senhor Arcipreste, Francisco de Sequeira o escrevi. 

- Antónia Pires, outra testemunha, (que foi criada de Isabel Roiz que era casada com António Fernandes Cáceres) natural de Verdelhos, solteira, refere-se a Antónia Roiz, cristã nova, de quem era sopeira uma Catarina Negra. Assinou o Licº Manuel da Costa, visitador pelo bispo da Guarda.

- Rectificação do depoimento de Antónia Pires a 20/5/ 583.

assinaram os P.es Gonçalo Vaz, beneficiado da Igreja de Santa Maria e Jorge Mendes. 

Comissão para defesa passada pelos inquisidores para que os guardiões dos mosteiros de S. Francisco e Santo António e Jorge Mendes, (Jorge Martins? sepultado na Igreja da Misericórdia) secretário do santo Ofício de Lisboa, oiçam as testemunhas de defesa do réu. 

29/12/1586 e dias seguintes

Guardião de Santo António, Frei João de Aveiro

Testemunhas abonatórias Frei Gaspar de Vila Viçosa e Frei Bento de Braga, religiosos do dito convento de Santo António e Jorge Mendes

(António Feio já aparece prior. Seguem os depoimentos das referidas testemunhas de acusação)
    
O Réu iure jurando não pode contrariar sem uma certidão da casa dos cinco desta cidade, do livro dos Panos da Covilhã do ano de 76/7/8 e 9 que ele registou.

item sem uma certidão do Juízo da Igreja de São João da Covilhã onde ele réu se recebeu com sua mulher, digo de São João do Hospital da dita vila e sem estas certidões não pode defende-se nem lembrar-se destes anos

Pede para que as referidas certidões lhe sejam mandadas passar.

- Segue a certidão da Casa da Sisa dos Panos desta cidade de Lisboa.

- Gonçalo Vaz, segundo certidão passada por Estêvão Magro, arcipreste e constante do livro dos casados da freguesia de São João do Hospital da Covilhã, casou a 28 de Novembro 1573. Gonçalo Vaz, filho do Licº Fernão Vaz casou com Leonor Roiz, filha de Francisco Roiz e de Antónia Roiz. Foram testemunhas Simão Roiz e Estêvão Roiz - era cura o Padre André Roiz que já era falecido no momento em que a presente certidão foi passada, que foi a 20 de Setembro 1585. 

Nas declarações dele Gonçalo Vaz, diz: Que desde o ano 573 em que casou até ao de 579, vinha ele R. à Feira das Virtudes com panos, ao menos quase todos os anos sobreditos, e partia de sua casa o primeiro de Setembro como é costume partirem todos os mercadores da vila e estão na feira até 10 de Setembro, como fazia o R.
Que depois vinha a Lisboa cobrar o preço da mercadoria que na dita feira vendia a mercadores de Lisboa e a ela trazia os panos que não acabara de vender na dita feira, e os despachava nesta cidade e vendia a mercadores dela onde se retinha todo o mês de Setembro e Outubro seguinte, o que é vulgar por os mercadores de Lisboa pagarem muito devagar a referida roupa; e assi foi no ano de 77 em que estava em Lisboa de 11 de Setembro a 15 de Outubro, como no ano de 79 até 16 de Setembro, conforme certidões.
Que no ano de 71 residiu na cidade de Granada no cárcere da Inquisição e nos mosteiros de Santa Cruz e da Santa Trindade, donde veio apresentar-se a este Sto. Ofício e lá voltou por mandado de Vs. Ms. não estando neste ano, portanto, na Covilhã.
Que em Setembro de 72 residiu sempre nesta cidade de Lisboa e passado o referido mês se foi para a Covilhã, onde foi preso pelo Juiz de Fora por dizer que tinha culpas tocantes ao sto. ofício e por precatória de Vs. Mercês foi solto.
Na Quaresma de 77 ou 78, não pode precisar, esteve ele na Feira da Flor da Rosa, que é a 25 de Março, vendendo panos e daí foi à cidade de Évora acabar de as vender e vendeu picotes aos padres de São Francisco de Évora, onde esteve toda a Quaresma e voltou a sua casa véspera de Páscoa da Ressurreição.
Esteve com ele em Évora Manuel Henriques, filho de Fernão Manuel de Covilhã vendendo panos pretos e Fernão Lopes, filho de Simão Roiz da Guarda com outro mercador da Guarda a que não sabe o nome.
Que na Quaresma de 78 ou 79 residiu em Lisboa vendendo açafrão e pousava detrás ou junto a Santa Justa, em casa de um estalajadeiro, natural de Castelo Branco, chamado João Antunes, casado com a mulher que foi do Galego.
Que outrossim esteve em Lisboa uma Quaresma vendendo trigo e pousava à porta do mar em casa de Ana Lopes, mulher que dá pousadas e isto depois do ano de 73.
Desde que casou até Dezembro de 74 morou com o sogro, depois tomou casa e foi morar para a rua do Licº Fernão Vaz, seu pai, nas casas de “Marçal de Colonja framengo“ onde morou até ao S. João de 75. 

