terça-feira, 28 de junho de 2011

Covilhã - Sobre o Processo de Gonçalo Vaz VI

Transcrevemos hoje os depoimentos das testemunhas que intervieram no Processo de Gonçalo Vaz na Inquisição de Lisboa.
Algumas das pessoas nomeadas no processo encontram-se referenciadas na Lista dos Sentenciados na Inquisição que estamos a apresentar e nas inscrições na Universidade de Salamanca em 1567/68 que já apresentámos.
Queremos deduzir, quer das declarações do réu Gonçalo Vaz que já apresentámos, quer das das testemunhas que intervieram no processo alguns rituais e costumes dos cristãos novos, pois os processos de Granada e de Lisboa foram levantados precisamente por suspeitas de práticas judaicas do cristão-novo Gonçalo Vaz.
 As testemunhas de acusação são habitualmente cristãos velhos (Cristãos não de origem judaica ou outra) que poderão estar prontos a incriminar o réu. Todas estas declarações talvez devam ser sujeitas ao “crivo da verdade”, dado que é difícil sabermos se foram mesmo proferidas pelos depoentes, ou se foram postas pelos escrivães na boca dos intervenientes no Processo.
Gostaríamos de vir a receber comentários de conhecedores do judaísmo que permitam perceber se ainda hoje estas práticas se mantêm, se são diferentes ou mais completas.

Observemos agora uma síntese dos depoimentos das testemunhas, no respeitante a rituais e costumes judaicos:
 - Vivem na Rua Nova e há uma testemunha que considera errado viverem todos na mesma rua e no mesmo bairro, porque mais facilmente praticam os seus costumes sem serem vistos.
- Guardam os sábados.
- As cerimónias são em conjunto e na presença de um rabino ou de uma mestra e de porta fechada, embora alguns cristãos novos guardem o Sábado sozinhos.
- Nas sextas-feiras à tarde limpam e varrem as casas, limpam os candeeiros em que lançam azeite novo e põem torcidas novas que acendem mais cedo que o costume e ficam acesas de noite até se apagarem; põem lençóis lavados na cama; perfumam a casa.
- Ao sábado vestem melhor, usando roupas limpas, especialmente camisas e toucados, calçado novo e enfeitam-se como em dia de festa. Trabalham muito menos que noutros dias. Não se costura aos sábados, mas sim ao domingo, na cama, antes da missa e frente ao marido.
-“Fazem um certo comer” em loiça nova e em que só a dona da casa mexe. Confeccionam-no de 6ª para sábado. Põem a mesa com muita solenidade e comem ovos, grão e peixe que aquecem no sábado num pouco de borralho. Há também um manjar com azeite e pescada. Fazem pão ázimo, não finto, nem lêvedo.
- Os jantares de sábado e as ceias são mais abundantes e melhores e até à criada dão pão alvo, enquanto durante a semana era de centeio.
- Na quinta-feira Santa (de Endoenças) comem um cordeiro cingidos com umas toalhas e com saiados nas mãos.
- Nas outras quintas-feiras jejuam, só comendo quando já há estrelas no céu.
 - Jejuam aos dez dias da lua de Setembro. Este dia era tão importante que ”até os gatinhos jejuam”; é como a festa da Páscoa. Jejuavam também às segundas e quartas da Quaresma.
- Ordenham uma cabra para uma panela nova, sem medir, nem coar, nem tocar em nada, nem enxaguar a panela e sem nada dentro numa 6ª feira de Endoenças. Por altura das Endoenças (Semana Santa) a dona da casa escolhe trigo à mão, manda moer, peneira por peneira nova muito basta, guarda a farinha e só ela amassa (com outro trigo não era assim). Depois faz uns bolinhos do tamanho de patacões (1). As testemunhas partiram um nos olivais da Fonte das Galinhas e acharam que não tinha sal, nem fermento e que era muito enresinado por dentro. A dona da casa amassava estes bolos numa gamela nova que não servia para outra coisa. Estes deviam ser feitos numa fornalha num sótão da casa, porque no dia-a-dia o pão era cozido fora. Neste sótão também iam rezar às sextas-feiras. Estes bolos eram comidos só na Quaresma, às sextas-feiras à noite. A patroa nunca come carne de porco. Da carne da rês miúda tirava o soro junto das costelas. O pão comum era amassado pela empregada, tendido pela ama e às vezes a massa era envolvida nas mãos e lançada nas brasas.
- Às quartas lançam farinha sobre as “comeeiras” das portas e janelas. Não explicam a razão.
- É também referido que no tempo das uvas, no mês de Setembro, a uma quinta-feira se vestiram para festa e solenidade. O curioso é a testemunha na altura ter julgado que estariam a festejar a triste nova – para os cristãos-novos seria boa notícia - do desastre de Alcácer-Quibir. (2)
- Juntam-se no dia da Rainha Ester que já vimos ser em Fevereiro.
- Quando têm familiares presos não fazem todos estes rituais.
- Tinham cuidado para que a empregada não fosse ao Castelo (onde ficava o Visitador Marcos Teixeira, o inquisidor) e prometeram-lhe muita coisa para ela não falar.
- A família de Gonçalo Vaz tinha um livro tão importante em casa, do qual dizia que, se fosse descoberto, todos seriam incriminados.
- Enquanto o Inquisidor esteve na vila, o casal Vaz não se despia para dormir. Seria para fugirem mais depressa? Talvez até utilizando a ligação que as casas tinham entre si pelos sótãos.

