segunda-feira, 2 de maio de 2011

Covilhã - Uma descrição de 1943

Este texto que agora se publica, embora não sendo inédito, é dos mais antigos do autor e também pouco divulgado. Trata-se de um retrato duma Covilhã em parte desaparecida, com interesse não só para os que hoje queiram saber como era a cidade em meados do século XX, mas também para aqueles que desejem compará-la com a Covilhã actual.

“Quem da estação do caminho-de-ferro desejar subir à Covilhã, terá de seguir pela estrada alcatroada e, chegando ao primeiro cruzamento, optar pela estrada íngreme do Cerrado dos Frades que passa ao norte da Escola Industrial e dá ingresso, por São João de Malta – junto dos muros da antiga Comenda – no labirinto das ruas escusas da Covilhã; ou continuar pelo piso suave de macadame, correr por entre socalcos verdejantes, deixando à direita o edifício da cadeia nova, atravessar a ribeira da Goldra sobre a ponte (gótica) de Manta em Collo, entrar mais acima, na estrada que vem do Fundão e por ela, depois de passada a Palmatória (bifurcação com a estrada das Pedras Lavradas) atravessar de novo a ribeira de Goldra, agora sobre a ponte do Rato, para atingir a cidade por S.O. Deixemos à esquerda a estrada que leva à antiga igreja do Senhor da Ribeira, curioso exemplar (em ruínas) do século XVIII, à Empresa Transformadora de Lãs (uma das mais modernas fábricas de penteação e fiação de lãs), ao Bairro da Saudade, ao Bairro da Companhia e, através da ribeira, a inúmeras instalações fabris, honra e timbre da Covilhã, para continuarmos pela via alcatroada e sermos logo dominados, de ambos os lados, pelo pesado edifício da Fábrica Real, assente em duro granito, blocos arrancados aos panos desmantelados das muralhas cinzentas e feitos alicerces da típica construção pombalina, onde se alberga hoje o Batalhão de Caçadores nº 2. Mais adiante, para além do arco que liga os dois corpos do quartel, divididos pela estrada, aconchega-se, humilde na traça românica das suas pedras, a vetusta Capela de S. Martinho (Monumento Nacional).
Foi há pouco tempo restaurada pela Direcção Geral dos Monumentos Nacionais. Merecem um momento de observação duas tábuas de Primitivos, que nela se guardam, uma representando S. Lourenço, e outra Santo Estêvão, que parecem ter sido os dois quadros laterais dum tríptico. Podem ainda admirar-se nesta capela a curiosa janela românica, sobre o portal da entrada, e um calvário em tela, do século XVIII, de pintor português.
            A estrada que desde o Quartel tomou o nome de Avenida Marquês de Ávila e Bolama, continua a tornear a cidade, inclina-se de S. João de Malta até à velha fonte das Galinhas, desce depois a escarpa até à Ribeira da Carpinteira, outra fonte de energia fabril dos lanifícios covilhanenses, para, sobre a ponte dos Costas, deslizar ainda entre fábricas e engenhos a caminho do Teixoso, e se esconder em seguida, para lá da bacia aurífera do Corges, nos corredores apertados de Belmonte na direcção da Guarda. Abandonando a Avenida do Marquês de Ávila e Bolama, junto do Peso da Lã, cujo topónimo nos recorda certa medida pombalina sobre o trato das lãs, deixa-se à esquerda a Rua de S. Tiago, onde fica o Tribunal da comarca, para, da Rua do Visconde da Coriscada, um dos arruamentos da antiga Judiaria, entrarmos no Largo de S. Pedro. (Se cortássemos à direita e torneássemos as ruas da Alegria e das Flores, poderíamos admirar duas formosas janelas manuelinas).
Seguindo em frente, deparamos logo com a Igreja da Misericórdia, construída nos fins do século XVI, já de acentuadas características filipinas. O altar-mor é de rica talha portuguesa desse século. Entramos agora, pela pequena rua da Misericórdia, na Praça do Município (vulgarmente conhecida pelo nome de Pelourinho), fulcro de toda a vida covilhanense. Ergue-se logo ao fundo o edifício filipino dos Paços do Concelho, construído sobre a antiga câmara quinhentista, em 1614. Atrás, à direita, ainda se pode reparar numa janela manuelina que nos diz ter sido ali o antigo palácio ducal do Infante D. Luiz, pai do prior do Crato, que o habitava nas suas curtas visitas à Covilhã, de que era donatário.
            O arco do Pelourinho, antiga porta da muralha, dá acesso à rua de Santa Maria    (ou do 1º de Dezembro), no topo da qual se destaca o antigo Palácio dos Ministros, espaçoso edifício do século XVII, onde actualmente se encontra instalada a Conservatória do Registo Predial e a Secretaria e Tesouraria das Finanças. Na sua frente ergue-se, majestosa, a Igreja de Santa Maria do Castelo (ou de Roque Amador), a matriz das igrejas covilhanenses.
Esta igreja sofreu no decorrer dos tempos várias reconstruções, de tal ordem que se encontra de todo destituída da sua traça primitiva, oferecendo-nos hoje o aspecto de um templo sem características arquitectónicas apreciáveis. Entre as suas imagens destaca-se uma boa escultura em madeira, da Senhora das Dores, do século XVII, proveniente do antigo convento de Santo António, e uma outra da Assunção, do cinzel do escultor Caldas. As suas preciosidades resumem-se hoje a uma custódia de prata dourada, cuja perfeição é digna de admirar-se, e a um valioso relicário do Santo Lenho, oferta do Imperador Carlos V ao Infante D. Luiz, após a conquista de Tunis.”

Covilhã, 1943
(Continua em

Luiz Fernando de Carvalho Diashttp://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/05/covilha-uma-descricao-de-1943_03.html

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