Testemunhas

a)- Manuel Lopes, que foi escrivão;
b)- Guiomar de Matos, sua mulher;
c)- Gabriel da oSeça, x.n., mercador;
d)- Marçal de Colonnia, flamengo;
e)- Doutor António Roiz, surgiam, x. velho, 50 anos;
f)- Francisco Fernandes, o pego d’alcunha, x.nº;
g)- sua mulher Branca Garcia, x.n.; 

Testemunhas de defesa aos artigos:

- Rodrigo Manuel, prior de S. Pedro, 40 anos;
- Rodrigo de Figueiredo, prior de S. Paulo, 65 anos;
- Frei João Gro, comendador de S. João do Hospital, 38 anos, está na Covilhã há seis anos;
- António Vaz, clérigo;
- André Aranha, comendador de Stª Maria;
- Licº Sebastião Teixeira;
- Antão Vaz, 65 anos, cavaleiro fidalgo del Rei
- Simão Vaz, seu irmão, (que ele já ía também alguns anos à feira das Mercês ou mandava lá e via o réu lá ou via-o a partir ??)
- Tomé Antunes, x.v., tecelão, (na altura dos interrogatórios já era falecido)
- Inês Nunes, x.v., sua mulher, 35 anos;
- António Vaz, da Madanela, tecelão de panos, 50 anos;
- António Afonso, x.v., cardador, 55 anos;
- Francisco Roiz, cardador, da Boidobra, 60 anos, “ diz que o réu só tem o trato de panos, visita os tecelões e pisoeiros;
- Antónia Lopes, sua mulher;
- António Frei, vinagre d’alcunha, cardador, 30 anos e sua mulher;
- Cristóvão Roiz, genro de António Afonso, cardador, 38 anos. 

   4º artigo

- Gonçalo Lopes, criado de Carlos Roiz, cunhado de Gonçalo Vaz, x.n, e ele é x. v.;
- Baltazar Ferreira, x.v., cardador, 28 anos;
- André Fernandes, almocreve, x.v., estajaladeiro do lugar do Casteleiro, 3 léguas de Covilhã, 58 anos. 

   5º artigo

- Ana Gomes, x.v., da Boidobra, que foi criada do pai dele Réu, mandava o R. cozer o pão no forno público da vila. Que o R. sempre vinha à vila nas semanas santas à procissão das endoenças;
- João Frei, o “ buro “ d’alcunha que agora é jurado;
- sua mulher Maria Fernandes, filha de António Afonso, cardador;
- Manuel Lopes, escrivão, 60 anos;
- Guiomar Pires, dona viúva, mulher que foi de António Andrade, escrivão, 35 anos;” que Leonor Roiz todas as semanas lhe mandava um bolo quente porque eram muito amigas “;
- Diogo de Santilhana de Castelo Branco;
- Manuel Roiz, do Teixoso, preso neste cárcere. 

   7º artigo

Disse que não tinha testemunhas. 