Notas dos editores – 1) Moeda. 2) A Batalha de Alcácer-Quibir, onde desapareceram muitos portugueses e D. Sebastião, foi em Agosto de 1578 e as testemunhas foram ouvidas mais tarde.

Transcrição dos testemunhos contra Gonçalo Vaz no seu Processo da Inquisição de Lisboa

Gonçalo Vaz
Procº de Gonçalo Vaz, nº 7772 Inquisição

Sua entrega ao Alcaide do Cárcere - 17 / 3 / 1584
Sua apresentação à Inquisição de Lisboa
[…]
Processo em Portugal

Culpas contra Gonçalo Vaz, cristão-novo, mercador, morador na vila da Covilhã
(rectificado no processo de Isabel Roiz)

Testemunha António Feo: - 9 / 7 / 1579, nas casas onde pousava o Snr. Licº Marcos Teixeira, inquisidor, compareceu Antº Feo, clérigo de ordens de Epístola, nesta vila, morador no arrabalde, na rua de S. Domingos, de 26 anos: por morar perto dos xx. nn., vê que guardam os sábados e vestem melhor nesses dias, se ajuntavam pessoas em casa de Leonor de Cáceres, x. n., viúva, e outras em casa de Gonçalo Vaz, mercador, e as que o tem feito são Joana e Isabel Roiz e Leonor Rodrigues, irmãs, filhas de Francisco de Cáceres, já defunto, e casadas com António Frz. mercador, e com Gonçalo Vaz, mercador, que dizem ser o rabino dos xx. nn., da Covilhã, e Leonor de Cáceres também é mestra, e a ela e a Gonçalo Vaz os x. n., dão grande obediência e têm com eles grande comunicação “ Que tem por grande serviço de Nosso Sñor não deixarem viver os xpãos novos todos iuntos em hum bairro nem em hua rua porque mais a seu salvo fazem suas cerimónias fiandose hus dos outros. E que isto da goarda dos sabbados he tão costumado antre as pessoas desta nação e se usa tanto nesta terra que tem pera sy em Ds e sua consciência que casi todos os goardão pello que nelles vee e que andão apartados de nossa sancta fee catholica e que se deve de dar meio por onde cessem estes erros. “

Testemunha Manuel Ravasco, no mesmo dia, x. v., que estuda medicina em Coimbra e natural da Covilhã, morador em Santa Marinha, 24 anos, que haverá 9 anos estando na Universidade de Salamanca ouviu dizer antre os portugueses que G. Vaz, mercador, que estudava leys e dois filhos de Diogo Roiz Picão, seus cunhados, que se chamam Diogo e Jorge, todos os três naturais desta vª, comeram um cordeiro qtª feira de endoenças e denunciaram deles e os dois irmãos se absentaram sem mais parecerem tee agora e Gonçalo Vaz tb. andou absente dous ou três anos, e dizem que foi pedir perdão a Roma e está nesta vª.

