quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Covilhã - Mosteiro de Santa Maria da Estrela VIII



     Retomamos a publicação de mais opiniões, documentos ou referências sobre o Mosteiro de Santa Maria da Estrela deixadas por Luiz Fernando Carvalho Dias.
     Começamos com a transcrição de uma parte da Descrição de 1943 sobre a Covilhã, da autoria de Luiz Fernando Carvalho Dias, já apresentada, a propósito da Senhora da Estrela:

[...] “Correndo o olhar pelo Vale do Zêzere distingue-se já a tocar com os lodeiros, a pequena ermida de Nossa Senhora da Estrela e evoca-se o antigo Convento de Santa Maria da Estrela, ou Maceira da Covilhã, ilustrado na sua função pela legenda ingénua dos Ursos, fundado pelo voto de D. Egas Moniz e fonte perene donde escorreu prodigamente por todo o vasto domínio de casais e herdades, desde a Capinha e Sortelha até ao Côa, a sabedoria agrícola dos monges brancos de Claraval." […]
[…] “Mais ao norte, o Picoto, talhado na rocha abrupta, a esconder a Penha Furada, que Gil Vicente, conhecedor raro destes atalhos e serranias, juntou nas estrofes do Auto Pastoril Português à Senhora da Estrela, que lá para baixo mora na sua capela pobrinha das margens do Zêzere.
Chegando à Penha Furada
Àquem da virgem da Estrela
Achei ser uma donzela…”

A imagem hoje venerada nas Festas de Setembro

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      Em seguida vamos publicar uma carta de Luiz Fernando Carvalho Dias ao Director do Boletim da Casa das Beiras acerca duma questão levantada “pelo senhor X” em 1938 sobre a localização do Mosteiro: 
 
“Exmo Sr. Director do Boletim da Casa das Beiras 

Em o número de Outubro de 1938, da brilhante revista de que V. Exª é director, vem um artigo “Milagre de Senhora de Estrela” da autoria do senhor x, que peço licença para comentar. Refere-se esse artigo a um milagre da Senhora da Estrela, de que foi beneficiário Egas Moniz e ao mesmo tempo a um Convento da Senhora da Estrela fundado posteriormente por Lourenço Viegas. Porque esse artigo está em contradição com a verdade histórica, ou pelo menos com documentos que ao mesmo convento se referem, limitar-me-ei por agora a expôr o que no mesmo artigo me parece fantasia, e o que nele há de verdade.
Sobre o que aparece no artigo como fantasia literária nada direi. Quanto a factos históricos:
- O Convento de Santa Maria da Estrela ficava situado no termo da Covilhã, hoje freguesia da Boidobra, onde ainda existe a Capela da Senhora da Estrela e a Quinta da Abadia.
Provas: 1º O documento de arrecadação de esmolas para a guerra pontifical – 1329 in Fr. Manuel dos Santos.
2º Testamento de D. Afonso III.
3º Memória dos Mosteiros de S. Bernardo segundo a visitação sobre as rendas dos mosteiros no tempo de D. Manuel, em 1498.
4º Catálogo de todas as Igrejas, Comendas e Mosteiros que havia no reino de Portugal e dos Algarves, nos anos de 1320 e 1321.
5º Várias obras referentes à ordem de Cister, que poderia citar.
6º A tradição existente nas freguesias do termo. 

Panorâmica actual dos terrenos que rodeiam a Capela da Senhora da Estrela.
As fotografias foram tiradas por Miguel Nuno Peixoto de Carvalho Dias
 
       Fr. Bernardo de Brito a ele se refere na sua Crónica de Cister, embora a verdade deste historiador sofra há tempo de pouca veracidade, mas logo Fr. António Brandão que é reputado historiador sério vai na peúgada de Fr. Bernardo de Brito, declarando que viu um pergaminho do Mosteiro de Cárquere em que se refere ao milagre da Senhora da Estrela a Egas Moniz – milagre que foi a base da fundação do Convento. Nem um nem outro o localizam. Para quê? Se todos nesse tempo o conheciam e lhe sabiam a situação, tanto mais que o Cardeal-Rei o incorporou em 1570 no Colégio de S. Bernardo de Coimbra, juntamente com mais duas casas de Cister: Tamarães e Convento do Espírito Santo de Coimbra! Que este foi o mosteiro que o abade de Maceiradão mandou reconstruir, não resta dúvida; o testamento de D. Afonso III e a memória da Guarda referem-se ao convento de Maceira da Covilhã; que é o de Santa Maria da Estrela também não resta dúvida do documento do mesmo tempo, citado por Fr. Manuel dos Santos; que não era convento novo, também está patente no facto de continuar a pertencer á linha de Alcobaça.
Portanto o Convento de Santa Maria da Estrela estava situado à beira da Covilhã; este convento é aquele que a tradição diz ser fundado pelo filho de Egas Moniz, Lourenço Viegas, em memória do milagre dos Ursos, este foi o convento mandado reconstruir pelo D. Abade de Maceira Dão; este convento é o mesmo que ardeu em vésperas do Natal.
        Posto isto, que mais desenvolvidamente apresentarei numa memória sobre o Convento de Santa Maria da Estrela, que presentemente estou a preparar, vejamos onde o Senhor X confundiu: imaginou e quiz fazer história. Diz este Senhor “muitas pessoas em cumprimento de vários votos lhe doaram os seus bens, como Ausedes e sua esposa”! Esta confusão provém de o dito senhor querer localizar, a toda a força, o Convento da Senhora da Estrela em S. Romão de Seia, e apresentar dados históricos a favor da sua tese. Porém tudo se desfará se soubermos que em S. Romão de Seia existiu nesse tempo um Convento de Cruzius, a quem, segundo Fr. Nicolau de Santa Maria, na sua Crónica, doaram todos os seus bens, na verdade, um tal Ausendus e sua mulher! Toda a pretendida interpretação que se quer fazer através do Elucidário de Santa Rosa Viterbo, é vã: nem do Capítulo Schola nem da palavra Civitas se lhe colhe alguma coisa para fundamentar esta patusca história de um Convento da Estrela em S. Romão de Seia. Existe aí, na verdade, uma capela da Senhora da Estrela. Mas isso não basta. Uma Capela com o mesmo orago existiu em S. Paio de Gouveia e, no entanto, ninguém se lembrou de dizer que foi ali o Convento de Santa Maria da Estrela, voto de Egas Moniz e, portanto, dos frades de Cister.” (1) 

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