quarta-feira, 1 de junho de 2011

Covilhã - Sobre o Processo da Inquisição de Gonçalo Vaz I

Sobre o Processo da Inquisição de Gonçalo Vaz

 Luiz Fernando Carvalho Dias copiou o processo da Inquisição de Lisboa de Gonçalo Vaz (1) com o intuito de estudar a biografia deste covilhanense cristão-novo. Dela pretendia deduzir a vida comercial dos mercadores da Covilhã, bem como profissões, rituais, costumes e talvez a posição dos cristãos novos da Covilhã perante o resto da população. Não teve tempo de cumprir estes objectivos, mas nós vamos tentar realizá-los.

A maior parte dos processos da inquisição que consultámos, limitam-se a uma fastidiosa descrição de inúmeras ocorrências, sem precisão de datas nem de factos.
Revelam, muitas vezes, a necessidade que os apanhados nas malhas do Santo Ofício tinham de mostrar alguma  colaboração com o tribunal e de demonstrar um certo arrependimento, como forma de minimizar a sua situação e de sofrer a menor pena possível sem, por sua vez, causar muitos danos àqueles seus parentes e conhecidos que tinham de denunciar. Sobre os falecidos, os relatos que os denunciantes fazem são detalhados, mas quanto aos vivos, só relativamente àqueles com quem tinham ódios ou desavenças familiares é que sentimos nessas denúncias um desejo de incriminação. Estamos numa época em que quem se calasse e não delatasse poderia ser sujeito a torturas e à pena capital. Por isso, na maior parte dos processos o que vemos referido pode resumir-se ao seguinte tipo de relato: Que haverá certo número de anos e na casa de fulano, o denunciante encontrou-se com o réu e com F. e F. e confessaram que viviam na lei de Moisés, guardavam os sábados, dia em que vestiam roupa lavada, faziam o jejum nos dias prescritos pela lei mosaica e pouco mais. Se efectivamente era isto que eles confessavam, ou se era esta a forma mais cómoda e expedita para quem anotava estas declarações, assoberbado, certamente, por um imenso número de processos e desejoso de facturar o mais possível pelo seu trabalho, nunca o saberemos.
Das penas aplicáveis devemos transcrever o que esclareceu Anselmo Braamcamp Freire (2) sobre a fraseologia usada pelos Tribunais da Inquisição: “O que ela chamava cárcere perpétuo tinha a duração de três anos; o cárcere perpétuo sem remissão, cinco anos. Isto servia para aterrorizar os penitenciados e não só estes, mas todo o mundo, que essa era a preocupação da Inquisição”. Para além destas penas, havia, é claro, penas mais leves e a pena capital, em que o réu era relaxado (entregue) à justiça secular, terminando na fogueira.
No seu processo, o covilhanense Gonçalo Vaz conta praticamente todo o percurso da sua vida, inicialmente passada na Covilhã onde, em certa noite, segundo relata, junto a um pomar no “Pedregal” nos arredores da Covilhã, assistiu ao homicídio de um jovem de Penamacor. Depois, receoso das consequências, fugiu para Valência de Alcântara, em Espanha, onde tinha um primo, o Licº Diogo Gonçalves, médico.
Diz que em seguida seguiu para a cidade de Salamanca onde, durante três anos, frequentou a Universidade, no curso de leis. Luiz Fernando Carvalho Dias obteve de um Professor da Universidade de Salamanca, cujo nome não nos deixou, uma cópia dos termos de matrícula dos estudantes portugueses num dos anos (1567/8) em que Gonçalo Vaz frequentou esta Universidade (3). Aí encontramos a prova da sua presença no curso de Leis, assim como da dos seus companheiros com quem judaizou, e ainda de outros covilhanenses: Um que, mais tarde, como comissário do Santo Ofício, intervirá no seu processo de Lisboa e outro, António Cão, irmão de Manuel Cão que irá ser morto por António Vaz, seu irmão.
De Salamanca, com o receio de ser acusado pelos seus companheiros que haviam sido presos pela Inquisição em Valladolid, em virtude de ter participado em certo jantar escandaloso para os seguidores da Fé de Cristo, foge para Osuna, onde frequenta um colégio universitário. De Osuna, dizendo-se aconselhado por um padre a quem se fora confessar, vai apresentar-se à Inquisição de Granada onde fica preso e permanece, durante três anos nos Conventos de Santa Cruz e da Trindade. Acaba por sair desta cidade alegando que seu pai, o Licenciado Fernão Vaz, estava preso na justiça secular e necessitava do seu auxílio. De regresso à Covilhã inicia a sua actividade de mercador e fabricante de panos, dedicando-se também ao comércio de outros artigos, como espadas, lãs e açafrão pelas várias feiras do reino e percorrendo os vários caminhos da Península.
Mais tarde volta a cair nas malhas da Inquisição, chegando a ser acusado de Rabino da Covilhã. Os principais denunciantes são os pais e demais familiares de um seu conterrâneo pertencente às famílias “Cão” e Proença, com grande influência na Covilhã, que fora morto por seu irmão António Vaz.
Na sua defesa apresenta vários documentos e diversas testemunhas. Daqueles destaca-se uma Carta de Inimizade de D. Sebastião (4) que lhe foi concedida contra a família do falecido Manuel Cão, de forma a anular a sua denúncia. Das testemunhas que apresentou, aparece o alcaide-mor de Belmonte, Fernão Cabral, sobrinho bisneto de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, vários religiosos da Covilhã, e um flamengo, Marçal de Colónia, que aparece frequentemente em vários documentos ligados à história dos lanifícios, o que revela as boas relações que ele mantinha quer com cristãos velhos, quer com cristãos novos.
     Mostra-nos ainda o processo o estado de ansiedade em que viveram Gonçalo Vaz e sua mulher durante a estadia na Covilhã do Visitador Marcos Teixeira. A testemunha Isabel Teixeira, x.v. (cristã velha), de 20 anos, que viveu de soldada em casa de Gonçalo Vaz, diz-nos que o pai de Gonçalo Vaz discutiu certo dia com o filho por causa de um livro que este lhe levara para fora de casa, dizendo que “só por esse livro nos podem queimar a todos”. Disse mais que Gonçalo Vaz, quando foi preso, a mandou chamar à cadeia e lhe pediu que não testemunhasse contra eles. Que nesse período a vigiavam e não a deixavam ir ao Castelo, onde Marcos Teixeira pousava e em todo o tempo que este esteve na vila os seus amos não dormiam despidos. Como curiosidade anotamos também que a testemunha Isabel Teixeira disse ainda, sobre a patroa e a mãe do réu, que elas iam a um olival junto à Fonte das Galinhas. Ora essa fonte, como se sabe, ainda hoje existe na Covilhã.
     O casal vivia na Rua Nova (5) em casa contígua à de outros familiares. Essas casas tinham sobrados abertos, o que possibilitava, em caso de necessidade passar de umas para as outras e conseguir a fuga com sucesso.
     Após a leitura deste processo compreende-se melhor  as razões que levaram os cristãos novos a desenvolver actividades mais ligadas ao comércio e à indústria, não os encontrando no sector primário, a viver em locais próximos da fronteira com Espanha e a serem possuidores, essencialmente, de bens móveis, evitando os "bens ao luar".