Testemunha Francisco Giraldes, no mesmo dia, x. velho, cardador, morador na freguesia de Stª Marinha, desta vª, 33 anos. Há 3 ou 4 anos trabalhando na casa de Gº Vaz, na rua Nova, porque ouviu que em Salamanca com seus cunhados fizera cerimónias dos judeus, comera lá o cordeiro, cingidos com umas toalhas e com saiados nas mãos e que fora pedir perdão a Sua Santidade e porque ouviu dizer que os judeus jejuavam às quintas feiras e por o não ver comer às horas costumadas suspeitou que jejuava e para apurar isto em outra quinta feira que era de quaresma, disse a seu irmão Gaspar que ficasse ali e o olhasse a ver se comia, enquanto ele testemunha não vinha e só o viram comer a horas em que havia estrelas no céu.
Mandou o dº Gº Vaz buscar ao Gaspar, leite, numa sexta feira de endoenças e recomendou-lhe que na panela, que era nova não deitasse nada e ordenhasse a cabra para lá.

Testª Ldº. António Gomez, prior de Santa Marinha ( 11 de Julho ) e nela morador, que haverá oito ou nove anos estando na Univ. de Salamanca ouviu dizer a Rodrigo Jacome, estudante que naquele tempo era, e é filho de Jacome Roiz, boticário desta vª e agora é já médico e cura em Castela, x. n., e a Antº Cam, x. velho, estudante, natural desta vª que he nas partes da Índia e a Simão Roiz, médico em Penamacor, meio x. novo que Gº Vaz comera um cordeiro com os cunhados referidos já, e foram denunciados perante mestre Sancho, que em Salamanca era comissário do stº. ofício; ele denunciante tb. foi perguntado. Repete que os dois irmãos desapareceram e que diziam que Gº Vaz fora a Roma.

Testª Caterina Antunes: - 12 de Julho - No Mosteiro de S. Francisco, na capela de Jorge Cabral, x. velha, mulher de Diogo Vilela, tintureiro, 30 anos; que há 10 anos a esta parte, por viver na R. Nova, sabe que os x. novos, guardam o sábado, jejuam a 10 dias da lua de Setembro, nas sextas feiras à tarde guardam e limpam as casas, vestem neste dia roupas limpas, especialmente camisas e toucados limpos ao Sábado - trabalham muito menos que nos outros dias, e em Setembro comportam-se como em dia de Páscoa. Ajuntam-se em casa de Leonor de Cáceres, mulher que foi de Miguel Roiz, já defunto, que foi já preso pelo stº. ofício, a qual dizem que é grande mestra e em casa de Gonçalo Vaz que faz panos e é filho do Ldo. Fernão Vaz; este ano, no dia da Rainha Ester viu ir a casa deste onde estava sua mulher Leonor Roiz, Isabel Roiz, mulher de António Frz, mercador, irmã desta, com uma filha chamada Leonor e estavam com a porta fechada.

Testª António de Proença, meirinho desta vª, nela morador, (14 de Julho) 45 anos, Viu muitas vezes entrar em casa de Leonor de Cáceres, mestra de x. novos, que mora na freguesia de S. João ( do Hospital ), enfeitadas como em dia de festa, a mulher de Gº Vaz, que já foi penitenciado e tem em muito má conta, por ser seu vizinho, e por ouvir dizer, a uma criada chamada Maria, que é detraz da Serra, que na casa dele se fazia um certo comer em só sua mulher punha a mão, em louça nova, e que lá iam comer os x. novos.
Hector frz, notário do stº ofício o escreveu.

Testª Manuel Frz, cardador, x. velho, morador nesta vila, defronte de S. Francisco, 24 anos, que nesta sexta feira de endoenças, faz dois anos, mandou comprar uma panela nova a um moço já defunto, filho de André Vaz e fosse buscar um pouco de leite e desse por ele o que lhe pedissem mas que havia de ordenhar na própria panela, sem medir, nem coar, nem tocar em outra coisa nenhuma, nem enxaguar a panela, e que não tinha ninguém doente em casa: que ouviu dizer a F.co Geraldes, cardador, morador em Sta. Marinha que o dº Gº. Vaz rezava os salmos de David sem gloria patri, que estava um dia sem comer e que ele tb. sabe do leite.