   8º artigo

- André Frei, tosador, “ o pernas “ d’alcunha, 42 anos;
- António Francisco, “ o lagarto “ d’alcunha, 35 anos “ Que um irmão da testemunha levou ao R. umas cargas de piquotas a Vila Viçosa e cardou lã para panos em casa do R.. Que no ano da peste, há 5 ou 6 anos, esteve o R. um ano ausente e indo a Lisboa nesse ano lhe levou cartas, mas não o encontrou.
- Manuel Gomes,  (escultor? escritor?), x.n. ou v. , pois não o sabe.
- Henrique Lopes, escrivão das sisas, x.n.
- Gabriel da Fonseca, mercador, 40 anos.
- Diogo Sardinha, mercador, x.n.
- Manuel de Figueiredo, x.n, mercador, de 30 ou 40 anos.
- Manuel Mendes, filho de Pero Francisco, mercador, x.n.
- Jorge Vaz e Francisco Vaz, do Pelourinho da Covilhã.
de Lisboa

- Jerónimo Freire, escrivão da Casa dos Cinquo.
- Lopo Soares, almoxarife da mesma casa, x.n.
- Lopo Vaz, mercador da rua Nova dos Panos, x.n.
- Duarte Pires, mercador da rua Nova dos Panos, x.n.
-Álvaro Pires, idem.
- Diogo Álvares, fanqueiro, morador nesta cidade.
- Diogo Mendes, x.n., mercador do Fundão, filho de Isabel Nunes, que ora são defuntos.
- Guiomar Roiz, do Fundão, mulher de Diogo Mendes, supra, prima dele réu;
- André de Sousa, x.n., mercador, genro do dito Diogo.
- Francisco Álvares, carcereiro da cadeia da Covilhã.
- Manuel de Matos, x.n., de Covilhã, que ora reside em Sevilha, escreve na Casa da Contratação, seu irmão Carlos Fernandes, cirurgião e mercador que também mora em Sevilha e no tempo conteúdo no artigo estavam em Lisboa a portagem em casa de sua tia Guiomar de Matos em sua loja de fancaria.
- Pedro Almocreve, o Hilário de alcunha, de Covilhã, irmão de António Fernandes, lagarto e hilário de alcunha. 

- Que ele réu se confessa a Rodrigo Manuel, prior de S. Pedro de Covilhã.
- Tomé Antunes, tecelão, x.n.
- Inês Nunes, sua mulher, x.n.
- Álvaro Fernandes, pisoeiro a S. João de Mantencolo, 45 anos.
- António Vaz, tecelão, á Madalena.
- Antónia Roiz, sua mulher.
- Diogo Giraldes, tecelão, sobrinho da forneirinha, 40 anos, conhece o réu desde pequeno e era seu vizinho.
- Manuel Dias, filho de Manuel Dias, peixeiro, todos x.n., moradores na Covilhã, 40 anos, tecelão e trabalhou em casa do réu. 

- Jorge Mendes (Martins?)  assina os autos e termos (Cónego que está sepultado na Igreja da Misericórdia da Covilhã)  

-  Brás Nunes, tabelião que foi na Covilhã.
- Bento Fernandes, natural de Penamacor, pai de Gaspar Fernandes, tintureiro, morador no Fundão, querelou ou denunciou criminalmente a Gonçalo Vaz como autor ou cúmplice na morte de seu filho Baltazar, moço solteiro e o acusou perante o corregedor da comarca pedindo para ele morte natural - Gonçalo Vaz pede que se junte a sentença de livramento assim como a da Relação que está em poder de seus irmãos Diogo Dias e Gaspar Dias. 