Notas dos Editores – 1) Já referido  neste blogue em Covilhã - Contributos para a sua História dos Lanifícios V e em  Lista dos Sentenciados sob o nº 100. Posteriormente ir-se-á apresentar a sua biografia.  2) Freire, Anselmo Braamcamp, “O Conde de Vila Franca e a Inquisição”, Lisboa 1899, pág 87, retirado de Azevedo, Elvira Cunha, “O Sefardismo na Cultura Portuguesa”, pág. 110, Colecção Mutações, Livraria Paisagem, Editora, Porto, 1974. 3) e 4) Contamos apresentar a lista dos bacharéis e estudantes covilhanenses na Universidade de Salamanca no ano de 1567/8, bem como transcrição de documentos e de testemunhos constantes do processo de Gonçalo Vaz. 5)A rua Nova, correspondia, em muitas terras, normalmente, à antiga rua da Judiaria, designação que deixou de ser utilizada após a expulsão dos judeus do país. Vide Tavares, Maria José Ferro, As Judiarias de Portugal, Edição Clube do Coleccionador dos Correios, CTT Correios de Portugal, 2010.


Publicações neste blogue sobre o processo de Gonçalo Vaz:




1 comentário:

  1. Muito interessante.

    É un facto que o Judaismo existiu em Portugal. Não menos importante foi o fenómeno da Inquisição, como consequência.
    Foi, é de lamentar toda a política de intolerância que se fez praticar.
    É de lamentar igualmente a expulsão dos Judeus, de Portugal.

    Obrigada Maria do Céu Jordão Morais e Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias.

    ResponderEliminar