Testª Diogo Vilela ( 15 de Julho ), x. novo, tintureiro, morador na R. Nova, 30 anos, que por viver na R. Nova e ter muita comunicação e amizade com os x. novos, especialmente com Miguel Vaz, tosador e com Leonor Roiz, sua mulher, que tem por muito bons cristãos que lhes descobriram alguma coisa que eles como apartados da fé costumam fazer.
Os sobreditos x. novos é que lhe chamavam a atenção para os factos aliás já todos apresentados por outras testemunhas.

Testª António Roiz, mancebo, solteiro, filho de Francisco Roiz, da pedreira, cardador, de vinte e dois anos, que trabalhou em casa de Gº Vaz, três anos a esta parte, morador em S. Domingos. Guardavam os Sábados, varriam a casa às sextas-feiras, limpava os candeeiros em que lançava azeite limpo e punha torcidas novas e os acendia mais cedo que nos outros dias e ficava aceso de noite e depois de se alevantar  se estava aceso não o apagavam, lançava lençóis lavados na cama, faziam o comer de sexta para sábado, jejuavam 2ª e qtas da Quaresma e nestes dias punham a mesa com muita solenidade e   comiam ovos, grão e peixe e por uma sua moça lhe dizer, que costumam em qta feira de endoenças lançar farinha sobre as comeeiras das portas e janelas, o que atentando viu. É muito amigo do Réu por boas obras que dele recebe.


Testª Isabel de Jesus:- 12 de Agosto. - No mosteiro de Stª Clara da Guarda, religiosa professa do dº mosteiro há 8 ou 9 anos pouco mais ou menos estando ela doente de uma grande enfermidade, curou-a o Dr. Antº Vaz, x. novo, morador e físico nesta cidade da Guarda e perguntando-lhe ela quando lhe ensinava os erros declarados na sua denunciação, se sua mulher era judia e tinha mostrado isto a outra pessoa, respondeu que sua mulher era boa xristã e que não sabia isto dele mas de seu irmão Gonçalo Vaz, que tb. era letrado e que lhe ensinara a ser judeu e que pelo o culparem fora a Roma; e segundo sua lembrança lhe disse que o não culpara a ele, e assim lhe disse que mais sentiria culpar ella a seu irmão por se ter já acusado que a ele.

5 de Agosto
Francisca Dias, na Guarda, trazida por Francisco Mexia, meirinho da visitação, esta mulher que disse ser x. velha, moradora na vª da Covilhã, na R. de S. Domingos: por haver informação que dissera que não havia de confessar nada por ser muita amiga dos x. novos e que fora a casa de Gº Vaz e quando este lhe perguntou o que na missa do stº ofício se passara, lhe contou tudo.

Declaração de Hector Frz., de que tudo tresladar em forma. Lisboa 10 / 5 / 1581. 
[…]

Testemunhas
- 7 / 7 na Covilhã e pousadas de Estevam Magro
Ana Glz, mulher de Domingos Glz, de alcunha o almotacel, x. velha, 22 anos - que sabia que a mulher de Gº Vaz guardava o sábado - o mesmo fazia Isabel Dias e sua filha Leonor Dias e faziam jejuns tb. com Leonor Glz, mulher de Fernão Roiz, o piqueño, com louça nova, certo manjar com azeite e pescada. Que ouviu dizer a uma Isabel Teixeira, mulher de António Frz que a Leonor Roiz, mulher do dº Gº Vaz: guarda dos sábados, comida às sextas, pão ásimo; tb. viu o dito pão em casa de Isabel Dias, sem embargo de o não comer mas que o conhece por não ser finto nem lêvedo; um dia saiu a dita Isabel Dias, sua ama, enfeitada, vestida com camisa lavada e toucas lavadas e calçado novo e acompanhada de sua filha, fora do costume, em dia de trabalho.
3 / 6 / 585 - a mesma
Perguntado se lembrava do seu depoimento disse que não e pediu para lhe ser lido, confirmou e assinaram e deram fé os Revdºs padres o Dr. Francisco Nunes, Vigário e reitor da Igreja de Nossa Senhora, matriz desta vª e o Dr. António de Sequeira a quem pareceu que a testª falava verdade.
[…]