Sentença de Livramento

“do feito foi autor o dito e réus Duarte António Paulo e Gonçalo, moradores na vila de Covilhã, réus ausentes. O autor era casado com Beatriz Gonçalves há muitos anos e do dito matrimónio entre outros filhos houveram a vítima Gaspar Fernandes o qual vivia na Covilhã aonde mandaram a vítima para aprender o ofício de tintureiro e o aprendeu e vivia com o irmão. O Gaspar Fernandes era inimigo de Manuel Dias, morador também na Covilhã, pai do réu Duarte, por brigas e diferenças que houveram e assim era inimigo do dito Baltazar por brigas que houveram Jorge Dias morador também na Covilhã o qual era vizinho e muito amigo do dito Baltazar pelo que acudiu ao dito Jorge Dias contra Manuel Dias que o ameaçou que lho haveria de pagar pombo as mãos nas barbas - e que também o filho de Jácome Roiz, boticário, morador na Covilhã, cunhado do dito Manuel Dias, irmão de sua mulher houvera brigas com o morto e o dito Jácome Roiz e sua mulher o ameaçaram que o haviam de mandar matar e assim Licº Fernão Vaz, morador em Covilhã, era grande inimigo de Baltazar e de seu irmão por muitas brigas que tinham havidas com um cunhado do dito licenciado, um tal Calvoz (?) e precedendo das ditas inimizades o referido Duarte, filho de Manuel Dias, ajuntou-se com Gonçalo, filho do dito Fernão Vaz e António, filho de Diogo Roiz e a Paulo seus inimigos e uma noite de S. João de 1562 se foi com eles a um pomar que o dito seu pai tinha aonde chamam o “Pedregal“, limite da dita vila por saber que o dito Baltazar era ido a dormir nessa noite a outro pomar abaixo do outro da dita vila e foi ter com Gonçalo e outros onde o Baltazar se encontrava mas como estava com companhia dissimularam e se tornaram aonde estavam; e que depois da meia noite o Baltazar apanhara uma pouca de erva para um cavalo do seu dito irmão e fora para casa. Que o Duarte se concertara com um Francisco de Matos, um moço de mau viver, para o avisar de quando o Baltazar havia de vir porque simuladamente se fora com ele para o trair e vindo com ele dera aviso aos outros que esperavam os quais lhe lançaram em chegando fronteiro ao pomar um alão o qual se fora ao dito Baltazar e começara de o maltratar do cão saíram os ditos matadores e Duarte pode opor de trás com uma visarama na mão e o dito Duarte e os mais António, filho de Diogo Roiz, e Paulo, filho de uma viúva, criado de Jorge Fernandes, cunhado de Manuel Dias pela dianteira com casas, tirando pedradas ajudando-se uns aos outros, favorecendo-se e defendendo-se o dito Baltazar do dito cão e dos mais que assim mortalmente o acometiam e o Duarte traiçoeiramente se lhe foi a pôr de trás e lhe deu tão grande pancada na cabeça com a vizarrua que lha partiu derrubando-o logo no chão, da qual ferida morreu logo ao outro dia-; que os acusados se confessaram logo ao outro dia ter morto de propósito; que o lugar era despovoado; que o morto era de 15 anos; pede o autor 500 cruzados de indemnização; vários editos correram para contraditarem a acção mas os réus nunca apareceram.
Depois viu-se que o Baltazar atirara pedras à cadela que estava no pomar e que o Duarte se levantara e dera uma paulada no Baltazar de que era inimigo e morreu.
Duarte foi degredado com pregão na audiência para um dos lugares de África por 2 anos havendo respeito a ser menor e os outros absolvidos e que pagassem as custas.
Confirmada a sentença na Casa da Suplicação - 1566.
Fim“ 

Diz agora Gonçalo Vaz explicando a sua vida que no dia da morte do Baltazar foi para Valença de Alcântara, reino de Castela, onde residiu continuamente por 2 anos e meio até 3 anos, estudando Gramática com Mestre Amarilha, pousando em casa do Licº Diogo Gonçalves, que então morava em Valença.
Que depois se foi a Salamanca onde estudou Leis até ao ano de 66 sem nunca ir à Covilhã onde o pai do Baltazar o acusava à revelia. 

(Algumas das testemunhas do réu da sua estada em Alcântara - não interessa) 

[...]


Notas dos editores – 1) Já referido  neste blogue em http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/05/covilha-lista-dos-sentenciados-na_27.html sob o nº 100 da nossa Lista dos Sentenciados e em:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/05/covilha-contributos-para-sua-historia_28.html a propósito da história dos Lanifícios.
2)Marcos Teixeira ou Marcos Teixeira de Mendonça foi, posteriormente, Inquisidor no Brasil e Bispo da Baía. Aqui veio a ter um papel de relevo na organização da resistência aos Holandeses.
3) Já publicámos parte do processo de Gonçalo Vaz, mas no passado dia 20, hoje e dia 25 apresentamos todo o processo que Luiz Fernando Carvalho Dias tinha no seu espólio.

Publicações neste blogue sobre o processo de Gonçalo Vaz:

Publicações do nosso blogue:

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