28 / 6 / 584 - Isabel Teixeira, mulher de António Frz, cardador, x. velha, 20 anos, disse que tinha algumas coisas respeitantes ao sto. Ofício.
Diz que viveu por soldada por espaço de 7 anos com Gº Vaz e Leonor Roiz: a sua ama pelo tempo das endoenças escolhia trigo à mão, que mandava moer, peneirava por peneira nova muito basta e tirava o olho daquela farinha e o guardava e ela só amassava, costumando a outro trigo mandá-lo fazer por ela denunciante, fazia uns bolinhos do tamanho de patacões; dando ela conhecimento do caso a Ana Gtt (que já depôs) ela lhe disse que sua ama Isabel Dias, mãe do dito Gº Vaz fazia os mesmos bolos; havendo ambas as sopeiras um à mão o partiam ambas nos olivais da Fonte das Galinhas, o qual bolo julgaram não ter sal nem fermento, muito enresinado por dentro e este bolo achou a denunciante à cabeceira da cama da dª Leonor Roiz; esta o procurou com muita diligência; Leonor Roiz amassava estes bolos numa gamela nova, que não servia de outra coisa e que tb. são raspadoura apartada para a dita massa, vira comer os ditos bolos nas sextas feiras à noite à dª sua ama e a Antónia Roiz, sua mãe e isto via pelo buraco da câmara, Antónia Roiz, que costumava dormir com a filha a dª Leonor, que quando estava só fazia a mesma coisa; o comer fazia-se às sextas feiras e era grão, peixe e ovos, que nos sábados aquentavam num pouco de borralho. Leonor Roiz perfumava as casas à sexta feira e lançava lençóis na cama lavados nesse dia, excepto depois da prisão de sua irmã Isabel; Gonçalo Vaz vestia roupa lavada a domingo, embora antes das prisões dos parentes o fizesse tb. às sextas, algumas vezes; tb. os lançavam na cama dela porque jaziam lá os seus meninos; não costurava aos sábados a ama, mas muitas vezes o fazia ao domingo, na cama, antes da missa e perante o seu marido. Os jantares de sábado e as ceias eram mais abundantes e melhores e a ela davam-lhe nesse dia pão alvo, comendo pela semana centeio; somente rezavam Leonor Roiz e sua mãe antes de cear; nas sextas feiras, num sobrado mais alto da casa, o que não faziam nos outros dias.
Estando Marcos Teixeira na vila, altercando ela com a patroa, esta lhe disse que não lhe falasse soberba porque eles todos queimados valia mais a sua cinza que todo Marcos Teixeira; e que entrando ela sopeira um dia de Fernão Vaz, já defunto, ele altercava com o filho Gaspar dizendo: porque me levas o meu livro fora pois sabes que só esse livro nos podem queimar a todos. Disse mais que a dª Leonor Roiz não comia carne de porco magra nem gorda nunca e da carne da rez miúda tirava o sem junto das costelas e ela o tirava tb. por seu mandado e que posto que ela denunciante amassava pão ordinário ela, sua ama, Leonor Roiz o tendia e lançava muitas vezes massa nas brasas emborilhada nas mãos dizendo que era para os meninos; que Gonçalo Vaz quando foi preso a mandou chamar à cadeia e lhe pediu que não testemunhasse contra eles, que sempre falasse por sua boca e que a não enganasse palavras de Estevam Magro; que não lhe satisfizeram seu serviço, mas fizeram-lhe grandes prometimentos que vindo o fariam muito bem com ela ( à margem : havia dois meses que estava fora de casa )
6 / 7 / 584 - 2º depoimento da mesma
Que soube que certas coisas que a ama fazia eram de judia - porque a Ana Gtt. a avisara que olhasse a ama porque eram de judia essas coisas. Que pensava que os bolos se faziam numa casa que estava no alto da casa, numa fornalha, porque o pão ordinário ela o levava a cozer fora; fora da quaresma não se recordava de ver os dºs bolos.
Dizia Gonçalo Vaz, às vezes à mulher : “ Leonor Roiz muito vos fiais desta nossa Teixeira, ao que ela lhe respondia : se fio, porque se for necessário tomar vinte juramentos por amor de mim o há-de fazer “.
Até a prisão de António Vaz, irmão do Gonçalo, dava-lhe ordinariamente as camisas à sexta feira. Depois da vinda de Leonor de Cáceres, de Coimbra, nunca as vestiu à sexta feira, ela Leonor Roiz.
Não disse isto perante Marcos Teixeira, porque a não requereram para isso, nem os seus amos a deixavam vir ao Castelo onde o dito inquisidor pousava, antes a vigiavam se vinha e em todo o tempo que o dito inquisidor esteve na vª os seus amos não dormiam despidos.
[…]
Aos 12 / 7 / 579 - ( Cnª. Antunes )
- Leonor de Cáceres e suas duas filhas que tem em casa Beatriz Soares e Francisca da Silva e outra que se chama Branca Glz ( paz ? ) Guiomar Roiz, mulher de Manuel Vaz, mercador e Serena Mendes, mulher de Rodrigo de Matos, alfaiate, Beatriz Soares, viúva; e Branca Roiz, viúva, irmã de Leonor de Cáceres; Isabel Roiz, viúva, mulher de Francisco Roiz.
- Leonor Roiz, mulher de Diogo Feijó, a qual disse um dia a ela denunciante que desejava viver onde vivesse pouca gente onde ninguém lhe soubesse sua vida e ver-se morta com ela para se saber qual andava errada e por ela denunciante lhe responder que Cristo vencera e que assim havia ele de vencer, disse a dita Leonor Roiz, como zombando, assim seria; também viu guardar a mesma festa a Guiomar de Matos, meia x. nova, mulher de Manuel Lopes, x. velho e ouviu dizer a Leonor Roiz, mulher do dito Miguel Vaz, tosador, que Isabel Roiz, x. nova do Fundão, filha de Leonel Roiz, que daqui se foram para lá e é casada, não sabe com quem, dissera que naquele dia de Setembro até os gatinhos jejuavam e que a filha mais velha de Leonor de Cáceres dissera à dita que se guardasse dela denunciante que lhe fizera quebrar um jejum.
Viu guardar a dita festa de Setembro a Gaspar Dias, filho solteiro do Licenciado Fernão Vaz e a Carlos Roiz, filho de Francisco Roiz Piquã.
- No mesmo dia - Manuel Fernandes, cardador, - o mesmo que declarou atrás.

- 15/7/579 - Diogo Vilela
- Leonor Mendes, mulher de Manuel Mendes, mercador e sua filha solteira Violante Mendes, mulher de Francisco de Flores que já foi penitenciado pelo Sto. Ofício;
- Filipa Nunes, viúva, mulher que foi de Diogo Vaz, que também foi presa e penitenciada a qual se enfeita por ser viúva e sua filha Branca Roiz; António Frez ( ? ) mercador e sua mulher Isabel Roiz, viúva, sogra do dº Manuel Mendes que é tida por Mestra e foi-se já apresentar ao sto. ofício. Tem para si que todos os x. novos de sua rua e daquele bairro os guardam e vivem apartados de nossa Santa Fé e “ dos homens não conhece tanto por serem mercadores e costumarem sempre folgar e andar fora de suas casas “
- Leonor de Cáceres e suas filhas Beatriz Soares e Francisca da Silva, sua sobrinha também Beatriz Soares, mulher de Francisco Roiz, mercador e Maria, sua filha que é já mulher; e Beatriz Soares, viúva, também sua sobrinha que veio para aqui da Guarda; e Guiomar de Matos, mulher de Manuel Lopes, cristão velho que elas mantém e Maria, sua filha que é já mulher; Carlos Roiz é mercador, alguns o guardam sozinhos em sua casa.
- Jorge Roiz, tosador; e Francisco Fernandes, sapateiro; Duarte da Fonseca Morão e disto saberá Catarina Pais, cristã velha, mulher de Pero Dias, rendeiro das penas que vive na freguesia da Madalena e tem para si que muitos outros cristãos novos e  cristãs novas celebram esta festa mas como não viu coisa em particular não os nomeia.

- No mesmo dia, António Roiz
Isabel Roiz, cristã nova, mulher de António Fernandes Cáceres e sua filha Leonor Roiz que está em casa; e o ano passado pelo tempo das uvas, no mês de Setembro numa Quinta Feira, que é o tempo em que a esta terra chegou a triste nova de África, se vestiram de festa e guardaram aquele dia em grande solenidade: “ teve ele denunciante para si que faziam esta festa pelo grande contentamento que mostraram pelo desbarate de África mas agora que ouviu ler o édito da fé lhe parece que o faziam por cerimónia judaica “ e al não disse.
[…]

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